Mulheres, cultura do machismo e a pandemia. Por Regiane Pimentel

Durante toda a história mulheres são as que mais sofrem quando ocorre qualquer tipo de catástrofe no mundo. Principalmente na perda de direitos, conquistados sempre com muita luta.

Mas não é só isso, infelizmente, que nos afeta, ainda pode piorar. A cultura do machismo e as estruturas patriarcais a que somos submetidas contribuem muito para tal realidade.

Regiane Pimentel *

Estamos vivendo um momento histórico, a maior crise sanitária dos últimos cem anos. As pessoas estão tristes, doentes, assustadas, e isso tudo faz parte do processo de se presenciar um momento tão peculiar como esse, de enfrentamento a um vírus ainda desconhecido pela ciência e que nos fez rever vários conceitos e comportamentos.

Ninguém precisa fingir que está tudo bem, pois não está. Tampouco se culpe se não conseguiu aprender nesse tempo algo produtivo, ou não foi capaz de aprender um novo idioma, ou finalizar um curso online, uma pós, enfim, não se cobre e nem se sinta incapaz, estamos todos confusos demais, e, repito, está tudo bem.

Momentos como esse são especialmente críticos para mulheres. Muitas podem não fazer parte do grupo de risco, mas sempre serão parte do grupo de cuidados. Estamos presenciando relatos de mulheres sobrecarregadas com trabalhos domésticos.

No Brasil, segundo dados do IBGE de 2019, têm 11 milhões de famílias compostas por mães solo, suas tarefas em casa triplicaram por causa do isolamento, e ainda temos que encarar essa cultura sexista de que homens não devem realizar trabalhos de casa. Importante deixar claro, que, homens que lavam seu próprio prato ou o banheiro que utilizam, não são seres especiais, são apenas homens comuns realizando uma tarefa normal.

 

Mas além da carga física, ainda tem a carga emocional, pois é aquela invisível, que ninguém percebe, ou fingem que não veem. A sobrecarga psicológica afeta muito mais às mulheres na pandemia, segundo estudos recentes. Esses problemas já eram enfrentados antes, mas a pandemia os trouxe com outros agravantes e isso precisa ser debatido, repensado.

Diante de uma crise como essa, os direitos das mulheres tão duramente conquistados são descartados rapidamente, por isso a importância de se debater a desigualdade de gênero e as pautas femininas que já vinham sendo questionadas.

E por que não falar disso agora? Nosso futuro também está em jogo e precisamos sim falar sobre conceitos como equidade, segurança, autonomia e independência femininas.

A sobrecarga de trabalho doméstico, a exposicão à violência e a vulnerabilidade econômica são aspectos exarcebados por isolamento social que indicam a desigualdade de gênero.

Como se isso tudo já não fosse tão pesado e cruel, ainda há outro monstro, a violência doméstica e o feminicídio. A gente acha que o lar de uma mulher deveria ser o lugar mais seguro para ela, afinal, foi assim que nos foi ensinado. Mas não é.

No âmbito da violência doméstica e familiar, os dados são alarmantes, e escancara as iniquidades transnacionais a que estão submetidas mulheres em períodos de crise humanitária, e esses dados não se limitam apenas ao Brasil, se estendem ao resto do mundo. Parece que o mundo nos odeia.

Durante esse período há relatos de mulheres fugindo de casa com a roupa do corpo, muitas sendo violentadas e sofrendo agressões dentro de sua própria casa, por seus próprios companheiros. É triste constatar que o refúgio e o conforto do lar é justamente o local mais perigoso para mulheres que sofrem com a agressividade de seus parceiros.

O Brasil é o quinto em taxa de feminicídio no mundo. A região da América Latina, como um todo, é a mais perigosa para mulheres fora da zona de guerras. Em nosso país, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada e a cada 2 segundos uma mulher é agredida. São dados preocupantes e alarmantes.

Os casos de feminicídios também aumentaram nessa pandemia, mulheres sendo mortas só pelo seu gênero, só por serem mulheres. É um tema muito delicado, difícil falar a respeito sendo mulher e fazendo parte desse quadro que nos atinge independente de classe social.

Essa preocupação é global e não se restringe ao Brasil, mulheres no mundo todo estão sendo vítimas de violência por conta do isolamento forçado. Inclusive a ONU e o Papa Francisco já manifestaram  preocupação a respeito do assunto.

Você deve tá se perguntando o que fazer para mudar isso!? Não tenho uma resposta certa para algo tão complexo, nem o governo tem. É fato que as políticas públicas precisam ser voltadas para essa temática, é preciso que se invista em verbas para ações de combate e prevenção à violência doméstica e familiar. Mas é necessário também que haja urgentemente um debate sobre igualdade de gênero, e isso pode ocorrer em nosso ciclo familiar e social. Pode partir de nós, sim, pode.

 

Importante ressaltar que a violência contra a mulher permanece como a mais cruel e evidente manifestação da desigualdade de gênero no país e também cria a cultura da violência sexual.

O assunto é longo, não cabe em um único artigo, mas eu peço a todas as mulheres e faço aqui um convite: procurem conhecer a história dos nossos direitos conquistados, se informem sobre nossas pautas, participe da nossa luta, se insira na política local, esteja do seu próprio lado sempre, a mudança tem que começar por nós.

É importante o engajamento de todas, por que lugar de mulher é onde ela quiser.


— * Regiane Pimentel é bacharel em direito, assessora do DEM, feminista e ativista. Reside em Santarém (PA).

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