O extermínio das mulheres no Brasil e sua normalização. Por Regiane Pimentel

Esse é o terceiro artigo que falo sobre feminicídio esse ano. Tinha outras ideias para dissertar nesse domingo, mas não posso fingir que está tudo bem.

O número de mulheres que estão sendo assassinadas nessa pandemia em nosso país é assustador. Até a ONU está preocupada com esse quadro tão lamentável.

Regiane *

Somos o quinto país em taxa de feminicídio no mundo e não temos um Alcorão em nossa mesa e nem estamos no Médio Oriente. Vivemos em um país laico e democrático, mas há algo de muito errado com a nossa sociedade.

São tempos sombrios, não posso negar, estamos enfrentando a maior crise sanitária dos últimos 100 anos. São muitos mitos para desvendarmos todo santo dia. Há o vírus de uma doença desconhecida e  o vírus da ignorância também.

Elegemos um governo negacionista e obscurantista. Nosso representante maior não acredita no vírus, acha que é apenas uma gripezinha mesmo que mais de 170 mil pessoas tenham morrido por conta da covid-19 que nos assola. São mais de 170 mil histórias desfeitas, mais de 170 mil sonhos e famílias dilaceradas.

 

No meio disso tudo, de tantas dores e doenças está também a vida das mulheres sendo ceifada. Mas essas estão sendo exterminadas por homens lúcidos que não aceitam que relações acabam e acham que as mulheres lhes pertencem e que podem fazer o que bem querem com suas vidas.

Eu nem consigo dizer com exatidão o quanto aumentou o número de feminicídios em nosso país, dessa vez não quis pesquisar como fiz para os outros artigos. É pesado demais.

Todo dia vejo nos portais da internet mulheres sendo mortas, ocorre mais de uma vez ao dia, mais de 2, mais de 5 vezes, são muitos casos, e sempre a motivação é referente ao gênero, crime de ódio, misoginia.  

Aqui no Pará, por exemplo, o índice de feminicídio aumentou 118 por cento, foi o único crime violento a registrar aumento no primeiro semestre no Pará. O Brasil registra um caso de feminicídio a cada 7 horas.

O isolamento social e a pandemia são fatores cruciais para o aumento da violência doméstica e feminicídio, sabemos disso. Por conta dessa situação atual, mulheres estão mais vulneráveis socialmente, ficam mais em casa com seus agressores, sim, vamos dá os nomes certos, quem violenta sua mulher é um agressor antes de ser marido, e isso está causando um enorme aumento de casos de feminicídios em nosso país.

 

Eu já falei em artigos anteriores sobre a armadilha que é o casamento, o quanto essa ideia é vendida de modo errado, não conheço instituição mais opressora. Vejam bem: onde as mulheres deviam estar protegida é justamente onde estão sendo mortas, homens que lhe juraram amor eterno estão ceifando suas vidas.

Você deve está se perguntado “então por quê casar”? Não vou me ater muito a isso, mas o casamento é um projeto muito bem articulado do patriarcado. Mulheres casadas não protestam, não produzem, não estudam.

Elas estão muito ocupadas com o serviço doméstico, o patriarcado faz com que elas confundam serviços de casa com amor. Não é. Nunca será. É apenas um serviço não remunerado.

Eu já conheci mulheres incríveis, inteligentes, que se anularam pro mundo tentando “consertar um cara ou um casamento”, por que o patriarcado falou que esse é seu dever, é estrutural, essa ideia é perpetuada e dilacera a vida de muitas mulheres maravilhosas que viram estátuas em nome de um amor que nunca existiu e que as leva ou para o anonimato ou para o caixão.

Expor mulheres a gestações indesejadas, não planejadas, encher suas casas de crianças cada vez mais pobres e sem escola é uma forma de perpetuação de ciclos de pobreza. Isso mantém mulheres subjugadas aos seus maridos e dependentes do Estado. É um plano bem articulado.

Estamos chegando ao ponto de normalização do feminicídio, ou até mesmo de romantização, sem exagero nenhum. Quando uma mulher é assassinada por seu parceiro ainda vejo com frequência as pessoas justificarem, tentando achar culpados, banalizando algo tão cruel.

O cara que comete um crime desse não é louco, não está doente de amor, não, não. Ele está bem lúcido, é um homem comum, normal, que convive no meio social, vamos parar de atribuir loucura a quem é perverso e criminoso.

O Governo Federal odeia as mulheres e isso nunca foi segredo. O presidente Bolsonaro antes e depois que foi eleito já fez declarações misóginas, não vou repeti-las. Seu plano de governo é esse, pra mim não teve novidade nenhuma, ele está fazendo exatamente o que prometeu.

 

 A ministra Damares é uma ofensa para nós estando no comando da Pasta da Mulher. Ela foi colocada ali de propósito, é só um recado do presidente nos dizendo o quanto nos odeia. É uma mulher totalmente despreparada para o cargo, não tem o mínimo de capacidade técnica.

Recentemente, para marcar o fim da violência contra as mulheres, Damares fez bolos durante uma live. Isso mesmo!!!

Antes de me tornar feminista, eu achava a frase da ativista  Marie Shear, que diz “Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente”, um enorme exagero. Mas hoje eu vejo o quanto a frase está certa e faz todo o sentido.

Ainda lutamos pelo mínimo de civilidade, por direitos civis básicos, ainda lutamos pelo direito de existir.

Isso é ser mulher, é nascer com um alvo nas costas!


— * Regiane Pimentel é bacharel em direito, feminista e ativista social. Reside em Santarém (PA). Escreve no blog sobre feminismo.

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Lugar de mulher também é na política.

O trabalho doméstico como ferramenta de anulação das mulheres.

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