
Assim que a procissão do Sairé segue pelas ruas de Alter do Chão, com a saraipora carregando o arco, que representa a arca de Noé e que possui três cruzes simbolizando a Santíssima Trindade, outro símbolo de grande importância da festa é levado durante a caminhada: a coroa do Divino Espírito Santo.
A Festa do Sairé deste ano será de 18 a 22 deste mês, no distrito de Alter do Chão, em Santarém (PA). Será a 52ª celebração do evento profano-religioso de relevância nacional.
Leia também sobre o Sairé:
- Barracão do Sairé, o coração da festa de Alter do Chão.
- Mastros do Sairé: símbolos que iniciam e finalizam a festa de Alter do Chão.
Não é um símbolo cheio de tantos destaques nos meios de comunicação, como o arco e os mastros. Por isso, costuma ter poucos escritos sobre seu conceito e sua utilidade na festividade da vila balneária.
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Mas a coroa sempre teve tem um valor inestimável e uma importância que não pode ser negada. A presença desse elemento religioso em diversos momentos da festa deve ir além do entendimento dos boraris e ultrapassar fronteiras. Deve ser compartilhado com os visitantes e fiéis que vão para conhecer a festa religiosa.
Representa a terceira pessoa da Santíssima Trindade
A coroa é um símbolo religioso que, como o próprio nome diz, representa o Divino Espírito Santo. O objeto é confeccionado em prata e adornado com fitas coloridas de cetim, tendo as cores representativas do Sairé (verde, azul, vermelho, braço e amarelo).
Assim como os mastros, essas cores, também encontradas nos outros símbolos, como o arco e nos ornamentos da festa, representam a fartura de alimentos adquirida pelos moradores da comunidade, representando também a fertilidade da terra.

Costuma estar sempre próxima ao arco, sendo, a coroa, participativa nas procissões da festa religiosa, levada pelas mãos da juíza durante as caminhadas. Por representar o Espírito Santo, a terceira pessoa da Santíssima Trindade, há quem a chame, entre os fiéis e curiosos, de “santo” nas procissões do Sairé.
Cantos ao Espírito Santo e à Nossa Senhora
Há um antigo canto citado por pesquisadores, dedicado ao Espírito Santo, que assim era escrito e cantado, em língua geral:
Pecaçutinga u uié Urure meapá uru pé Yané Iara Tupana renondé Yané Iara Tupana renondé.
Depois desse canto, era entoada a Ladainha à Nossa Senhora, que assim dizia: Santa Maria Cunhã Puranga Ê Jesus, ê Santa Maria Santa Maria imembira iaué catu Ê Jesus, ê Santa Maria Santa Maria iputira ipó popé Ê Jesus, ê Santa Maria
Assim que a coroa chega de uma das procissões, será a troneira que receberá das mãos da juíza, depois de toda caminhada realizada nas ruas da vila. Assim que recebe, o símbolo do Espírito Santo é guardado num espaço preparado para a coroa lá ficar durante os dias de festa, dentro do barracão.

Cerimônia de Beija-fitas
Nos horários noturnos, são realizados vários rituais, tendo a coroa como símbolo central desses momentos importantes. Ao fim desses rituais, junto a rezas e cantos, é feita uma cerimônia tradicional, chamada “Beija santo” ou “Beija-fitas”.
Para que essa cerimônia aconteça, a juíza se senta sobre uma cadeira. Em seguida, é colocada sobre seu colo uma estola branca e larga. Sobre a estola é colocada a coroa. É um momento de reverência que os fiéis farão antes do término definitivo do ritual.
É mais um momento sagrado, em que os fiéis, diante da coroa, fazem seus agradecimentos à Deus pelas graças e conquistas recebidas, assim como também fazem pedidos ao Espírito Santo. Outro momento oportuno de conexão divina.
O beijo é iniciado pelos personagens do Sairé, de forma hierárquica, começado pelo juiz, seguido pelos mordomos, procuradores, entre outros assistentes. Até mesmo a juíza participa do beijo, sendo que quem terá a coroa no colo será o juiz.
Para que seja feito o beijo da fita de forma correta, o fiel precisa fazer primeiro a genuflexão, ou seja, sobra o joelho direito até o chão, como sinal de respeito, e sem seguida beija as fitas ou até mesmo a própria coroa.
A coroa nos cuidados do procurador
Quando termina o Sairé, a coroa do Divino Espírito Santo é guardada pelo procurador da festa, responsável por guardar e zelar pelos outros símbolos do Sairé, ou seja, é o guardião dos objetos utilizados nos ritos religiosos. Quando necessário, é o procurador quem substitui o juiz e a juíza.
Enquanto não chega setembro, a coroa é bem cuidada e guardada longe das pessoas. Quando chega o esperado mês festivo, esse símbolo sagrado torna-se mais um protagonista dessa tradição, chamada Sairé.

Fonte:
- Çairé: Uma festa na Amazônia (livro de Socorro Santiago, de 1999 | 1ª edição – ICBS);
- https://diariodofb.com/2023/09/12/cinco-simbolos-do-rito-tradicional-do-saire/
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