Onde a euforia domina, a vulnerabilidade se instala; onde a crítica recua, o passado retorna. Por Josué G. Vieira

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Onde a euforia domina, a vulnerabilidade se instala; onde a crítica recua, o passado retorna. Por Josué G. Vieira
Juanito Laguna Remontando Un Barrilete (1973), de Antonio Berni

A história latino-americana ensina com regularidade pedagógica e cruel que a vitória raramente é um ponto de chegada; com frequência, ela marca o início de uma zona de risco. Desde o século XIX, episódios celebrados como libertação, vide independências formais, queda de regimes autoritários, revoluções sociais, intervenções externas apresentadas como solução, foram seguidos por rearranjos que preservaram estruturas antigas sob novas formas.

O poder mudou de mãos, mas a lógica abissal das elites permanece, dependências econômicas se aprofundam e o autoritarismo reaparece com outras linguagens e justificativas. Esse padrão revela que o problema não reside nos acontecimentos históricos em si, sim na forma como eles são metabolizados.

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A política latino-americana sempre operou sob forte carga afetiva, a vitória é vivida como redenção moral, como se o simples colapso do inimigo resolvesse conflitos estruturais acumulados ao longo de décadas. A euforia coletiva cria a ilusão de que o perigo ficou para trás, quando na realidade é o mesmo, mudou apenas de lugar, nesse ponto o triunfalismo se revela uma armadilha recorrente, pois ao substituir a vigilância pela celebração, produz-se desmobilização cívica e cegueira institucional.

O entusiasmo excessivo suspende perguntas incômodas: quem controla os meios de coerção? Como se reorganizam as alianças? Que interesses permanecem intactos? A narrativa do triunfalismo transforma processos longos e conflituosos em histórias de final feliz, situação antagônica do que a experiência histórica do continente sugere, uma vez que é justamente após a vitória que a atenção deve se intensificar.

Onde a euforia domina, a vulnerabilidade se instala; onde a crítica recua, o passado encontra caminho para retornar. A experiencia histórica latina aponta para o ceticismo não como cinismo ou abandono da esperança, ele parte da premissa de que toda ruptura visível oculta continuidades menos evidentes, e que é nessas zonas de permanência que o futuro costuma ser decidido.

O ceticismo da experiencia social latina não nega a importância dos marcos, como a queda de um líder, um acordo político, uma eleição, ele entende como momentos históricos que marcam transições. Essa postura implica recusar a narrativa confortável do “retorno à normalidade”, expressão que na história latino-americana sempre significou o retorno a uma normalidade excludente, desigual e autoritária.

A assinatura de tratados, a troca de governos ou a reabertura formal de instituições não desmontam, por si, as engrenagens que sustentam o poder real dos aparelhos de coerção, as dependências econômicas, os pactos silenciosos entre elites e a naturalização da desigualdade como ordem social.

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Em um continente marcado por vitórias que frequentemente anunciaram novas derrotas, o ceticismo racional emerge como sobrevivência, como condição prática para que a história não precise recomeçar do mesmo ponto.

Desde meados do século XIX, a América Latina tem sido marcada por um movimento circular que se repete com variações, momentos de ruptura são seguidos por expectativas intensas de renovação, logo substituídas por frustração social e por recomposições que preservam o núcleo do poder anterior.

As independências celebradas como nascimento de nações soberanas, produziram Estados formalmente novos, mas socialmente antigos, as hierarquias coloniais foram adaptadas ao vocabulário republicano e as estruturas fundiárias às formas de dominação econômica e exclusão de acesso à renda.

El Grito (1976), de Oswaldo Guayasamín

O liberalismo político do século XIX, importado como promessa de modernidade institucional encontrou terreno instável para se enraizar, Constituições foram promulgadas, parlamentos instituídos e eleições organizadas, tudo isso coexistiu com sociedades profundamente desiguais e com Estados incapazes de arbitrar conflitos sem recorrer à força.

Como observa Tulio Halperín Donghi em História da América Latina (2000), o republicanismo latino-americano nasceu tensionado entre a linguagem da lei e a prática da força. A presença recorrente de intervenções militares internas e externas consolidou esse padrão, golpes, pronunciamentos e guerras civis funcionaram como mecanismos informais de reorganização do poder sempre que os arranjos institucionais falhavam em absorver conflitos sociais e econômicos.

Assim, o ciclo histórico se repetiu, se naturalizou, produziu uma cultura política na qual a ruptura foi celebrada, a frustração internalizada e a recomposição autoritária passou a ser percebida como destino histórico, quando na verdade, é resultado de escolhas políticas reiteradas ao longo do tempo.

Ao longo do século XX, a lógica cíclica que marcou o século anterior reapareceu sob roupagens modernas e discursos adaptados ao novo vocabulário político. Golpes militares passaram a ser apresentados como atos de “salvação nacional”, legitimados pela retórica da ordem, do anticomunismo ou da reconstrução moral do Estado.

No Brasil, em 1964, no Chile, em 1973, e na Argentina, em 1976, a promessa de estabilização e progresso ocultou a instauração de regimes de exceção prolongados, baseados na suspensão de direitos, na repressão sistemática e na reorganização autoritária da vida social, a euforia inicial alimentada por setores civis e econômicos rapidamente deu lugar nas capilaridades sociais a um cotidiano de medo e silenciamento.

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Esses regimes se sustentaram por uma engenharia política sofisticada que combinou violência institucional, controle da informação e reconfiguração econômica. Ao mesmo tempo em que reprimiam a dissidência, redefiniam os termos da inserção internacional de seus países, aprofundando modelos econômicos dependentes e concentradores de renda.

A exceção tornou-se norma, e a normalidade passou a ser medida pela ausência de conflito visível, o resultado foi a consolidação de Estados formalmente fortes na repressão, estruturalmente frágeis na mediação democrática dos conflitos.

As transições democráticas dos anos 80 representaram uma inflexão histórica decisiva, contudo, como analisam Guillermo O’Donnell e Philippe Schmitter em Transitions from Authoritarian Rule (2006), esses processos foram marcados por pactos assimétricos, negociações sob tutela e concessões que limitaram o alcance da justiça e da reforma institucional.

O ceticismo racional emerge dessa aprendizagem histórica dura e recorrente, o Estado não se transforma no ritmo das manchetes, nem na cadência dos eventos espetaculares. Mudanças visíveis de quedas de governos, eleições emblemáticas, anúncios de reformas, tendem a produzir a sensação de virada imediata, mas raramente alcançam o núcleo das engrenagens estatais.

Burocracias, aparelhos de segurança, sistemas jurídicos seletivos e pactos econômicos informais operam em temporalidades mais lentas e resistentes, frequentemente impermeáveis ao entusiasmo político de curto prazo.

Onde a euforia domina, a vulnerabilidade se instala; onde a crítica recua, o passado retorna. Por Josué G. Vieira
Los Camuflados (1978), de Beatriz González

O caso venezuelano precisa ser compreendido como expressão concentrada desse padrão histórico latino-americano e não como anomalia isolada. Colapso econômico prolongado, erosão institucional, autoritarismo persistente, polarização social extrema e intensa disputa geopolítica não surgem do nada nem se explicam apenas pela vontade de um governante.

Nesse contexto, o debate público tende a se mover entre duas ilusões simétricas e igualmente empobrecedoras, a primeira reduz a crise à permanência de um líder, como se o autoritarismo fosse um desvio pessoal e não um modo de funcionamento do sistema político. A segunda aposta na ideia inversa, a de que a saída desse mesmo líder, por si só, seria suficiente para inaugurar uma nova ordem democrática.

Ambas compartilham o mesmo erro analítico, a substituição da estrutura pela figura, do processo pelo evento, da política pela dramaturgia; a ilusão da personalização absoluta do poder ignora que regimes autoritários se sustentam por redes complexas de interesses, que envolvem forças armadas, aparelhos de segurança, elites econômicas, burocracias estatais e circuitos informais de recursos.

A crença de que a queda do líder inaugura automaticamente uma nova ordem política revela um otimismo histórico que a experiência latino-americana já desmentiu repetidas vezes. Transições políticas sem reforma profunda das instituições tendem a produzir continuidade sob nova linguagem, o autoritarismo muda de tom, a repressão se torna seletiva, a desigualdade se naturaliza novamente e a frustração social retorna com força ampliada.

O problema central não é quem governa, mas como se governa, com que instituições, sob quais incentivos e com que capacidade de controle social, a crise venezuelana não será superada por substituições simbólicas nem por narrativas de redenção, mas por um processo lento de reconstrução institucional, econômica e social.

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Reconhecer isso não diminui a gravidade da situação; ao contrário, é o primeiro passo para enfrentá-la sem repetir os equívocos que, no continente, transformaram tantas vitórias aparentes em novas formas de fracasso histórico. Nesse ponto, o ceticismo racional não nasce de uma tradição intelectual ou de uma leitura histórica sofisticada, vem de uma construção social forjada pela experiência prolongada da crise humanitária.

Anos de colapso econômico, hiperinflação, escassez de alimentos e medicamentos, repressão política e êxodo massivo corroeram a confiança da população em promessas de mudança rápida. O cotidiano da sobrevivência ensinou de forma brutal que discursos políticos raramente se traduzem em melhoria material da vida, e que toda promessa precisa ser medida pelo que efetivamente entrega.

Essa vivência produziu uma população politicamente exausta e profundamente desconfiada, o ceticismo é memória social do fracasso reiterado, ele se forma quando o trabalho deixa de garantir sustento, quando a mobilidade social se torna impossível e quando o futuro passa a ser percebido como ameaça, não como horizonte.

O ceticismo emerge como resposta defensiva racional a um longo processo de empobrecimento material, desigualdade extrema, opressão cotidiana, fome e medo, que minou a crença na política como promessa de ascensão e dignidade. Longe de representar imobilismo, esse ceticismo é uma forma de lucidez adquirida à força, uma consciência coletiva de que mudanças reais se constroem lentamente sob vigilância constante, ou não acontecem.

A Logo for America (1987), de Alfredo Jaar

O triunfalismo da recente operação militar norte-americana confundiu “mudança de cena” com “mudança de estrutura”, a captura de Maduro pelos EUA em 3 de janeiro de 2026 e a reacomodação do governo em torno de Delcy Rodríguez criam ao mesmo tempo uma sensação de virada e um ambiente de incerteza institucional, o centro do poder se desloca, porém a engrenagem cotidiana do Estado, ministérios, forças de segurança, cadeias de comando, controles territoriais e circuitos de renda, tende a continuar operando sob novas justificativas.

Em termos sociológicos, o problema não é “esperar demais”, mas esperar do lugar errado, depositar toda a mudança na simbologia do evento e não na reconfiguração de capacidades estatais e garantias verificáveis.

O ceticismo, é um efeito histórico da desigualdade aprofundada e da experiência de medo, ele se converte num “senso prático” que pergunta não apenas “quem entrou”, mas o que muda amanhã no acesso a comida, remédios, transporte, escola, trabalho, proteção contra abuso e extorsão. Assim, ao invés de “celebrar a transição”, o ceticismo tende a operar por testes empíricos sucessivos.

Há redução comprovável de violência e arbitrariedade? Há liberação consistente de presos e garantias para dissidência? Há sinais de recomposição institucional que não dependam de tutela militar ou de tutelas externas? Há transparência mínima sobre gestão de petróleo e sanções, de modo que a renda não volte a ser instrumento de captura política?

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A América Latina não carece de vitórias; carece de lucidez após elas, o problema histórico do continente foi a dificuldade recorrente de sustentar, depois deles, uma atenção crítica capaz de impedir a restauração das velhas lógicas de poder. A Venezuela encaixa-se nesse padrão histórico latino-americano, o esgotamento do chavismo-madurismo produziu dentro e fora do país a expectativa de que a remoção do líder encerraria automaticamente o ciclo autoritário.

Essa leitura repete um erro antigo do continente, confundir mudança de comando com transformação estrutural, assim, como em outros momentos latino-americanos, o risco é o que vem depois da vitória e como se pode fazer uso prudente dessa vitória, que tende a gerar desmobilização social, terceirização da política e tolerância com soluções provisórias que rapidamente se tornam permanentes.

Onde a euforia domina, a vulnerabilidade se instala; onde a crítica recua, o passado retorna. Por Josué G. Vieira
La Trinchera (1926), de José Clemente Orozco

O verdadeiro perigo raramente é a derrota explícita, mas a vitória mal interpretada, aquela que se converte em mito fundador e desarma a crítica, quando a sociedade acredita que “o pior já passou”, tende a baixar a guarda justamente quando novas formas de dominação começam a se reorganizar. A história do continente está repleta de exemplos em que a vitória preparou o terreno para novas dependências, autoritarismos renovados ou desigualdades aprofundadas.


❒ Josué Vieira, santareno, é professor, escritor, poeta e pesquisador sobre Sociedade, Cultura e Amazônia. Mora em Manaus (AM). Leia também dele: Katy, um reino além da consciência. E ainda: Desesperos, morte e silêncio na Colônia Vertical dos Perdidos.

∎ Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião do JC. A publicação deles obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros, prioritariamente, e de refletir as diversas tendências do pensamentos contemporâneo.

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One Response to Onde a euforia domina, a vulnerabilidade se instala; onde a crítica recua, o passado retorna. Por Josué G. Vieira

  • O ceticismo é saudável, concordo. Mas fica a curiosidade: em que momento, afinal, a realidade estaria autorizada a nos convencer? Quais sinais concretos permitiriam menos desconfiança e mais reconhecimento de mudança real?

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