PT: se não formos alternativa, seremos mais um entre os outros por aí. Por Sérgio G. Martins

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PT: se não formos alternativa, seremos mais um entre os outros por aí. Por Sérgio G. Martins
"O PT é a maior força política de esquerda do Brasil e, sem sombra de dúvida, está entre as maiores do mundo"

Na última segunda-feira (13/05), a Comissão Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT)
homologou mais 31 nomes de candidatos/as a prefeito/a que serão lançados ou apoiados pelo
partido nas cidades com mais de 100 mil (ver aqui).

Dentre estas cidades está confirmado o apoio petista a José Maria Tapajós do MDB, velho conhecido da cidade, que em 2018 foi alçado a suplência na Alepa pelo atual partido de Bolsonaro. A decisão põe fim à controversa escolha, a despeito de o documento de aprovação falar em unanimidade na votação do diretório municipal.

O PT é a maior força política de esquerda do Brasil e, sem sombra de dúvida, está entre as maiores do mundo. A capilaridade social que o PT ainda esbanja, a despeito de problemas e dos críticos ao partido, tem sido peça fundamental na construção das vitórias eleitorais para Presidência, cujo score, desde que voltamos a votar para presidente em 1989, é de 5 vitórias, dos 9 pleitos realizados desde então. Ficando em segundo lugar nos demais.

Exemplo dessa capacidade política foi 2018, quando sofrendo ataques diários sem qualquer trégua desde a campanha pelo Golpe de 2016 contra a Presidenta Dilma, o partido ainda cravou mais 47 milhões de votos em favor de Fernando Haddad, atual ministro do governo Lula.

Seremos tão fortes assim nas eleições municipais em 2024? Primeiro, não há correlação imediata entre os resultados do pleito nacional e municipal. Mas um estudo da Fundação Perseu Abramo já demonstrou que há uma tendência a melhores resultados nas eleições municipais quando seguidas de vitórias eleitorais nacionais (ver aqui).

Nas eleições municipais de 2020, o PT, que estava à frente de 254 prefeituras, conquistou apenas 181, e a tônica de figuras públicas do partido, como o coordenador do grupo de trabalho eleitoral do PT, senador Humberto Costa, é de que elegeremos mais prefeituras do que as que governamos hoje. Pelo que historicamente foi apurado, possivelmente esta será a tendência, conforme o estudo citado.

Outro número fundamental está relacionado a densidade do eleitorado. Em 213 cidades do país que concentram 50% do eleitorado, é possível que o PT tenha entre 89 e 125 “candidaturas petistas”. Isso quer dizer que em 124 das 213 maiores cidades brasileiras, o eleitorado poderá não ter a possibilidade de votar no PT.

Santarém, cidade já administrada pelo PT, com mais de 200 mil eleitores, 3º maior colégio eleitoral do Pará, que figurava entre as cidades prioritárias do partido por essas características (ver aqui), conforme deliberação de seu Diretório Nacional, infelizmente não terá oportunidade de avaliar uma candidatura petista para a prefeitura por decisão equivocada.

O partido já esteve à frente de mais de 600 prefeituras, se consolidando como uma das maiores forças no Brasil (aqui), sob ataque antes, durante e depois do golpe de 2016, vivenciou uma queda sem precedentes (aqui), chegando em 2020 a não eleger nenhuma prefeitura de capital, o que não acontecia desde a redemocratização. O severo ataque do campo antipetista não é de se desdenhar, mas não explica tudo.

Em nossa opinião, a despeito dos resultados de táticas eleitorais de frente amplíssima podem trazer, elas acabam por rebaixar esse enorme ativo de mobilização e capilaridade social. Um episódio marcante foi quando o rapper Mano Brown, frente a uma plateia que esperava dele uma palavra de força para o então candidato Fernado Haddad em 2018, mandou o recado: “Se nós somos o Partido dos Trabalhadores, o partido do povo tem que entender o que o povo quer. Se não sabe, volta para a base e vai procurar saber” (aqui).

Apesar de sua capilaridade social, atualmente é visível que o PT se mostra muito insuficiente quando se trata de viver o cotidiano das maiorias trabalhadoras, perdeu muito de sua capacidade de se mostrar como catalisador de lutas contemporâneas, afinal, o mero cálculo eleitoral o tem afastado, cada vez mais, da vida do povo e de suas vivências nas cidades, como apontou Brown em 2018.

Aqui na Amazônia, a métrica parece ser a mesma, afinal apostamos muito pouco em projetos transformadores que leve em conta as maiorias trabalhadoras. Esse barco precisa mudar o rumo. O próprio presidente Lula durante a celebração dos 44 anos do PT fez esse chamado, nos convidando a uma guinada, uma espécie de retorno às raízes (aqui).

"Devemos seguir o conselho de Lula e adotar um método de trabalho que combine a ação nas ruas e nas redes"

Aliás, a vida orgânica da militância e suas lideranças junto à vida do povo precisa se tornar realidade novamente. Precisamos de um partido com uma alma combativa, organizativa e vinculada às maiorias batalhadoras. Não podemos nos conformar com discussões em grupo de rede social, zapeando o debate sobre nosso futuro de lá para cá.

Devemos seguir o conselho de Lula e adotar um método de trabalho que combine a ação nas ruas e nas redes. Nunca seremos capazes de grandes conquistas se a tônica for apenas a “lacração”, isso só funciona para a extrema-direita. Precisamos de trabalho de base, acima de tudo, fazendo das redes apenas veículos para ampliação desse trabalho.

Alguns passos precisam ser dados para tornar isso uma realidade. E começa por retomar adequadamente nossos fóruns de discussão. Afinal, sem vivência comunitária, sem os núcleos partidários, sem os coletivos setoriais funcionando adequada e regularmente, a consequência é desmobilização e insatisfações generalizadas entre militantes e dirigentes.

Nos tornamos uma alternativa real para o povo brasileiro sendo o PT da vasta e diversa classe trabalhadora cujo compromisso com a mudança social sempre esteve a frente no “fazer política”. Nosso partido foi forjado no debate, na divergência e no compromisso com a mudança social. Precisamos mais do nunca de mudanças.

Não podemos seguir rebocados por uma política de frente amplíssima sempre complicada para levar adiante políticas que favoreçam especialmente as trabalhadoras e trabalhadores desse país. Frentes nas quais cabem “todo mundo” nos diminui a própria dignidade e sobretudo a identidade, que mais cedo ou mais tarde, nos levará a ser uma força política cada vez mais assemelhada a outras que vemos por aí, dadas unicamente ao jogo eleitoral.

Pior ainda, é escolhermos uma tática que nos leva a alianças com quem nos quer subjugados e desaparecidos do cenário político municipal e nacional.

Considero que erramos, e espero que possamos fazer o balanço adequado de nossa decisão mais adiante. Como dizem por aí, as “teses” estarão a prova nas próximas eleições.

➽➽➽ Sergio G. Martins é professor e advogado.

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3 Comentários em PT: se não formos alternativa, seremos mais um entre os outros por aí. Por Sérgio G. Martins

  • Parabéns professor Sérgio Martins pelo artigo. Comungo com as ideias aqui expressas. A política não pode ser reduzida à tática eleitoral. A reunião de forças políticas municipais tão antagônicas seria saudável se fosse autêntica, embasada em compromissos sociais efetivos e alianças políticos estratégicas nacionais duradouras. Alianças eleitoreiras efêmeras, baseadas no oportunismo interesseiro de ambos os lados, são o caminho do fracasso. A briga vai ser feia lá na frente! Vamos ao jogo!

  • Dr Sérgio: gostaria de agradecer a sua publicação que reconheço como construtiva. E também expressar a minha solicitação para conhecê-lo. Meu nome é Everaldo Martins e atualmente eu sou presidente municipal do Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras em Santarém. O sr sabe onde é a nossa sede ? Podemos recebê-lo nela. Ou ir ao seu encontro. Tomara que seja possível o nosso diálogo presencial. Aguardo , por favor.

  • Elogiar o Sérgio Martins e o blog do Jeso pelo excelente texto.

    Um texto muito bom. Fala das nossas forças e nossa importância social. Fala de quanto estamos nos perdendo e precisando voltar às origens. Nosso desafio é entender que não somos partido de centro e muito menos de direita. Que possamos, como Partido dos Trabalhadores, recuperar o interesse público de tratar de temas que melhoram a vida das pessoas. Nossa disposição para assumir uma cadeira de vereador é exatamente para dialogar com nossa militância e com a sociedade, para voltarmos a decidir o rumos que precisamos seguir. Um PT mais dos trabalhadores e das trabalhadoras é possível. Meu compromisso é com essa ideia. Santarém necessita do nosso partido. Esta seria a hora de voltarmos e darmos a dignidade que os santarenos reclamam. Se não foi possível agora, o faremos ser mais adiante. Para fortalecer esta instituição que sou Pré-candidato a vereador. Convido todas e todos, para juntos pensarmos a Santarém que queremos.
    Um forte abraço. Vamos à luta.

    Juntos somos mais fortes.

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