
A série de reportagens do JC sobre nepotismo na administração pública de Santarém (PA) ganhou neste sábado (9) seu mais novo e volumoso capítulo. O vereador Sérgio Pereira (PP), de 50 anos, reeleito em outubro de 2024 com 2.704 votos e integrante da bancada governista, tem ao menos três familiares simultaneamente lotados em secretarias da prefeitura de Santarém — espalhados por três pastas distintas.
Somados, os três recebem R$ 12,5 mil dos cofres públicos. O próprio vereador embolsa R$ 19,8 mil de salário da Câmara. A família reúne, portanto, R$ 32,3 mil por mês em rendimentos provenientes do erário.
Três familiares e os 3 cargos
O levantamento do portal JC junto ao Portal de Transparência da Prefeitura de Santarém identificou os seguintes vínculos:
Juliane da Mota Pereira está lotada no Núcleo de Recursos Humanos (NRH) da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) desde 1º de janeiro de 2025 — data de início da nova legislatura. Recebe R$ 3.500,00 mensais.
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Wellington da Mota Pereira, identificado pelo JC como filho do vereador, foi admitido em 11 de fevereiro de 2025 como assessor especial I na Secretaria Municipal de Governo (Semg). Recebe R$ 5.000,00 mensais.
Carmen Juliana da Mota Pereira, também filha do vereador, foi admitida em 4 de agosto de 2025 na Secretaria Municipal de Trabalho e Assistência Social (Semtras). Recebe R$ 4.000,00 mensais.
Três secretarias diferentes, três familiares diferentes, três datas de admissão diferentes — mas um denominador comum: todos têm como parente o vereador Sérgio Pereira, que vota as contas e a legislação do governo que os emprega.
| Familiar | Cargo / Lotação | Secretaria | Admissão | Salário |
|---|---|---|---|---|
| Juliane da Mota Pereira | NRH | Semsa | 01/01/2025 | R$ 3.500,00 |
| Wellington da Mota Pereira | Assessor Especial I | Semg | 11/02/2025 | R$ 5.000,00 |
| Carmen Juliana da Mota Pereira | — | Semtras | 04/08/2025 | R$ 4.000,00 |
| Total família (sem o vereador) | R$ 12.500,00 | |||
| Sérgio Pereira (subsídio) | Vereador | Câmara | — | R$ 19.800,00 |
| Total geral ao erário | R$ 32.300,00 | |||
Juliane: admitida no primeiro dia
O caso de Juliane da Mota Pereira merece atenção especial. Sua admissão na Semsa em 1º de janeiro de 2025 coincide exatamente com o início da nova legislatura — o mesmo padrão identificado pelo JC na quarta matéria desta série, quando a esposa do vereador Enfº Joziel (PRD) foi nomeada chefe de núcleo na Semtras no dia da posse do marido.
O contexto político
As três secretarias onde os familiares de Sérgio Pereira estão lotados integram o primeiro escalão do governo Zé Maria Tapajós (MDB). O vereador Sérgio Pereira, do PP, compõe a bancada que dá sustentação política ao prefeito na Câmara — o mesmo arranjo identificado nos casos anteriores desta série, que envolve parlamentares e secretários de diferentes partidos, todos convergindo para o mesmo padrão.
A Semsa, como já havia sido revelado pelo JC na segunda matéria da série, também abriga a esposa do secretário Pedro Henrique Sousa (PRD). A Semg é a mesma secretaria onde os filhos da vereadora Ivanira Figueira (PSD) estão lotados. A Semtras é a pasta onde trabalha a esposa do vereador Enfº Joziel (PRD). O nepotismo identificado pela série não escolhe secretaria — ele permeia toda a estrutura do Executivo municipal.
O que diz a lei
A Súmula Vinculante 13 do STF (Supremo Tribunal Federal) veda a nomeação de cônjuge, companheiro ou parente, em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro grau, de ocupante de cargo em comissão ou de confiança — em qualquer dos três poderes e nas três esferas da federação. Filhos são parentes de primeiro grau em linha reta.
A vedação é direta e não admite exceções pelo fato de a nomeação ter sido formalmente assinada por outro agente público.
Padrão sistêmico
Esta é a quinta reportagem da série iniciada pelo JC na quinta-feira (7). O quadro acumulado é expressivo:
A primeira matéria revelou nepotismo cruzado entre o secretário Pedro Henrique Sousa (PRD) e o vereador Enfº Joziel (PRD) — filha e irmão do secretário na Câmara. A segunda revelou a esposa do mesmo secretário na Semsa, totalizando R$ 32.254,28 mensais para a família.
A terceira revelou dois filhos da vereadora Ivanira Figueira (PSD) admitidos nos primeiros dias do mandato da mãe. A quarta revelou a esposa do vereador Joziel nomeada chefe de núcleo na Semtras no mesmo dia da posse — e o próprio Joziel reagiu publicamente chamando o jornalista e editor do JC, Jeso Carneiro, de “indivíduo covarde” sem contestar nenhum dos fatos publicados.
Agora, o vereador Sérgio Pereira (PP) soma três familiares em três secretarias — o maior número identificado até agora em um único parlamentar.
Contraditório
O JC entrou em contato direto com o vereador Sérgio Pereira para colher sua manifestação sobre as admissões de Juliane, Wellington e Carmen Juliana nas secretarias municipais. Mas ele não respondeu. A resposta será publicada na íntegra assim que recebida, sem edição.
O portal também aguarda posicionamento da Prefeitura de Santarém e das secretarias Semsa, Semg e Semtras sobre os critérios adotados para as nomeações. O espaço permanece aberto.
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