
O senhorzinho sentado em uma cadeira em frente à sua casa, na travessa Arnaldo Moraes, observa as pessoas que caminham sobre as areias dessa via, quase na esquina com o beco Santa Isabel, no bairro Aningal, em Alenquer (PA).
É uma pessoa que ainda continua cheia de humor, com uma gargalhada característica e sentimento de saudade das épocas de sua juventude. Praticamente distante dos olhares da multidão, permanece confinado em sua residência, algumas vezes tendo que caminhar em lugares próximos, visitando parentes e buscando por distrações.
É uma pessoa que pode ser chamada tranquilamente de “lenda viva” da história popular alenquerense. Uma lenda viva que está nas lembranças e nos pensamentos de moradores de praticamente todas as regiões da cidade.
Quando se fala no seu nome, a primeira reação de quem ouve é demonstrada por um sorriso, seguido de algum acontecimento que vem de muitas recordações. Seu Minildes é um legítimo personagem ximango rodeado de admiração e respeito por parte de quem o viu por todos os cantos de Alenquer. Embora a sociedade o tenha conhecido por meio da alegria, sua trajetória construiu-se sob muitas dificuldades e grandes desafios.
Omenídio Nunes Leitão nasceu no dia 23 de agosto de 1933, na comunidade Panelas, nas proximidades do Km 23 da PA-427, em Alenquer, Pará. É filho do lavrador Anísio Malcher Nunes, natural da comunidade Morros, e de dona Maria Jovita Freitas Leitão, natural da comunidade Panelas. Foi antes mesmo de Omenídio nascer que sua história já tinha os primeiros capítulos sendo escritos.
Assim que Maria Jovita engravidou, o pai não quis reconhecer a criança. Cometeu a atitude de abandonar a mulher gestante que, por conta do que ele fez, e bastante abalada por não ter apoio da pessoa que ela esperava naquele momento importante da sua vida, tentou algumas vezes abortar, tendo, inclusive, tomado chá de buchinha (Luffa operculata), mas sem sucesso. A gestação continuou e a criança veio ao mundo totalmente saudável.

Sem a presença paterna, Maria Juvita precisou dá a criança para quem tivesse condições melhores para criá-la. Assim que ele nasceu, foi entregue ao senhor Chico Nunes. Mas a criança ficou sob seus cuidados até ela chegar nos 12 anos, quando Chico Nunes faleceu em 1945, em uma casa no Km 20 da PA-427. Em seguida, Omenídio passou a ser criado pelo seu tio Bertoldo, morador do Km 22 da mesma rodovia.
Desde criança, Omenídio trabalhou no campo realizando todos os serviços possíveis. Chegava num terreno de mata para derrubar, brocar, plantar e colher milho, mandioca, batata, cará, entre outros. Fez muito esses serviços na sua juventude.
Devido a simplicidade em que vivia e da necessidade de trabalhar desde criança para sobreviver no interior, Omenídio nunca frequentou a escola. Já na maioridade, em 1953, decidiu ir à cidade para conquistar novos horizontes.
Na zona urbana, conheceu a jovem Darci Valente que, posteriormente, ao se casar, chamar-se-ia Darci Valente Leitão. Ainda com imensa dificuldade financeira e quase sem condições para sustentar a sua família, conseguiu seu primeiro trabalho na cidade depois de entrar em contato com o então prefeito de Alenquer, Oscar Ferreira de Araújo, que governou o município entre 1955 e 1959. Ambos teriam se conhecido anos antes, no Km 15 da PA-427. Como já tinham certa proximidade, tornou-se mais fácil conseguir uma vaga de trabalho.
A princípio, Omenídio trabalhou varrendo as ruas de Alenquer, que durou um curto tempo. Após conquistar a confiança de Oscar Araújo, passou a trabalhar na garagem do prefeito, cuidando dos seus veículos.
O jovem não tinha boa relação com o seu sogro, conhecido como José Palheta. Mesmo assim, para ajudar o esposo da sua filha, Palheta emprestou ao genro uma carroça e um boi para que pudesse trabalhar de forma independente e, assim, ganhar mais do que já recebia como funcionário da prefeitura.
Nessa época, com a inexistência de caminhões para frete em Alenquer, ter uma carroça e um boi era uma grande oportunidade de ganhar dinheiro, coisa que não era qualquer pessoa que poderia ter. Omenídio estava bastante motivado e otimista de que finalmente iria se dar bem financeiramente.
- Nipônico ou ximango? Dr. Ford, a lenda viva da medicina popular em Alenquer.
Mas tinha uma situação para resolver: ainda era funcionário da prefeitura. Para ser carreiro, ele precisaria pedir sua demissão. Seria como trocar o certo pelo duvidoso, sem falar de como seria a reação do prefeito, que lhe deu as primeiras oportunidades em Alenquer.
Resolveu encarar Oscar Araújo e ver como seria a sua reação diante do inesperado pedido. O jovem já estava preparado para qualquer reação negativa que seu patrão poderia demonstrar. Ao informar para o gestor que tinha uma carroça e um boi para trabalhar, perguntou se ele poderia sair da prefeitura para tentar a sorte de obter novas conquistas. Depois de ouvir o que o jovem tinha lhe dito, Oscar Araújo respondeu: “Pode ir trabalhar! Se não der certo nessa sua nova missão, seu lugar estará aqui guardado”.
Feliz pela resposta positiva e – por que não dizer? – motivadora, Omenídio preparou-se para imediatamente trabalhar na carroça de boi. O boi, inclusive, chamava-se Borochó. Mas o começo não estava sendo como imaginava.
Nos primeiros cinco dias em que circulou pela cidade com a carroça, não fez nenhum tipo de serviço. Em quase uma semana ficou parado, à espera de encontrar quem o chamasse para carregar algo, não recebendo nenhum valor em dinheiro, vivendo um dos períodos mais preocupantes de sua vida até então. Foi quando já estava pensando em desistir por estar bastante desmotivado com o fracasso que estava vivendo.
Entretanto, resolveu, no sexto dia, tentar pela última vez conseguir um serviço como carreiro. Estava triste, parado com o boi Borochó, próximo ao trapiche municipal, na frente da cidade de Alenquer, quando um homem o chamou para carregar algumas mercadorias.
Esperançoso, imediatamente dirigiu-se a uma casa que ficava próximo à Praça da Bandeira. A partir daí, muitos outros serviços apareceram para o jovem carreiro. Com três meses de trabalho, Omenídio já tinha dinheiro suficiente para comprar um boi e uma carroça. E assim o fez, devolvendo o que seu sogro tinha emprestado.
Parecia que finalmente as coisas poderiam melhorar para ele. Com instrumento próprio, passou a trabalhar carregando barro, areia, tijolo, lixo ou qualquer outro tipo de material que coubesse na carroça e que fosse possível o seu boi carregar.
Com o tempo, e tendo um casal de filhos com sua mulher para sustentar, Omenídio foi obtendo muitos ganhos no ofício de carreiro. Construiu sua casa na travessa Arnaldo Moraes, de onde nunca sairia, e um terreno na então travessa Ascedino Monteiro Nunes, ambos no bairro Aningal.
O terreno na Ascedino Monteiro Nunes foi cercado e fez dele um curral, onde colocaria os bois que ele fosse comprar e utilizar para puxar a carroça. Omenídio é conhecido como um dos precursores do carro de boi em Alenquer, ao lado de nomes como Álvaro Chaves, Seu Beleza, Zacarias Aragão, Cirilo, Graciano, entre outros carreiros que frequentam a memória de muitos alenquerenses.
Devido a dificuldade em pronunciar o seu nome, as pessoas pela cidade chamavam-no e ainda o chamam por vários nomes da forma “mais fácil”, como “Aremilde” e “Minirde”. Mas é o nome “Minildes” que se tornou muito mais popular, sendo chamado assim até hoje.
Assim sendo, Seu Minildes foi conquistando grande popularidade como carroceiro. Era comum os carreiros trabalharem com humor e construírem histórias que ficam na lembrança de muitas pessoas. Minildes tinha sua forma única de construir histórias. Uma dessas formas era batizando seus bois.
Muitos bois de décadas atrás tinham nomes como Carinhoso, Sereno, Esperto, Sansão. Mas a partir da década de 1980, passou a mudar a forma de batizar seus bois. Ao invés colocar nomes que normalmente eram adjetivos, passou a dar a eles os nomes dos políticos que atuavam em Alenquer.
Da década de 1980 até 1995, colocou num nos bois o nome do então prefeito João Ferreira. Por onde andava, em qualquer lugar da cidade, gritava com o animal, falando: “Bora, João Ferreira, deixa de ser preguiçoso!” Tal atitude tornou-se algo inovador e surpreendente para muita gente. De 1995 a 1996, colocou em outro boi o nome do prefeito Gilvandro Valente, que assumiu a prefeitura por pouco tempo, depois da renúncia de João Ferreira.
De 1996 a 2004, tinha o boi João Piloto, que também era chamado de João Pilantra. De 2005 a 2008, tinha o boi Dr. Farias; de 2009 a 2012, tinha novamente o boi João Piloto (ou João Pilantra), que foi eleito para um terceiro mandato; de 2013 a 2016, tinha o boi Flávio Marreiro.
O último prefeito a ser “homenageado” ou “criticado” pelo Seu Minildes foi Juraci Estevam, que, por ter sido antes um padre franciscano, nunca deixou de ser chamado pelos alenquerenses de “Frei Juraci”. Por tanto, tinha o boi Frei Juraci.
Muitos bois tinham também nomes de vereadores, como Manoel Leite e Chiquito, e de governadores, como Almir Gabriel e Jatene. Chamar os bois pelos nomes dos políticos foi uma atitude que fez com que as pessoas tivessem mais simpatia e respeito por Minildes, além de se tornar uma forma divertida de conversar com o carroceiro.
Quase todo carroceiro tem a mania de conversar com seu boi, companheiro inseparável de trabalho. Seu Minildes também conversava, mas não apenas com um, mas com seus 8 ou mais bois. Ele usava quatro bois por dia, sendo que de manhã trabalhava com dois e à tarde com mais dois, sempre revezando na missão de puxar a carroça, para que não ficassem exaustos.
Quando saía a trabalho pelas ruas de Alenquer, um boi puxava a carroça e outro era amarrado na lateral do veículo, acompanhando o serviço. Assim que fosse necessário, trocava os animais de posição.
Seu Minildes estava nas graças do povo. Vê-lo nas ruas da cidade era ter a oportunidade de testemunhar ou até fazer parte de algum acontecimento marcante, principalmente quando ele chamava em voz alta os bois pelos nomes dos políticos. Havia políticos que gostavam da brincadeira do carreiro, mas havia outros não – achavam uma ofensa. Um desses políticos passou a criticá-lo porque um deles tinha o seu nome, chegando a fazer ameaças a ele.
Sabendo disso, o próprio Minildes foi até esse político saber que tipo de ameaça sofreria. Assim que estiveram frente a frente, podia-se esperar discussões e até brigas entre os dois. Depois de uma boa conversa, ambos acabaram se entendendo. O político pediu-lhe desculpas pelas ameaças e, vendo os dois bois que estavam na sua carroça – um que puxava o veículo e outro que ficava na lateral -, perguntou: “Qual desses bois sou eu?”.
O carroceiro também conversava com os bois para paquerar as mulheres que via nas ruas. Assim que tinha a oportunidade, olhava para uma mulher, depois dirigia-se ao seu gado, dizendo: “Bora, Flávio Marreiro, não dá confiança para essas meninas, que elas são casadas!” Percebendo que era com elas, às mulheres só restava rir e interagir com a brincadeira.

Outro relato dos populares foi de uma vez quando Minildes passava pelo Desvio da Colombiano Marvão, passando em frente à residência de João Piloto, época em que este era prefeito. Uma pessoa perguntou-lhe ao longe: “Quem é esse boi que tá puxando a carroça?” Sem hesitar, o carreiro respondeu: “ Esse aqui é o João Piloto!”.
Achando graça, a pessoa novamente perguntou: “Mas por que João Piloto”? Todos esperavam que ele fosse dizer que porque ele era corno. Porém, quando o carreiro percebeu que João Piloto estava na frente da sua casa ouvindo a conversa, ele imediatamente respondeu: “O nome dele é João Piloto porque é um cabra trabalhador!”
Em mais outra narrativa popular, ao trabalhar nas ruas, o boi que estava na lateral da carroça caminhava com a cabeça baixa. Uma pessoa perguntou-lhe: “Seu Minildes, por que o boi está de cabeça baixa?” Imediatamente respondeu: “Por que ele tá procurando um dinheiro que o Dr. Farias perdeu!”. Nisso, as pessoas se divertiam com as piadas do carroceiro.
Muitas são as lembranças e histórias sobre o carroceiro alenquerense. Seu Omenídio – ou Minildes – durante muitos anos levou alegria às pessoas ao mesmo tempo em que ele trabalhava. O homem humilde que se engrandeceu na sociedade pelos seus próprios méritos. O carroceiro que se tornou referência no ramo e que, já aposentado, fica em sua casa contando histórias.
Alguns carroceiros do seu tempo, como Seu Cirilo, de 91 anos, e Seu Graciano, com mais de 80 anos, ainda vivem em suas casas para contar suas histórias. Poucos carros de boi são vistos nas ruas de Alenquer. Entretanto, sempre viverá nos sentimentos de quem testemunhou esses trabalhadores – e de quem está lendo este texto – o legado que deixaram para a história alenquerense.
— Leia também de Silvan Cardoso: Dona Inez: a benzedeira do encante de Alenquer.
- O JC também está no Telegram. Siga-nos e leia notícias, veja vídeos e muito mais.

Lindo que vc escreveu Silvan, muito me emocionou, fui muito amigo do Sr Minildes, homem trabalhador honesto e alegre.
Continue com suas histórias, quanta saudade eu senti ao ler sua matéria. Parabéns, continue muito.
Muito boa reportagem ! Gostei e vim comentar aqui, parabéns adorei ler até o final da história e rir muitos do nomes dados aos bois.
Eu gostei muito desses relatos por lembrar de pessoas batalhadora da nossa cidade principalmente o meu tio Chico Souza que criou os seus filhos com muita dificuldade na época parabéns mesmo.
Satisfação!
Seu Minildes se eterniza na memória de quem viveu essa época. Tenho o privilégio de conhecer esse “cabra” do bem, sorridente, contador de “estórias” e grande ser humano.
Excelente resgate histórico de grandes personagens ximangos.
Parabéns pela matéria!!!
Seu Minildes, realmente personagem marcantes. Cômico, alegre, um ser humano especial. Memória viva de nossa Alenquer.
Parabéns Silvan por você está buscando a história de pessoas simples, porém que realmente fizeram e fazem história no nosso município e que tem muito a contribuí com as histórias.
Parabéns escritor de raiz.