Dr. Ford, a lenda viva da medicina popular em Alenquer. Por Silvan Cardoso

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Dr. Ford, o farmacêutico que virou lenda popular em Alenquer. Por Silvan Cardoso
Dr. Ford em seu consultório no fundo do quinta de sua casa, em Alenquer. Fotos: Silvan Cardoso

Mais um dia começa. Dr. Ford se prepara para mais uma jornada de atendimentos. Sai de sua casa, usando sandálias, bermuda e uma camisa social simples. Caminha com um sorriso no rosto durante os seus passos. Atravessa o quintal com a sua tranquilidade de sempre e chega a uma cobertura, ainda no seu quintal. Senta-se à sua mesa e, com o portão da frente já aberto, aguarda pelas vindas dos seus pacientes.

A figura de Dr. Ford nos dias atuais é mais associada pelas novas gerações à política alenquerense, quando, durante um mandato inteiro, atuou como vice-prefeito de Alenquer. Mas quem é seu contemporâneo sabe que esse personagem é muito mais do que um simples político que um dia foi. Aliás, a política é só um grão diante da grandeza do ser que sempre se dedicou e ainda se dedica à saúde das pessoas em sua terra natal.

Contudo, há quem duvide desse doutor a quem está sendo tratado neste texto, pois muitos acham que o “Dr” antes do seu nome seja somente um agrado por conta de seu conhecimento na área da saúde, já que, aparentemente, não atua com vestimentas que comumente são vistas num médico, além da forma  simples de como ele dialoga com as pessoas próximas e dos ambientes que costuma frequentar.

Ford Hiroshi Sakaguchi nasceu na comunidade Arariquara, município de Alenquer, no dia 11 de março de 1954. É filho de um casal de imigrantes japoneses, Shigeo Sakaguchi e Ayako Sakaguchi, já falecidos. Um dos muitos casais que vieram do Japão para o Brasil depois do país nipônico ter passado pela Segunda Guerra Mundial.

Por entenderem que o lugar não era mais adequado para viverem, especialmente após as bombas atômicas arrasarem as cidades de Hiroshima e Nagasaki, Shigeo e Ayako saíram da Ásia e foram morar no Brasil.

O primeiro lugar que moraram em terras brasileiras, em meados do século XX, foi a cidade de Fordlândia. As buscas para se manterem e sobreviverem num país desconhecido fizeram eles chegarem à comunidade de várzea Arariquara. Shigeo Sakaguchi era piloto de avião e tinha conhecimentos básicos de saúde. Curioso diante da grandeza e da diversidade da Amazônia, o então jovem japonês iniciou suas pesquisas em meio à vegetação local, procurando entender o valor medicinal das plantas que coletava.

O farmacêutico aplicando a famosa injeção na junta em um de seus pacientes

Pesquisava, fazia seus testes e anotava quais as plantas para preparar remédios naturais. Sua habilidade de pesquisador o fez se aperfeiçoar ainda mais no ramo. Percebeu que poderia ter muitas conquistas com os produtos e remédios que preparava e com os conhecimentos adquiridos. Quando nasceu seu primeiro filho, batizou-o de Ford, homenageando Fordlândia, a primeira cidade onde morou no Brasil. Era o primeiro de cinco filhos que estariam por vir.

Tempos depois, saíram de Arariquara para morarem na comunidade Km 30, na PA-427. Foi nessa comunidade que Shigeo e Ayako abriram a primeira farmácia, um empreendimento que seria para eles um marco na área farmacêutica alenquerense. Todos esses acontecimentos seriam fundamentais para a formação futura do pequeno Ford.

A família veio morar na zona urbana de Alenquer no ano de 1960, aproximadamente, quando depois construíram a Farmácia Santa Isabel, nome este que homenageava Isabel, também filha do casal japonês.

A farmácia ficava na esquina da Travessa Lauro Sodré com Rua Capitão Antônio Monteiro Nunes, no bairro Aningal. Ford fez seus estudos iniciais no colégio interno da professora Carolina Guimarães, célebre educadora de muitas gerações chimangas. Posteriormente, fez o primário no Grupo Escolar Fulgêncio Simões e estudou o 2º grau no Colégio Dom Amando, em Santarém.

Dedicando-se intensamente aos estudos universitários, Ford se formou em Farmácia, estudando em seguida para se tornar bioquímico, analista clínico e analista químico. Por fim, fez mestrado em Microbiologia e doutorado em Análises Clínicas. Mas o seu vasto conhecimento com remédios caseiros foram aprendidos a partir dos ensinamentos obtidos com seu pai.

Com sua boa instrução, Dr. Ford trabalhou na Farmácia Santa Isabel, no Hospital Santo Antônio, lecionou Física, Química e Matemática nos Colégios Santo Antônio e Amadeu Burlamaqui Simões (CEABS), além de ter sido professor na Universidade Federal do Pará (UFPA). Seu último empreendimento foi o Laboratório Sakaguchi, também no bairro Aningal.

O nome “Dr. Ford” ganhou muita popularidade na cidade. Uma pessoa carismática e tranquila, que muitos nos dias atuais ainda acreditam ter nascido no Japão, devido sua aparência característica de oriental. Com isso, passou a ter experiências políticas.

A primeira foi como candidato a deputado estadual, já no início do século XXI, sem ter alcançado o objetivo de se eleger. Na segunda, tornou-se peça fundamental para vencer a eleição municipal de 2004, ao lado do candidato a prefeito Cleóstenes Farias do Valle, o popular Dr. Farias.

De 2005 a 2008, Dr. Ford, então vice-prefeito, muito contribuiu, como ele próprio diz, para que a maioria das ações acontecesse nessa gestão, especialmente nos mutirões de saúde pelos diversos bairros de Alenquer. Seu desejo de levar saúde para todos os cantos possíveis de Alenquer estava se realizando. Sem falar dos trabalhos que mudou a cara da cidade na época, como as memoráveis reconstruções das praças públicas.

Entretanto, Dr. Ford afirma não ter lembranças totalmente satisfatórias da política local. Tanto que resolveu se afastar definitivamente de cargos políticos ao concluir a sua função de vice-prefeito. Desde então passou a se dedicar exclusivamente à saúde das pessoas. Da experiência como governante guarda apenas lembranças.

Ao longo de sua caminhada de vida, Dr. Ford já atendia as pessoas na sua casa para tratamento de saúde, contudo, esses atendimentos eram apenas nas horas vagas. Porém, longe de muitos compromissos e aposentado, passou a atender as pessoas durante todo o dia, sem cobrar ninguém.

Quando uma pessoa chega à sua casa para tratar de algum problema de saúde, ele só solicita que a pessoa compre o remédio que será necessário para aplicar ou receita algum remédio caseiro. Depois que a pessoa é consultada, examinada e recebe a medicação por meio de injeção, por exemplo, o paciente pode até perguntar “quanto valerá o serviço”, que ele não pedirá nada em troca. Partirá da consciência de cada paciente ter que pagar ao Dr. Ford e quanto irá pagar a ele.

O especialista em remédios naturais não faz questão de cobrar os atendimentos. Ele afirma que seu desejo diário é lutar pelo bem da saúde das pessoas, especialmente das mais humildes, que têm poucas condições financeiras, para terem um atendimento médico ideal, já que essas pessoas humildes são as maiores vítimas da precariedade na saúde pública.

Em Alenquer, Ford Sakaguchi é uma das poucas pessoas em Alenquer – senão a mais famosa entre a população nos dias atuais – a realizar a infiltração intra-articular, que popularmente chamam de “injeção na junta”, nos joelhos das pessoas que apresentam problemas de locomoção nessa parte do corpo. Sem falar que ele também realiza consultas em geral.

Em uma de suas narrativas, Dr. Ford disse que, certa vez, um coronel de Brasília, sem esperança de continuar vivendo por estar com câncer, assistiu a uma reportagem na capital do país sobre o farmacêutico, produzida pelo jornalista Frank de Oliveira, abordando sobre os remédios naturais que preparava.

Prédio que no passado foi a Farmácia Santa Isabel, da família Sakaguchi, no bairro Aningal

O coronel já tinha se aposentado devido o câncer, que já estava avançado. Na época, ele tinha apenas 42 anos de idade. Procurado por ele em Alenquer, Dr. Ford preparou para o militar remédios caseiros que, tempos mais tarde, curaram-no do seu problema de saúde. Depois de curado, além de ter agradecido bastante ao doutor de Alenquer, o coronel foi readmitido para a sua antiga função.

Uma das plantas que Dr. Ford recomenda, que a maior parte dos alenquerenses ignoram por tratarem como simples “mato”, é a Chanana (Turnera subulata), também conhecida como “Bom dia”, por suas flores se abrirem apenas pela manhã, uma planta muito comum as ruas de terra de Alenquer. Como ele recomenda, a mistura da raiz com as folhas da Chanana para fazer chá pode combater problemas como hemorroida, bico de papagaio, hérnia de disco, problemas renais, infecção urinária, cólicas menstruais, entre outros.

Dr. Ford confessa que foi infectado pela covid-19 por três vezes, sendo que na terceira vez adquiriu a dita doença junto com a dengue hemorrágica. Passou por momentos extremamente complicados, chegando a imaginar que não escaparia vivo. Após finalmente vencer as doenças, outro desafio marcou profundamente a sua vida: as sequelas da covid-19, que o fez, a partir de então, atender gratuitamente as pessoas somente pela manhã.

Mais que doutor, Ford sempre foi uma pessoa do “povão”. Durante muitos anos, brincou em blocos de Carnaval, tendo citado o bloco Os Bonitões da Joca como um dos mais marcantes nas suas lembranças. Também sempre gostou de tocar gaita, especialmente nos quintais de famílias e amigos, reunindo-se a outros músicos alenquerenses popularmente conhecidos, como Jorge Surubiú, Narciso Magalhães, Fernandel e Santana.

Por tudo o que viveu, o médico dos remédios caseiros vive todos os dias a sua rotina de, no quintal de sua casa, chegar à pequena cobertura, que é seu “consultório médico”, ligar seu rádio, atender seus pacientes sem qualquer interesse financeiro e, com uma comunicação simples, carrega consigo e leva a todos um sorriso, como forma de encarar com otimismo os problemas de saúde que afetam as pessoas a todo o momento.

<strong>Silvan Cardoso</strong>
Silvan Cardoso

É poeta, cronista e pedagogo. Mora em Alenquer (PA). Escreve regularmente no JC.

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