por Joaquim Onésimo F. Barbosa (*)
Ainda impera no Brasil, e isso não é novidade, a máxima do “Você sabe com quem está falando?”. É aquela velha situação: impõe-se o nome ou o cargo para sair-se bem, ou melhor em situações em que o poder supera a fraqueza dos homens.
A fraqueza de quem expõe seu poder e poder de quem não se cala ou não se deixa intimidar diante de quem, na sua arrogância, acha-se o dono do pedaço, ou o dono da verdade, numa terra do “A lei sou eu”.
Foi essa a situação vivida por um garçom em Natal-RN, na semana passada. Um desembargador, revoltado porque o funcionário do café onde estava não lhe serviu o gelo no seu copo, tentou agredi-lo ao ponto de pegar o garçom pelos ombros e ordenar que lhe olhasse nos olhos e chamasse-o de EXCELÊNCIA, se não “lhe quebraria a cara”.
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Indignado com a situação, um empresário saiu em defesa do garçom. Ao ser interpelado, o desembargador usou a máxima descrita acima. Achando que, revelando seu cargo e sua titularidade, intimidaria o senhor que tomara as dores do empregado, humilhado-o diante dos olhos de vários clientes do café.
Após perceber que não intimidaria ninguém com o seu crachá de desembargador, o senhor EXCELÊNCIA chamou a polícia, que logo lhe socorreu, não com uma viatura, mas com quatro, segundo relatos.
No vídeo, que circula pela internet, ouvem-se gritos e mais gritos do desembargador, que se define evangélico, chamando o empresário que ousou enfrentá-lo de “endemoniado” e “endiabrado”. Um péssimo exemplo de cristão.
Fosse ele um verdadeiro cristão, não se envaideceria, não ousaria mostrar seu poder, quando a situação lhe proporcionou isso. Se é que a situação seria propícia ao fato.
Esqueceu-se o desembargador da humildade e expôs a sua arrogância diante do empresário-samaritano que resolveu acudir o garçom agredido em ambiente de trabalho.
Após ouvir as testemunhas, a polícia decidiu sair do local. Revoltado por não ter sido tratado como gostaria – certamente gostaria de ver o empresário sair algemado, o desembargador chama os policiais de “bando de cagão”, conforme se pode ouvir no vídeo.
Aí vem a questão: se fosse uma das pessoas que tivessem chamado os policiais de “bando de cagão”, como fez o nobre desembargador, para agredir os policiais, no exercício de suas funções, não sairiam algemadas por desacato à autoridade? E por que o desembargador, que não estava a trabalho, não foi?
O cargo, o poder do desembargador, intimidou os policiais, ou vindo de uma autoridade judiciária não soa como ofensa, mas como uma simples adjetivação?
Se fosse num País de iguais, onde o poder não sobrepunha à fraqueza, o EXCELENTÍSSIMO desembargador teria sido preso por abuso de autoridade e desacato.
Se fosse o contrário, o garçom tivesse destratado o nobre desembargador, a situação teria tomado proporções nacionais, e garantido minutos e minutos na mídia. Mas como era o poder sendo atacado, não mereceu destaque.
Como diz a personagem humorística “Desembargador pode…”.
Mas o caso de abuso não se restringe apenas ao desembargador desavergonhado de Natal. Tantos outros podem ser relatados aqui.
A mídia faz isso diariamente. Ela esconde-se na tal “liberdade de expressão” para atacar, destratar e rebaixar quem quer que lhe atravesse o caminho e ouse atingir o poder.
Casos como o de Lobão, que recentemente, no programa Roda Viva da TV Cultura paulista, destratou a presidente Dilma.
Casos como o jornalista Reinaldo Azevedo, que não mede os adjetivos para atacar autoridades.
Casos como da revista Veja, que, na sanha medíocre, fere quem quer que seja e fica por aí mesmo.
Recentemente, em caso inusitado, o deputado Antony Garotinho subiu à tribunal da Câmara para expor sua revolta contra o jornal O Globo. Segundo ele, em notícia publicada em capa, o jornal apresenta fatos mentirosos sobre a sua pessoa, e, mais tarde, percebendo a injúria, publica na seção de obituário, uma nota de mea culpa.
A situação levou Garotinho a triturar um exemplar do jornal em plena sessão da Câmara, diante das câmeras.
É assim que o poder, o nome e a sigla usam o poder simbólico para atacar os que não têm o mesmo poder para se defender.
No caso de Antony Garotinho, ele usou o poder para atacar o poder. Mas ele detém o poder.
Diferente do garçom que foi agredido. Seu poder, naquele momento, nada mais era do que tomar a decisão de resignar-se ou revidar contra a autoridade do desembargador. E escolheu a primeira opção, talvez sabendo das consequências que a segunda lhe causaria.
Pensamento diferente do empresário que não se intimidou ao enfrentar o poderoso do judiciário potiguar. E, em nota publicada em redes sociais, citando Darcy Ribeiro, disse: “Ele dizia que só há duas opções na vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca.”
O caso do desembargador com o garçom é um no meio de milhões que acontecem todos os dias, e ficam apagados, mas vivos na memória apenas de quem presenciou ou sofreu a afronta.
A repercussão só aconteceu porque em tempo de mídias, com um celular nas mãos, não se pode ocultar o que as câmeras se encarregam de revelar ao mundo.
Que seja sempre assim. Onde aparecer alguém que ouse proferir o “Você sabe com quem está falando”, haja alguém com coragem o suficiente para peitá-lo e alguém com uma câmera para registrar e mostrar a quem tenha meios para ver e também se indignar.
O link do vídeo que mostra o momento em que o desembargador chama os policiais de “bando de cagão”: https://www.blogdodanieldantas.com.br/2014/01/novo-video-mostra-momento-em-que.html
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* Santareno, é professor e mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia. Escreve regularmente neste blog.
Garçom, infelizmente, nas mesas de padarias nem todo mundo é igual. Em total desobediência ao Art. 5º, caput, CF/88.
Caro Joaquim, infelizmente em qualquer parte do Brasil, é fácil encontrar pessoas dessa estirpe, inclusive aqui em Santarém.
Conta-se que certa vez, um militar de alta patente, chegou no aeroporto para fazer o check in, e a fila estava enorme. ele dirigiu-se a atendente, se esperar sua vez, e disse a mesma, que ela o atendesse logo. A moça disse a militar que o mesmo precisava entrar na fila. O militar sentindo-se ofendido, disse a célebre frase. VOCÊ SABE COM QUEM ESTA FALANDO?. a atendente tranquilamente, levantou-se e falou dirigindo a palavra aos passageiros na fila. Alguém sabe que é esse senhor? ele não lembra quem é. O militar indignado, disse pra atendente. EU VOU LHE FU…….. SUA F.D.P. a atendente, olhou pra ele e respondeu. Pode até ser, mais só depois que eu atender todos os passageiros que estão não fila.
Gostei dessa atendente, se todos nós tomássemos tal atitude, esse povo mal educado que se esconde atrás de cargos não ousariam aprontar dessas. E viva a a atendente!
Parabéns a atendente, pelo profissionalismo,e ao Sr. Alexandre Azevedo pela defesa do garçom. Precisamos nos libertar dos resquícios provincianos!!!
Se todos fossem iguais a essa atendente, hein Manoel? Os donos do pedaço emudeceriam….