Benedito Carará

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por Célio Simões (*)

Célio Simões - Blog do JesoÉ verdade que entre nós havia uma enorme diferença de idade. E só. No mais, éramos grandes amigos, daqueles em que a consideração, o respeito e a estima são recíprocos e fluem naturalmente, sem as mesuras e salamaleques que ornamentam as (falsas) amizades ditadas apenas por passageiros interesses materiais.

Não sei quando começou, conquanto me lembre porque começou. Eu chegara em Óbidos e fervia de vontade de ir até à fazenda, para as inesquecíveis pescarias nos lagos de várzea, nichos privilegiados de tudo quanto é peixe gostoso, como só acontece no meu Baixo Amazonas.

Deparei-me com a barreira do Amazonas – intransponível, gigantesco, imponente, a impedir-me de realizar o sonho, embora a fazenda estivesse bem ali, podendo ser facilmente divisada de qualquer ponto do cais do porto.

Seu Benedito encontrou-me nessa angústia. Era só um fim de semana, o tempo se diluindo no compasso das horas e minutos e eu, com toda a minha catrefada de pesca (linhas, anzóis, chumbadas, tarrafa, faca e cantil), ainda pirangava carona para o destino, a uma hora da cidade e nada.

Nenhum barco desatracando do cais, rumando “para baixo” pelo lado direito do rio. Nenhuma canoa de caboclo vendedor de verdura perlongando no mesmo rumo. Daí que veio a oferta, feita naquele seu jeito matuto de falar, a sinceridade e o desejo de ser útil aflorando nos olhos:

– Se você não se importa, fique com o “Santos” que eu não vou precisar dele neste fim-de-semana. O Nélio vai como motorista.

O “Santos” que ele aduzia, era um pequeno barco a motor que ele usava em sua faina de criador de gado no distante Mondongo, comprando, vendendo e abatendo matrizes em Óbidos, com o que a grana ia pingando generosa, regular e naturalmente. Tanto que na cidade morava bem, na Bacuri, confronte ao sobradão do saudoso Titilo Savino, que foi agente da Panair, da Cruzeiro e da Varig, em seus anos de ouro. De lambuja, o Nélio, sobrinho e filho-de-criação como motorista…

Era tudo o que eu desejava, porque éramos amigos de infância, amizade surgida quando o visitei na Santa Casa, onde estava atacado de moléstia braba que o impedia de se alimentar e dei-lhe de presente uma lata de leite “Moça” mandada por minha mãe. Essa amizade varou o primário, o ginásio e até hoje mantemos regular contato, ele que virou fala grossa na Infraero em Belém.

Para a viagem, senti-me na obrigação de custear as despesas, porque o resto veio de graça. Mas foi um dia sem paralelo, dessas pescarias que nem dão tédio, porque os peixes estavam como que esperando, numa espécie de imolação voluntária que funciona como mecanismo auto-regulador do controle das espécies.

Noves fora as cobras venenosas e os mosquitos, o igapó é um berçário de tambaqui, piranha caju, surubim, arraia, piracatinga e até aruanã. Mas pra que alguém havia de querer pescar aruanã?

Sua beleza plástica contrasta com a pobreza de paladar, pois não há tempero que torne saborosa sua carne absolutamente insossa, com gosto de punho de rede… Queria até ver esses mágicos da TV, que cozinham à base de cilindros de nitrogênio, tornar palatável a carne desse peixe, que Deus botou no mundo para alimentar mulher parida ou gente com sarampo.

Pescaria à parte, coberta de êxito, à boquinha da noite o Nélio me contou a peripécia maior daquele parceiro mais velho que nós, mas nem por isso menos camarada ou generoso com os rompantes da juventude. Ele já brigara com onça no tapa, armado apenas de uma faca!… Ante minha expressão de incredulidade, o episódio veio à tona.

À margem do imenso e soturno aningal que vai da margem direita do Amazonas até as fraldas do território quilombola do Mondongo, seu Benedito viajava em mais uma de suas missões com destino à fazenda, época de inverno, quando o plácido Igarapé da Fartura se agiganta e obriga o viajante a cavalgar apertado entre a nesga de várzea e o dito aningal.

De lá partiu o ataque, porque a pintada estava à espreita na capoeira e mal deu tempo do velho usar a calibre vinte, num tiro praticamente sem firmar pontaria.

O resultado não podia ser outro; fera apenas ferida, em meio à fumaça do disparo, investiu novamente, com ânimo de matar. Como é de cediço conhecimento, espingarda de um cano não é arma de repetição, por isso o confronto deu-se de forma violenta e desigual, com seu Benedito armado apenas de um facão, insuficiente ante os repetidos ataques com unhas e dentes, dilacerando-lhe a pele e os nervos, embora pagando o felino, a cada bote, o alto preço da própria ferocidade – as múltiplas facadas desferidas no corpo elástico e musculoso.

Ao fim da batalha, caíram ambos, extenuados e agonizantes, oportunidade em que o valente caboclo ainda encontrou forças, tiradas da própria fraqueza, para uma última estocada.

Levou azar. A faca, embebida em sangue, penetrou o quanto pode e estancou no osso do felino; e pelo fio liso e amolado, tal qual navalha, deslizaram os dedos do vencedor, também cortados até as falanges, quase por completo decepados.

Em nossos habituais bate papos eu já notara o universo de cicatrizes no corpo desse herói, as marcas dos pontos na cabeça, cuja pele foi quase toda arrancada à unha pela onça, as limitações nos movimentos do braço esquerdo, mas não sabia maiores detalhes do episódio que tornou ímpar a vida daquele homem desassombrado.

Cultivamos salutar e desinteressada amizade até o dia do meu definitivo retorno a Belém, naquele janeiro/72, para cursar a faculdade de Direito. Anos depois soube de sua morte, num acidente trágico da navegação fluvial, onde ele e o “Santos” foram colhidos por uma gigantesca balsa numa das curvas do Trombetas, desaparecendo ambos no fundo do imenso rio, que hoje lhes serve de túmulo.

Seu corpo jamais foi encontrado. Antes do choque frontal, outra demonstração de destemor. Recusou-se a se lançar na água, salvando-se, para tentar safar seu barco da monumental colisão. Não deu.

Nem por isso reputo esse gesto como insano ou imprudente. Esse tipo de coisa era dele mesmo, de sua personalidade arrojada, de seu perfil intimorato. Quando em vida, desse amigo nunca ouvi uma bravata, uma única palavra sobre o caso da onça. Nem explicações sobre o apelido, que decididamente não o agradava.

Matar a bicha a facadas, no modo simples e prático de resolver seus problemas, parecia-lhe ter sido a coisa mais natural do mundo. Imagino em termos de promoção pessoal essa situação vivida por algumas pessoas que eu conheço.

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* É advogado e cronista. Membro da Academia Paraense de Jornalismo. Escreve regularmente neste blog.


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Advogado e escritor, nasceu em Óbidos. É membro da Academia Paraense de Letras Jurídicas e do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Reside em Belém e escreve regularmente neste blog.

4 Responses to Benedito Carará

  • Parente é sempre um prazer inenarrável encontrar com você aqui no blog, falando da nossa querida cidade presépio.Com certeza essas leituras fazem parte do lado bom de viver.

  • Discordo, Célio. Prá Izó não havia segredo nas artes da culinária.A Izolina, prá nós aqui de casa, Izó, foi uma excelente alquimista das coisas de cozinha. Tudo que lhe caia nas mãos se tornavam deliciosas refeições, inclusive esse tal aruanã. Ainda sinto o sabor após tantos anos.
    Abraços.

  • Meu amigo Célio,
    Mais uma das boas e que também ajudam a transportar-me aos meus inesquecíveis anos lá no Paraná de Dona Rosa e Ilha de Santa Rita.
    Grande abraço e um novo ano maravilhoso para você e família !!

  • Pô, Célio, é muita sacangem com o aruanã, “carne com gosto de punho de rede”, é demais. Ri pacas. Grande abraço, Mano.

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