A cheia
As águas, as águas, é verdade…
alastraram-se pelo campo, tiraram o teu abrigo,
roubaram teu sustento, misturaram-se em teu suor
e te deixaram assim, com teus filhos, faminto
e amargurado, com os olhos mortos e o semblante
quase da cor do corpo dela: amarelo e sem vida.
As águas, as mesmas que te matam a sede;
As mesmas que te banham e que te tão pescado;
as mesmas onde às margens estendem-se os jutais
e servem de estrada a tua canoa quando procuras a cidade
para venderes o produto do seu sangue derramado em tua roça,
hoje tão covardemente faz morada no campo
de cujo os seio sobrevives, como se não bastasse
o peso dos males que atravessas com teu corpo fraco
que faz fronteira a miséria abraçado a subnutrição.
Veja bem, caboclo, se foges do flagelo da cheia tão sofrido
para este céu azul de cidade, buscar a paz que perdeste
e o conforto que mesmo no verão nunca tiveste,
não chora aqui a decepção, o desprezo e a miséria
que nem os mais arrasadores invernos te fez sentir.
Não te desespere se os bancos, apesar de tua infelicidade,
penhorarem a tua canoa e teu casebre alagado,
não te poupando os juros do teu capital morto com a cheia.
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E verdade, as águas, mas elas baixarão novamente.
Os cantos voltarão a ser como eram, verdes e tristes.
Às margens, o barranco continuará a cair com os beijos dela,
como folhas que com o vento se desatam do alto das samaumeiras.
Os passarinhos terão pastagens e o lirismo das matas para se divertirem,
entoando canções, suavizando o urro das vacas nos currais;
e nas noites, ternas sinfonias de insetos
que se inspiram no silencio dos corpos a dormir.
O vento terá seu abrigo nas árvores
e roçara os capins altos onde o gado engorda.
E os campos voltarão a ser como eram.
Tu voltarás pro mesmo lugar, de certeza,
e acariciaras com as tuas mãos as terras novamente,
respirando o hálito da queima do roçado,
dormindo entre a palha, os sonhos e a garoa
que se alastra pelos campos várzeos no verão.
Juntarás mais uma vez tua vida à da colheita,
e a cidade que sonhas e que te deu desprezo
se alimentará dos teus sofrimentos, adquirindo
teu suor, enquanto os bancos de portas abertas a ti sorrirão
com o mesmo riso dos macacos que entre galhos te caçoam.
Eles assim como as águas, os passarinhos, o pasto, o sol,
e o luar, só te namoram seis meses a cada ano de tua vida.
O resto, a cheia, os homens e o poder,
nada mas são que estrumes dispersos pelos campos,
frios como a própria madrugada que umedece a terra
enverdejando os matagais, tão sem alma e inconsequentes
como a cheia que se avoluma, destruindo o que na terras plantas.
E os campos voltarão ser como eram: verdes e tristes.
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De Edwaldo Campos, poeta amazônico nascido em Alenquer e criado em Santarém. Essa poesia foi escrita em maio de 1971.
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