A academia e a piramutaba

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por Célio Simões (*)

Célio Simões - Blog do JesoJulho de 2009. Essa época marcante pela sessão solene de instalação da Academia Artística e Literária na cidade de Óbidos, propiciou-me breve reflexão sobre o valor do “humano” nas relações entre pessoas, que ontem mesmo apenas tangenciavam suas relações de amizade, apesar de habitarem a mesma e pequena urbe em que vivem e convivem.

Sabia de antemão do monumental esforço que eu teria no sentido de consolidar a auspiciosa fase que a novel associação daria à valha aldeia dos Pauxis, em momento extremamente propício, pois já se priorizava a cultura em cidades como Santarém transformada da noite para o dia em repositório de festivais folclóricos, coadjuvado por uma imprensa atuante, blogs atualizados e de grande aceitação, TVs, rádios e colégios de qualidade inconteste como o Dom Amando e o Santa Clara.

Nesse meu vezo de contumaz observador, não me passou despercebida uma espécie de nova mentalidade que domina aquele povo aparentemente isolado, resgatando-o do provincianismo.

Entre os rarefeitos intervalos da predita solenidade no auditório do velho Quartel, das alegres noites dos jantares e leilões no “Cliper” de Sant’Ana ou na festa tipo “Anos Dourados” da ARP, percebi como restaram alteradas as relações sociais de segmentos antes discriminados, como o papel proativo das mulheres (hoje, na vanguarda de tudo), dos negros, dos homossexuais, dos pobres e os trabalhadores de baixa renda, num ganho real de consciência evolutiva e igualitária, se pensarmos que há meio século tudo era diferente.

A esse salto de qualidade nas relações sociais devemos a busca de uma efetiva ação de iniciativa da família e das escolas e da efetiva adoção de uma política de valorização dos direitos humanos adotada pelo Brasil, que não poderia marchar na contramão da comunidade internacional, com as sempre lamentáveis exceções.

Está definitivamente sepultada na memória de todos os anos de chumbo, em que o povo brasileiro foi despojado de seus mais elementares direitos individuais, como política adotada pelo Estado garantidora de sua perpetuidade no Poder.

Nos dias atuais, como forma mais expressiva de homenagem à cidadania, vislumbra-se a matriz constitucional de leis, órgãos e diretrizes que “pegaram” como, por exemplo, o Estatuto do Idoso, o Código de Defesa do Consumidor, a criação dos PROCON, a Lei Maria da Penha, o Programa Nacional de Proteção a Testemunhas, a flexibilização das relações afetivas, a Secretaria Nacional de Direitos Humanos e finalmente o avanço da posição da Igreja em relação a assuntos antes publicamente intocáveis.

Do meu posto de observação durante a memorável solenidade, afora o contato direto com o povo nas ruas, fiz rápido balanço do quanto ainda falta para a completa erradicação da pobreza e da fome, o resgate das mulheres de sua quase persistente submissão, a redução da mortalidade infantil e um maciço esforço das entidades públicas e privadas no sentido de preservar e frear a agressão ambiental e tornar incólume nosso patrimônio arquitetônico.

Acredito mesmo que se essa consciência nos fosse presente há alguns anos, não estariam descaracterizados hoje, no caso obidense, a histórica Capela do Bom Jesus (construída pelo povo em memória à Cabanagem), o Altar de Sant’Ana, os canhões Armstrong da Bateria Gurjão, o Forte Pauxis, o Matadouro, o Mercado, como por igual se constata em Santarém em relação a tantas de suas antigas e belas construções.

A velhice confortável é prêmio ao alcance de quem faz por merecê-la. Lúcida em sua avançada idade encontrei dona Edith Aquino, com a casa transbordando de filhas bonitas, recebendo as visitas com o costumeiro carinho, disposta a um dedo de prosa ou com elas arriscar a sorte num joguinho amistoso.

Nem tenho ideia de quantas decanas criaturas encontrei naquele ano, exibindo o troféu de uma velhice saudável, sem as mazelas da alma e principalmente do corpo, a exigir a figura bem-vinda e ao mesmo tempo problemática das “cuidadoras de idosos”.

Terminada a solenidade, tendo desfrutado das atenções da prima Izabel Alice num antológico almoço, era hora de testar a tralha de pesca nas águas barrentas na “maior passagem estreita do Amazonas” e de conseguir as iscas – sardinha e matupiri. Apanhei feio dos mandiís, que a exemplo de certos mortais que conheço, tentam avidamente roubar qualquer coisa dos outros.

Pacientemente esperei. Nada. O sol de julho torrando minha pele de hospitalar brancura convidava-me a desistir daquela aventura boba, mas algo me impelia a continuar. Pouco antes da torre sineira da Catedral marcar meio-dia, o puxão na linha indicou a possibilidade de êxito. Não voltaria, portanto, com a fama de pescador panema.

Ao fim do breve embate, uma bela piramutaba de dois quilos estava em meu poder. Presente do Amazonas, o rio mais generoso do planeta que abastece, a par de seus caudalosos afluentes, lagos, paranás, furos e igarapés toda a Amazônia, sem pedir nada em troca – apenas o respeito aos cânones da ecologia. Dando-me por satisfeito, subi a “Bacuri” exibindo o belo troféu, numa inusitada crise de exibicionismo, como se pegar peixe liso no Amazonas fosse algo de excepcional.

Parei no “Canto Redondo”, do Julinho, para o deleite de um saboroso suco de bacuri estupidamente gelado, adaga fatal contra as inclemências do clima. Uma gritaria de passantes se fez ouvir comemorando aquela singela façanha, esquecidos todos que moro na Capital mas me gabo de conhecer os segredos da gente do interior, das plantas que curam, das cobras que matam, das crendices dos caboclos (pois sou um deles), das várzeas sem fim que durante seis meses viram um mar de água barrenta e destruidora.

Mas não ocultei uma sensação de desalento. Era o dia da viagem de volta e o peixe não mais poderia ser congelado para fazer o tortuoso percurso até Belém, incluindo o trecho de barco, mesmo dentro de uma caixa térmica, ainda mais com as exigências das companhias aéreas, que tudo revistam e reviram só para aporrinhar a vida dos passageiros. Por pouco ainda não inscrevi meu isopor no programa de milhagem… Decidi ofertá-lo a quem quisesse saborear aquela delícia.

Ninguém conhecido meu se dignou a aceitar. Sem ter o que fazer com ele, fiquei na calçada do hotel com o peixe pendurado pela guelra no próprio anzol, perguntando aos passantes se desejavam levá-lo para casa. Invariavelmente, torciam o nariz: – Piramutaba? Se fosse ao menos um surubim… Outra que ouvi, que fiquei perplexo: – Pensei que você era advogado. Está agora vendendo peixe?…

Estava quase desistindo quando uma bondosa vizinha, mirando penalizada de sua janela meu insólito sacrifício, talvez movida por sentimentos humanitários resolveu acudir-me naquele momento de angústia: – Traga aqui pra casa e o problema está resolvido! Pensei com meus botões: Puxa vida, esse povo esnoba um alimento de primeira, pescado na hora, isto só pode ser coisa de gente que vive na fartura!

Entrei na modesta residência, agradecido. Aquela era uma alma bendita que estava me resgatando de um grande constrangimento. Afinal, eu estava na minha cidade para fundar uma Academia Literária, reunindo as melhores expressões das artes e das letras obidenses, herança que vem desde José Veríssimo e Inglês de Sousa. A Academia não podia ser vista como um círculo fechado de emplumados que desfilam carregando no colo o próprio busto, conceito imerecido, pois somos um grupo que coloca todas as manifestações do intelecto no centro de nossas preocupações, no sentido de valorizá-las. Tirou-me dessas conjeturas a tal vizinha, de pé ao meu lado, já na cozinha da casa.

– Coloque a piramutaba em cima do girau, disse ela, entregando-me um facão. Vá cuidando dela enquanto dou um pulo na mercearia para comprar os temperos que estão em falta.

– Mas minha senhora, eu apenas lhe dei o peixe – agora ele é seu!

Meu protesto caiu no vazio. Com um gesto brusco encerrou o papo, virou as costas e foi embora. Apenas esse gesto a impediu de ver o enorme desânimo que se abateu sobre mim…

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(*) Advogado, é fundador da Academia Artística e Literária de Óbidos. Escreve regularmente neste blog.


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Advogado e escritor, nasceu em Óbidos. É membro da Academia Paraense de Letras Jurídicas e do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Reside em Belém e escreve regularmente neste blog.

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