por Célio Simões (*)
Ele era um típico caboclo da Amazônia. Não de uma parte qualquer dessa avantajada Amazônia e sim, daquela região naturalmente exuberante de beleza que é o Lago Grande, conglomerado de lagos, lagoas, igarapés e furos que abarca generosa porção dos municípios de Santarém, Óbidos e de Juruti. Dizem que até mesmo Monte Alegre não escapa.
As peculiaridades, as feições fisiográficas, o modo de vida do povo são tamanhos, que muito político chibante deseja vê-lo como unidade autônoma, tendo como sede o Curuai.
Nesse mundo calmo e fascinante, só lembrado dos avanços tecnológicos pelos geradores e a floresta de antenas parabólicas em cada beira de rio viveu Anésio, personagem conhecido de todas pela maneira sábia e filosófica com que encarava o dia-a-dia, os bons ou maus momentos, não rara vezes ironizando sua própria desdita.
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Quem o via assim despojado no trajar e com aquele físico enfermiço, não poderia supor que por trás daquele tipo, escondia-se um ser humano todo especial. De altura não ia além de um metro e sessenta, pele amorenada pelo sol, olhos encovados escuros e vivos, cabelos em permanente desalinho, tinha sempre no canto da boca um palito de fósforo que mordia furiosamente enquanto conversava, divertindo os outros com o malabarismo que fazia para não deixá-lo cair.
Conta-se que certa vez, os amigos souberam que ele estava numa pior. O pequeno cultivo da juta em sua roça ficara perdido totalmente, vítima da enchente prematura daquele ano.
Vendera em Vila Socorro sua criação miúda, e com o dinheiro apurado vinha atamancando as coisas, procurando socorrer a numerosa família – mulher e quatro filhos – confinados numa barraca de palha, ensanduichados entre o teto de palha e o assoalho que fora obrigado a estivar para fugir das águas.
A bóia andava difícil. E para complicar as coisas, dava-se ele ainda ao desfrute de criar três cães vira-lata, de duvidosa utilidade porque nada faziam, entregues à gratificante tarefa de comer, dormir e gemer de preguiça. Perguntado sobre o porquê de criar tanto cachorro em época de severa penúria, respondia com ar irônico e pose filosófica: “É para dividir a fome com eles…”.
Era nessa base. Em termos de futuro, nada o amedrontava. Achava mesmo que o sofrimento era parta da vida de quem é pobre. Suas tiradas não eram comuns. Ele as criava. Uma delas era dizer de sua surpresa quando os ribeirinhos protestavam pela perda de seus bens a cada cheia do rio: “Acho estranho. Pobre nunca tem nada e quando vem a enchente, diz que perdeu tudo!”.
Quem lhe dera tamanha licença para gozar com a cara dos outros? Certa feita, quando vários pais, reunidos em animado papo elogiavam a inteligência e o progresso intelectual dos filhos ainda no curso fundamental, alguém na roda lembrou que os moleques do Anésio eram sempre os últimos da turma. De repente, foi ele tomado daquele sentimento que um escritor russo chamou de convulsão da personalidade, deixando-o a um passo da explosão.
Sopesando a situação, viu que iria brigar com a turma do carteado, parceiros de pescarias e vaquejadas, mas não deixou por menos. Raciocínio rápido, expectorou seu desabafo sopitando a justa ira: “Não é que meus meninos sejam burros. É que eles têm dificuldade de aprender e quando aprendem, esquecem depressa”.
Na verdade, a deselegância da afronta simplesmente funcionou como um teste, superado com sobras, pois nada aparentemente perturbava aquele espírito modesto e decididamente irreverente. Por isso todos gostavam dele.
Não podia haver cogitação de alguma festa dançante, batizado, casamento, ladainha de santos ou ferra de gado nas comunidades do Lago Grande que ele não fosse lembrado e quase intimado a comparecer.
Até nos velórios, fato que no interior amazônico é de extrema seriedade ainda hoje, o “baixinho” comparecia com ar compungido, e após substancial ajuda nas orações em intenção do finado, sempre achava um jeito de iniciar o papo que varava as madrugadas, com os circunstantes fazendo ginásticas para disfarçar o riso, engasgando gargalhadas, não raro sob grande influência da “mutamba”, cuidadosamente oculta sob o tamborete. Cada dose que tomava, ele justificava: “É pra não secar a lamparina”!
Finalmente chegou o dia em que, vencido pela idade e os maltratos da vida que levada, o estúrdio caboclo anunciou que não mais iria às reuniões festivas, fossem elas no Salé, no Piraquara, em Vila Socorro, no Torrão ou no Curuai.
Queria sossego. Debalde tentaram demovê-lo da drástica decisão. Estava, confessou, inclinado a curtir nos limites do seu terreiro o ocaso da vida, sua hora grisalha. Mesmo porque, sobre a velhice ele já formara opinião. Depois dos setenta anos, o homem parece canoa vela: calafeta aqui, conserta dali e o barco continua fazendo água.
Iria recolher-se, conformado, ao seu pedaço de chão, à sua barraca de palha, e esperar sua hora lembrando os bons tempos vividos no companheirismo alegre dos amigos, os bons e os maus momentos, pois que eles também faziam parte de sua vida.
A partir daí, foi uma pedreira. No Natal ninguém se animou a envolvê-lo nas comemorações das muitas residências, igrejas e capelas espalhadas no Lago Grande. Era uma forma de respeitar a sua vontade. No carnaval também. Seria uma folia de “sujos” sem a costumeira figura do Anésio, um dos mais entusiastas súditos de Momo, com seus trajes de fandango animando aquele desfile de pés acostumados a aridez do tijuco e das terroadas.
Mas eles tinham um trunfo. O indigitado caboclo sempre fora fissurado pela quadra junina, onde invariavelmente representava o caçador no cordão do Surucuá. Era uma comemoração da qual ele não abria mão.
Decididos, seus antigos parceiros fizeram a derradeira tentativa, comparecendo à sua morada e apelando para os mais improváveis argumentos, beirando a chantagem, como, por exemplo, de que sua ausência seria uma tremenda desfaçatez a Santo Antônio, São João e São Pedro. Fizeram-no de propósito, sabendo de antemão que nas festas caipiras Anésio punha todo seu espírito criativo e brincalhão, liderando a “desfeiteira” com o retumbante sucesso de seus improvisados versos.
E foi em forma de versos que ele disse um redondo não. Foi lá dentro, demorou certo tempo alegando que ia fazer uma “precisão” e quando retornou foi com um papel roto enrolado tipo cigarro Colomy, onde estava escrito a lápis com a sua estropiada letra:
“O convite dos compadres,
Me deixa todo influído
Mas não vou arredar pé
Do que havia prometido.
Vão com Deus e se divirtam
E contem aos outros o segredo
Que o velho Anésio revela:
O melhor de uma boa festa
É sempre esperar por ela…”
Poucos anos depois desse voluntário confinamento domiciliar ele se foi. Na solidão acolhedora de seu tapiri, alimentado pela lembrança de fantásticas pescarias, tiração de ovo de tracajá, infindáveis cavalgadas sobre o verde taripucú, viajou nas asas do acalanto para fazer morada no andar de cima. E o povo bom e conformado do Lago Grande, que por atávico abandono aprendeu a caminhar olhando para o chão, ficou privado de seu emblemático personagem, que por lá e durante toda a vida divertiu e escandalizou, aprontou muitas e boas.
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* É advogado e cronista. Escreve regularmente neste blog.
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