Minha Santarém

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por Helvecio Santos (*)

Blog do Jeso | Helvécio SantosPor um feliz acaso, encontramo-nos no Mercadão num sábado pela manhã e o círculo foi aumentando. “Boleiro” é assim! Sempre tem um papo pendente. Pedrinho Moreira, Raimundo Gonçalves, Donaldo (Sujeira), Inacinho, eu, Antenor Matos de Carvalho, para os desavisados, o querido Bigorrilho, eram alguns dos que batiam ponto.

As gargalhadas fluindo com facilidade e as vozes cada vez mais altas incomodavam os “boxistas” que, na esperança de que o sangue espalhado nos afastasse, botavam cada vez mais força no trato dos peixes. A estratégia deu certo e antes que levássemos um banho de sangue, alguém sugeriu que o papo continuasse, logo mais, na Garapeira.

O Pedrinho e o Raimundo como sempre estão às voltas com ações sociais, declinaram. O Donaldo aproveitou a deixa e fez o mesmo. O Inacinho foi saindo devagar e, no final, só Antenor e eu garantimos.

Sacola sortida devidamente entregue a meu sobrinho “Gegê” – garantia de peixada no almoço – lá vou eu ao encontro da boemia matinal. Óculos escuros, boné – menos para proteger do sol, o que é caso perdido, e mais para dar “moral” na cabeça já prateada – passos lentos no cais apreciando o Tapajós que preguiçosamente escoa recusando-se a ser engolido pelo concorrente Amazonas, com minha melhor camisa AZUL, isso mesmo, AZUL do LEÃO – figurinha fácil no meu armário, tantas que são – lá vou eu à Ypiranga abraçar o imperador Cacheado. Primeiro e Único!

Após cumprimentar efusivamente o Nobre – garantia de aceitação em meio à vassalagem – sua querida Ninita e a não menos Dalila, sigo aos infindáveis abraços nos inúmeros amigos e outros tantos que lá faço anualmente. Terminado esse ritual de aproximação, busquei uma mesa pertinho do balcão de onde pudesse curtir os seresteiros, a maioria contemporâneos, estrelas desde a época do programa radiofônico “Nossa Serenata”, conduzido por décadas pelo meu querido irmão Eriberto.

Não sei vindo de onde, logo o Bigorrilho apareceu em pé a meu lado. Ele jogou no meio de campo e só tem obrigação com a armação e o ataque, assim vem de onde menos se espera. É sempre o elemento surpresa. Que vida boa! Óculos escuros, pintoso que nem filho de barbeiro em dia de primeira comunhão e nova rodada de abraços.

Pedidos feitos, louras geladas na mesa, elogios aos 85 de cintura de ambos, papo vai, papo vem, e ele tasca essa: “Amigo, v. mora no Rio, Cidade Maravilhosa, então, o que te traz anualmente a Santarém?”

A resposta seria assunto de um tratado, mas resumi.

De cara falei que saí de Santarém, mas Santarém não saiu de dentro de mim e que, efetivamente, Santarém está em mim e não faço o menor esforço para ser diferente. Chamei sua atenção para o fato de que, com uma quilometragem menor, o mesmo aconteceu com ele. Pinta cuia da gema, se apaixonou por Santarém e fincou raízes. Expliquei que a quilometragem que faço referência tanto pode ser a distância de Alenquer para Santa, comparativamente ao Rio, quanto pela idade que temos, pois décadas nos separam.

Olhei para o seresteiro que nos brindava e lembrei que Santarém desde muito tempo é berço de seresta e que as noites de luar eram passadas em claro, nos dois sentidos, e disse-lhe que acreditava, e os mais antigos afirmavam, que o brilho das águas do Tapajós nas noites de luar eram as estrelas que, embevecidas, desciam do céu para se deleitar nas vozes de Expedito Toscano e Armando Soares.

Falei de nossas praias, cartão postal que era parte de nossa identidade. Começavam pouco antes do Maicá e continuamente estendiam-se rio acima. As da frente da cidade eram as mais frequentadas onde abundavam peladeiros nos finais de tarde e eram parte da social nas manhãs de domingo. A cidade estava sempre sorrindo, dentes brancos banhados pelo limpíssimo Tapajós.

Falei das piracaias na Vera Paz, tema de uma das mais belas canções do nosso AZULINO, Dr. Emir Bemerguy e das violas que “rolavam” com Abelardo, na companhia do meu irmão, do Babico, do Panga e de outros, na Praia de São Marcos – “a candura da Prainha”, nos belíssimos versos de Wilmar Fonseca, com música de Wilson Fonseca -, até que os pescadores de camarão aportassem e colocassem fim à cantoria para início do ritual de degustação do fruto do rio, preparado ali mesmo e acompanhado de fartas doses de batida de limão. Hoje as praias estão “privatizadas” com construção de casas e terminais de carga. Nada mais resta!

Falei da Coroa de Areia nos domingos de sol, dos programas de auditório no Cristo Rei, especialmente do E-29 Show, sob o comando de Ércio Bemerguy e Ednaldo Mota, dos vesperais do Cine Olimpia, dos Rai x Fran, eternos Pantera Negra e LEÃO AZUL.

Por também ter jogado no LEÃO, meu ilustre interlocutor buscou saber mais sobre como era o duelo de titãs. Respirei. Esse foi um momento muito difícil! Como descrever esse dia? A terra tremia! Se guerra houvesse, uma trégua era declarada. Um silêncio respeitoso pairava no ar até o momento do grande embate. Por um dia Santarém era o centro do mundo. Todos os destinos convergiam para o Elinaldo Barbosa, manjedoura moderna, berço sagrado do melhor dos deuses do futebol. O destino da humanidade estava ali, naquelas 22 chuteiras, e a noite teimava em não chegar.

A Pernambucanas do “Seu” Moacir vendia todo estoque de linho S-120, pois só uma roupa nova, de tal linhagem, era digna de evento de tamanha envergadura. Com todo respeito, quem não testemunhou um duelo entre o Acari e o Manuel Maria, não sabe o futebol que se pratica no céu. Era um momento solene e nós outros, não ungidos como avatares do futebol, sentávamos em campo. Só os dois importavam. Olho no olho, touro e toureiro, os dois alternando-se nessas funções e a platéia, idem, gritando, olé!

Falei mais. Falei que jogador de futebol era produto de exportação santareno, fluxo contrário do que hoje acontece, onde dirigentes nos humilham com “babas” que outrora nem sequer a chuteira de um craque “minhoca” ousariam tocar. Que dizer do Goitinho e suas bicicletas, do canhoto “canhão” Vadinho, do elegante Nego Otávio, do raçudo Batista, do manápula Taro, do menestrel Mindó, do arisco Mazinho, do “freveu” Espadim, do Pedro Olaia, do cavalheiro Pedro Nazaré, do completo Inacinho, do classudo Darinta, do raio Cabecinha, do “bomba santa” Chardival, do Rui Sebinho, do ermitão Jeremias, do “ditão” Xabregas, meu querido Amós, do “coringa” Pedrinho Araújo e, para finalizar, pedindo desculpas a tantos outros que mereciam ser citados, o “pequeno grande homem” Navarrinho! Neste momento levantei e abracei o Miguel Coruja e Pedrinho Araújo que chegavam.

Falei dos bailes do Veterano, das festas de gala do São Francisco, das serestas do Fluminense e do acolhimento do “Seu” Élvio a todos os que estivessem sem “algum” no bolso e quisessem ou precisassem se divertir. Grande alma!… Às vezes até uma “gelada” saía por conta do chorororô.

Apontei para o Tapajós Bar e falei dos “pecados” gozosos que ali começavam. Falei também d’outros lugares mais longe, mas não menos prazerosos como Sombra da Lua, Fuluca, Vai quem Quer, Trem. Cirúrgico, detalhei que os pecados mais sofisticados eram cometidos no Poço Frio, lá pras bandas do Mapiri, principalmente nas manhãs de domingo. Como a mesa já estava rodeada, alguém perguntou do Miguel do Jaraqui e eu gentilmente declinei para não ser deselegante. O Miguel é jovem comparativamente à turma alinhavada.

Alguém gritou meu nome e, virando para atender, dei de cara com a Matriz. Para trazer um pouco de santidade à reunião, falei da festa da Conceição e do São Raimundo, onde “cunhãs porangas” chamavam atenção pela beleza e não por shortinhos “entrados” e rebolantes boquinhas da garrafa. Falei das festas juninas, dos pássaros e bois que nada ficavam a dever aos botos falsificados de hoje, pobres cópias dos bois de Parintins, pobres cópias das escolas de samba do Rio. Falei dos paus de sebo e das fogueiras, das festas de arraial e do tarubá do Zé Olaia.

Falei das pescarias de “litro” e de “enterra” de charutos e caratingas, e dos cardumes de jaraqui que se entregavam ao paladar de todos que quisessem estender uma simples rede de malha pequena. Disse da beleza que era a praia do Maracanã e quase fui às lágrimas quando descrevi como bombas de fabricação caseira destruíram o viveiro de peixe que era o lago do Mapiri, hoje um esgoto a céu aberto.

Como a natureza reage, pedi que observasse como vez por outra cruzamos com pessoas que não têm o braço ou antebraço. Ante a curiosidade do Bigorrilho, disse-lhe que as bombas levaram aqueles braços.

Falei das rádios então existentes, ZYR-9-Rádio Club de Santarém e ZYE-29-Rádio Emissora de Educação Rural de Santarém Ltda., que não tinham programas policiais, ao contrário do que hoje acontece, sendo os de maior audiência nos canais de comunicação.

Os registros policiais deviam-se em grande conta a furtos de roupa, na calada da noite, esquecidas ao relento nos varais, seguidos de “rapto” de galinhas que no dia seguinte perdiam o status de citadinas, rebaixadas a caipiras….na panela.

Disse-lhe que sabia que não mais encontraria esta Santarém, mas consolava-me no pouco que sobrou e no muito que encontro no papo com os amigos, e é esta a Santarém que me faz retornar a cada ano.

Muito mais eu poderia dizer de lugares e razões, mas a fome era negra e uma peixada me esperava. Ainda abracei o Juarez, o Herbert, o Rubão, o Afonso Cupu, o Arnaldo Lopes, o Cinquinho, o Zé Colares, senadores que chegaram à sessão depois de mim.

Abracei meu amigo Bigo e por cima de seus ombros, por um segundo vi a placa no Cine Olimpia que anunciava um cowboy com Steve McQuenn e Ursula Andress. Era a fome que turvava a vista. Peguei o caminho de casa e, chutando pedras, rapidamente alcancei a Praça Rodrigues dos Santos, hoje uma assombração do que outrora foi.

Ao entrar na 24 vi minha irmã que espichava o olho rumo ao início da rua buscando me encontrar. Quando cheguei mais perto ela me ofereceu um largo sorriso, um abraço apertado e falou que estava preocupada, pois o “hipoglós” que comprara para o almoço precisava ser comido quentinho.

Na segunda seguinte voltaria para o Rio. É mais um ano de espera, domingos de escutar João Otaviano, Alex Miranda, Cristina Caetano, Antonio Wanghon, Nilson Chaves, Janaína. Talvez faça outra viagem, mas Santa é sagrado. Fazer o que! Cada louco com sua mania!

P.S.: dedico estes escritos à meu irmão Eriberto e ao amigo comum, Panga, onde estiverem.

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* Santareno, é advogado e economista. Reside no Rio de Janeiro e escreve regularmente neste blog.


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É advogado e economista santareno, residente no Rio de Janeiro. Ex-jogador e torcedor do São Francisco.

4 Responses to Minha Santarém

  • Caro Helvécio,

    Tudo isso que vc vivenciou, eu tive a graça de também saborear. Esses teus escritos encheram meus olhos de lágrimas. Tempos maravilhosos, mas que fazem parte de um passado não tão distante, recheado de saudades. A frequencia é menor que a sua, mas de 2 em 2 anos dou uma passada pela Pérola, só que reluto um pouco, haja vista que não encontro aquilo que gostaria. Fazer o que?
    Morei na S.Sebastião e trabalhei com meu pai no Mercado Municipal até os 23 anos. Saí de Santarém em 1979. Hoje, resido em Belém, mas com o coração em Santarém.
    Graças a Deus ví você e os citados, fazerem as tardes de Domingo ferverem no caldeirão do Elinaldo Barbosa.
    Uma lembrança que guardo com muto carinho: Seu Luciano (pai do Arara) colocando a placa do jogo, em frente ao Mercado Municipal, conclamando a torcida santarena a comparecerem ao espetáculo. Tudo pintado em uma pequena placa (mais ou menos 2 m de altura por 1 de largura).
    Grande Helvécio.
    Saudações azulinas.

    1. Caro Pedro, entre 11/12 e 03/01/2014, com a graça de Deus estarei em Santa. Sábado, dia 14, provavelmente estarei na Garapeira. Se este ano for o teu ano par (de 2 em 2 anos dás uma passada), será uma oportunidade para rirmos e falarmos do que gostamos muito…. do LEÃO. No mais, obrigado! TAPAJOARAMENTE AZUL,

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