por Célio Simões (*)
Eu chegava lá sem um vintém no bolso, porém munido de duas ou três revistas de quadrinhos, trazendo histórias eletrizantes dos meus heróis de então – Zorro, Durango Kid e Roy Rogers – pois nelas residia a esperança de assistir aos filmes.
É que nos arredores do Trianon, o cinema de propriedade dos meus tios Romã e Jandira Pomar, rolava um intenso mercado negro de folhetins, com a venda dos exemplares abaixo dos preços de capa, mesmo porque o dito cujo já passara por tantas mãos que era virtualmente impossível identificar o primitivo dono ou o custo de aquisição.
Não podia prosperar o escambo, pois conflitava ele com o objetivo da venda das revistas, que era arranjar um trocado que correspondesse pelo menos ao valor do ingresso, em especial, quando à porta estava plantada, mãos na cintura, a severa Tia Jandira, que do pagamento não dispensava nem os sobrinhos, no que fazia ela muito bem, não só porque eram eles numerosos, empatando cadeiras que poderiam ser ocupadas pelo distinto público pagante, como porque, tendo Tio Romã como fiscal, a renda era uma lástima, eis que todo mundo entrava de graça, em especial as obidenses bonitas que o abraçavam e beijavam com carinho. Era tiro e queda:
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A titular da bilheteria era a Malvina, filha do mestre Arlindo Miléo, que ganhou fama em Óbidos por suas habilidades em recuperar “desmintiduras” (luxações) dos peladeiros de rua. O interior do prédio era de uma modéstia notória, calorento e dotado de cadeiras de extremo desconforto, situado na esquina da Tv. Eloy Simões com a Rua Marcos Sousa.
O equipamento de projeção era rudimentar e, operado pelo Euler Amaral, fazia mais barulho que os tiros de festim disparados pelos bandidos do filme “No Tempo das Diligências”. Alinhavando entre os espaços disponíveis, exercitando sua estranha mania de dar cacholetas na própria orelha que estalavam quais pipocas em ebulição, perambulava o Mauro, com seu tabuleiro de balas, cuja venda rendia um trocado a mais para os donos do cinema.
A barulheira antes do início de cada filme era infernal, estimulada pela música estridente da rudimentar aparelhagem de som, ia amainando à medida que as luzes do salão paulatinamente se apagavam para o início de cada sessão. Aí se ouvia o chamado prefixo, uma mesma e repetitiva música convencionada com o público avisando que o filme estava prestes a começar.
Nos áureos tempos do cinema Olímpia, em Belém, freqüentado pela nata da sociedade metropolitana da década de sessenta, o tal prefixo era o internacional Concerto de Varsóvia. No Trianon, conquanto contemporâneo daquele sediado na Capital, prevalecia um samba de apelo popular, que todos os que já ultrapassaram a barreira dos 50 anos lembram-se da letra e da música com bastante nitidez:
Se acaso você chegasse
No meu chatô e encontrasse
Aquela mulher, que você deixou,
Será que tinha coragem,
De trocar nossa amizade,
Por ela que já, lhe abandonou;
Se eu falo é porque essa dona,
Que mora no meu barraco,
À beira de um regado,
De um bosque em flor,
De dia me lava a roupa,
De noite me beija a boca
E assim nós vamos vivendo de amor!…
Era um corre-corre. Todo mundo procurando seus lugares, porque ato contínuo apagavam-se as luzes por completo e na imensa “tela” (na verdade, um lençol de tecido branco) tinha início o esperado Fox Jornal, com as notícias mais recentes do eixo Rio/São Paulo, não raro com uma pitada dos melhores lances dos jogos do campeonato carioca. Tio Romã era só sorrisos quando na tela surgiam as jogadas geniais de seus ídolos prediletos do Botafogo, capitaneados por Mané Garrincha, Didi ou Nilton Santos, campeões mundiais nas copas de 1958 e 1962. Se o Bota perdia, ele glosava o Jornal, simplesmente.
Superado esse primeiro momento de euforia, o segundo não era menos eletrizante. Tinham prosseguimento os intermináveis capítulos do “Correio das Planícies”, onde índios e cowboys disputavam a tiros um troféu maior, a diligência puxada por quatro parelhas de eqüinos, no interior da qual invariavelmente viajavam, além da mala postal do oeste americano, uma linda e indefesa jovem branca, loura e de sedutores olhos azuis, que momentos antes da viatura despencar montanha abaixo era resgatada pelo mocinho, por quem se quedava de irresistível paixão, para no filme seguinte começar tudo outra vez…
Na seqüência era a vez do trailler. Era uma espécie de amostra grátis da próxima película que entraria em cartaz, isto, se não atrasasse o avião da Panair do Brasil que fazia a linha Belém/Santarém/Óbidos/Manaus, incumbida de transportar os enlatados.
Filmes da Atlântida ou da Cinédia, onde cantoras famosas da época como Emilinha Borba, Marlene e outras menos votadas interpretavam os mais recentes sucessos musicais, que serviam de fundo às chanchadas estreladas pelos histriônicos Oscarito, Grande Otelo, Colé e Ankito, fazendo a barriga doer de tanto rir. Quem assistiu o que esses comediantes fizeram em “Matar ou Correr”, ironizando a película americana “Matar ou Morrer”, sabe muito bem do que estou falando.
Conforme fosse da Paramount, cujo símbolo é uma montanha, da Metro Goldwim Mayer, com seu leão rompante ou da Universal, e sua soberba águia, a turma roncava a garganta ou enxotava o animal até o bicho sair voando, só para fazer palhaçada. Lembro ainda quando passou no Trianon um filme de grande apelo emocional, denominado “A Mãe”. Nas primeiras sessões nem deixaram a molecada entrar, tal o fluxo de adultos, que de lá saíam com os olhos vermelhos ocultando o pranto, vencidos pela emoção.
O filme entrou na segunda semana fazendo ainda grande sucesso. Porém, o “Pata Choca” da Panair chegou e nenhum outro havia sido enviado pela empresa Severiano Ribeiro de Belém para substitui-lo. O jeito foi repetir à exaustão o único existente: “A Mãe”. Entrou ele em cartaz pela segunda semana consecutiva. Caiu no lugar comum, gerando desinteresse geral; a meninada já podia assistir, pela metade do preço. Mais uns dias de repetição e a gozação tornou-se inevitável.
Tio Romã, que não perdia parada e achava graça até de desastre, para justificar a gafe, começou a dizer que a película estava sendo repetida porque, em determinado dia, “A Mãe” era a da Malvina, da bilheteria. No dia seguinte, “A Mãe” era a do Mauro, o vendedor de bombons; na sessão subsequente, a dita cuja era a do Tenente Duque, seu vizinho na Rua Eloy Simões; seguiram-se as mães dos seus melhores amigos de birita: do Armando Cunha, do Hermógenes, do Mário Rego e assim por diante… Até que a turma do vôlei que jogava no terreno do Amazônia Clube encontrou com ele e perguntou:
– E aí, Romã, de quem é a mãe que hoje vai estar na tela?
– Desta vez é a minha, parceiro, porque a p… desse avião não traz um filme novo há quase três semanas…
Como numa premonição, a aeronave seguinte chegou com novidades, anunciadas em espalhafatoso cartaz na esquina do conhecido casarão. Nada obstante, a exemplo de todos os empreendimentos dirigidos por Tio Romã, mesmo cercados pela austeridade de Tia Jandira, como o aprazível Restaurante “Meu Cantinho” que funcionava na orla da cidade, o TRIANON um dia fechou as portas e com elas, a história de toda uma etapa dos primeiros passos do cinema em Óbidos, embora, antes e depois dele, tentativas residuais tenham sido feitas em locais diferentes também marcando cada qual a sua época.
Sobre as demais não me atrevo a escrever; seja porque ainda era muito jovem, não sendo possível relembrar o que vi ou assisti; ou porque já passara da fase de vender gibi para conseguir comprar o ingresso, circunstância que me incutia verdadeira sensação de desafio, com sabor de aventura, porque do dinheiro apurado com a venda dos exemplares, tinha que sobrar algum para comprar sorvete no Bar Andrade, no retorno para casa, detalhe que colaborava para a sensação de plena felicidade a cada filme novo.
Eram pequenas alegrias que se revelavam insubstituíveis para um garoto do interior, com limitadíssimas opções de diversão, em contraste com as que hoje se oferecem à vontade para os que assim desejam, como a TV (inclusive por assinatura), tablets, facebook e as demais maravilhas da internet.
Quem passa hoje em frente ao local onde funcionou o Trianon, em Óbidos, comprova que o velho cinema não resistiu o passar dos anos e veio abaixo, dele restando as ruínas do que um dia foi ponto de convergência e ebulição da sociedade obidense, num dos locais mais nobres da cidade, a apenas um quarteirão da belíssima Praça de Santana.
Seus escombros são verdadeiro réquiem contra o abandono que atingem certos imóveis particulares ou públicos em qualquer ponto deste País, onde a incúria colabora para o descalabro, locais que por sua história, utilização ou por terem abrigado ilustres personalidades, deveriam ser preservados para as gerações futuras, que deles sequer tem o mais remoto conhecimento, a não ser que algum saudosista faça o necessário registro, como este que agora tento, contando apenas com a ajuda da própria e já fatigada memória.
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* É advogado e cronista. Escreve regularmente neste blog.
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