O coveiro e o Galinha Preta – parte 4

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Albenor e sua esposa NelyAlbenor e sua esposa Nely: prisão em Belém e cartas de amor

por Apolinário (*)

Blog do Jeso | ApolinárioTudo dependia que dez horas se passassem para que o sol voltasse com o outro dia (28 de setembro de 2003), e assim Albenor pudesse começar do zero a construir um outro formato de equilíbrio para sua mente.

Mas a noite estava apenas começando e nada poderia mudar um segundo passado. Os minutos seguintes pareciam não ter fim, martelando, torturando e assombrando para sempre seu estado de espírito. Sua vista ficou turva, o coração batia muito forte, a voz entalada na garganta, ressecada por um dia inteiro de tensão e, mal alimentado, não conseguia sair do lugar, o corpo todo tremia.

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E o seu ser se resumia em choro de desespero, como se tivesse morrido junto com sua vítima. A partir daí, Albenor deixou de ser o que havia aprendido na Primeira Comunhão, na Crisma, no Colégio Dom Amando, no Seminário São Pio X, no seio do lar da família, na escola de aviação e nos sermões dos padres nas missas dominicais, quando comungava da hóstia sagrada e confessava seus pecados mortais. O homem bom é a causa maior da existência do homem mau.

Gilberto Aguiar - Blog do Jeso
Gilberto Aguiar: delegado

E assim veio a madrugada, já insinuando que nos primeiro movimentos do dia o grito de terror na sua cabeça seria maior. Começou a imperar em sua personalidade um homem temperamental, agressivo e ameaçador. Por todo o dia 28, com a intensidade de um século, Albenor queria apenas saber como iria fazer para conviver com o corpo de Galinha Preta sepultado logo ali, cerca de quarenta metros do seu escritório, no fundo do quintal do posto.

Para onde quer que olhasse, o movimento de nuvem, uma mancha na parede e nos rostos de algumas pessoas estava o semblante da sua vítima, melado de sangue e ouro em pó. No vai-vem da clientela, Albenor foi se revelando não ser mais o mesmo do dia anterior, jogando tudo para os altos, tratando a todos com brutalidade:

– Seu Albenor, o senhor poderia me vender cinco mil litros de óleo com o contêiner e tudo para mim lhe pagar na repescagem do ouro? Como garantia, lhe deixo uma pick-up D20 em perfeito estado de funcionamento e também assino uma promissória. É que eu tive prejuízo na empreitada passada. O Sr. sabe, né, opero de forma clandestina e agora vou trabalhar nas terras dos índios e com eles a gente tem que entrar com tudo, eles não têm nada, só as terras cheias de cobras, e ainda temos que dividir em 50% se não, nada feito. Tive que vender minha casa para comprar estes maquinários e agora tenho que penhorar o carro pelo óleo. Lembre que já fizemos negócios outras vezes e nunca tive problemas com o senhor.

– Camarada, por favor, vá morrer em outro lugar!! E de hoje em diante, não socorro mais nenhum filha da puta que venha morrer perto de mim!! Ontem mesmo eu tive um problema muito sério que mudou a minha vida, não sei mais quem sou, e isso ainda vai me trazer mais problemas. Ontem, não amanheci pensando que iria fazer o que fiz e não fiz pela minha livre e espontânea vontade. Sabe o que eu queria fazer ontem? Descansar, pegar a minha mulher e sair para passear, tendo um dia só para nós dois, mas o demônio veio lá do inferno, na tentativa de sempre me ludibriar, de me roubar, aquele vagabundo safado planejava me matar, estava tudo certo. Se eu embarcasse com ele para Santarém, lá iria ser o meu fim. Eu resisti, não fui presa fácil para ele, e deu no que deu por culpa dele. Mas uma coisa ele conseguiu ainda fazer, com que meu sofrimento continue sendo maior do que o dele. Agora? Ele não sente nada! Eu estou aterrorizado. Minha mulher está em choque, não tem ânimo para nada. Se aquele bandido tivesse me matado, hoje eu não seria a primeira e nem a última vítima dele. Ele foi minha primeira e última vítima, e ele contribuiu o máximo para isso.

– Mas seu Albenor, me desculpe, eu não sei do que é que o senhor está falando! Por favor, não me trate assim! Pode confiar em mim que eu não vou lhe decepcionar. Essas terras do índio têm ouro. Um amigo meu que trabalha na Funai me disse. E eu inda tenho um outro problema. Tenho que levar um rancho muito grande, para eu ficar tranquilo pelo menos seis meses, que lá é de difícil acesso. Preciso também de um dinheiro pra molhar a mão do pessoal do Ibama, que ficam infernizando a vida da gente. Eles estão mais preocupados com a floresta do que os próprios índios.

– Tá, meu irmão, eu vou fazer isso por ti, mas, pelo amor de Deus, some da minha frente!! Esse problema que aconteceu ontem comigo, você vai ficar sabendo e vai me dar razão. Eu não estou bem agora! Desculpa estar te tratando assim, mas eu não sei que bicho eu sou nesse momento. Já negociei com gente aqui sem ao menos perguntar o nome e nunca tive problema. Aquele fuleiro me veio com aquele monte de frases misturadas com burocracia e me hipnotizou. Não precisa deixar seu carro não! Vou confiar na sua palavra! Aquele desgraçado não vai conseguir me modificar por inteiro. Passe lá no pátio que eu vou autorizar fazerem a venda para você. Quando as coisas derem certo por lá, venha pagar seu débito e pronto!! Continuaremos negociando.

– Alô, Albenor! Como é que está, meu amigo, tudo bem? Aqui é o Chiquinho do Bom Jardim!!

– Chiquinho, não posso conversar com você a respeito de nada! Eu estou doente, muito mal.

– Minha conversa é rápida, Albenor! Eu quero apenas sessenta mil litros de óleo e vinte mil litros de gasolina. E gostaria que você tirasse cinquenta fardos de feijão e cinquenta de arroz no supermercado Aroucha que eu pago logo na próxima semana. Vai entrar um dinheiro de um ouro que eu vendi para a D’ Gold. Você sabe que seu colega aqui é de fé, não falha e nem tarda.

– Tudo bem! Passa aqui que eu já vou deixar autorizado.

E assim, neste mesmo formato, muitas outras noites vieram com Albenor sempre entre a cruz, a espada e os demônios.

Dez quilos mais magro, os olho fundos e cheios de olheiras, sem conseguir fixar-se em nada. Findou o mês de setembro. Uma outra guerra maior que esta era programada por amigos, polícia, e parentes de Galinha Preta, que por mais de uma semana lhe procuravam.

Quando a cooperativa de garimpeiros do São José do Ouro Roxo ficou sabendo do seu desaparecimento, por primeiro teve a informação de que Galinha Preta já se encontrava morto e bem guardado. A morte do Galinha Preta era do interesse de alguns associados da cooperativa que também se sentiam ludibriados por outras negociações que fizeram com ele. Por isso, cuidaram de anunciar que Galinha Preta saiu de lá com 27Kg de ouro para vender e depositar na conta da cooperativa e também pagar alguns débitos.

O avião Caravan, que deixou Galinha Preta em Itaituba e seguiu para Santarém, chegou apenas com seus pertences sem ouro. A polícia, que de antemão, também sabia que o corpo de Galinha Preta estava enterrado em um poço na Cidade Alta, precisava saber ainda, se no posto de Albenor existia um poço.

Com a recompensa de cinco mil reais oferecida pela família da vítima para quem desse uma informação precisa, ampliaram-se as informações para a polícia de que lá no posto havia um poço; que o Lobo e o Amoroso foram uma vez cobrar Galinha Preta lá no Garimpo do São José; que o Lobo era muito perigoso; que conhecia Galinha Preta de outros carnavais e que eles não se entendiam muito bem; que o Amoroso teria dito para alguém lá para as bandas de outros garimpos, que estava a fim de se acertar com a vítima; que viram um trator na noite do dia vinte e sete aterrando o poço; que ouviram Albenor várias vezes se queixando da vítima; que no dia da morte da vítima, Amoroso, Lobo e Fabrício foram vistos várias vezes entrando e saindo do escritório de Albenor.

Com isso, a polícia chegou à conclusão de que, com todas essas falações, deveria checar uma boa parte delas, pois uma coisa era certa: Galinha Preta saiu do aeroporto com Albenor quando foi visto pela última vez.

O delegado Jamil Casseb decidiu prender o Lobo, que, na ocasião, estava jogando baralho na feirinha da beira do rio, em Itaituba. Este quis reagir no momento da prisão, por isso foi necessário Jamil ser um pouco mais contundente tirando uma certa raspa da sua pele. Albenor, avisado pelo delegado Mascarenhas e também por amigos seus do garimpo de que poderia até ser morto com a chegada dos policiais de Santarém, amedrontado, decidiu pegar a sua fiel companheira Nely e fugir para o Mato Grosso.

Por motivo de força maior, Jamil foi afastado do caso, mas continuou colaborando com as investigações a partir daí presididas pelo delegado Gilberto Aguiar, que, no dia 15 de novembro de 2003, descobriu o poço no posto e mandou cavar. O cheiro de carne humana podre misturada com lama e óleo diesel tomou conta do lugar e atraiu o paladar dos urubus.

Gilberto Aguiar, com toda a força que ganhou com a progressão que teve no caso ao encontrar o corpo, fechou o cerco para Albenor, deixando claramente que a polícia não estava em serviço com dinheiro bancado pela família da vítima e muito menos oferecendo recompensa. A cultura da recompensa é proveniente do bang bang dos tempos do faroeste americano, adotada pela polícia daquele país, mas que não se aplica ao contexto da polícia brasileira. Daí que os boatos de que os policiais seriam recompensados pela captura de Albenor foram prontamente refutados pelo delegado Aguiar.

Totalmente devastado, arrasado e aniquilado, Albenor e o inseparável amor da sua vida, Nely, fugiram para Belém à procura de advogados que pudessem safá-los das acusações que, neste momento, eram bastante robustas, quase que incontestáveis.

Em Belém, Albenor e Nely tinham um encontro marcado com o advogado Dr. Tangerino, na Assembleia Paraense. Mas, antes do encontro com o advogado, foram presos por policiais federais, em parceria circunstancial com a polícia civil. A imprensa santarena e a itaitubense divulgavam a prisão do casal e mostravam Albenor como o autor do crime com maior requinte de crueldade já praticado em Itaituba.

Obs.: no próximo episódio deste caso, o dia-a-dia de um ano e seis meses de Albenor e Nely na prisão em celas separadas, as cartas de amor e o drama de Albenor exigindo atitude de Deus.

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* Santareno, é artista plástico e articulista do blog.


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