por Célio Simões (*)

– Seu moço, preciso de sua ajuda!

– Que papo é esse de seu moço? E que tipo de ajuda você precisa, falei eu, olhando para aquele sujeito que irrompeu na minha sala e me encarava com ar desesperado.

– Disculpi, mas eu tô numa fria. Os homi do IBAMA tão a fim de me acertá!

– Como é seu nome? E o que aconteceu? Você é madeireiro?

– Antis fosse Dotô por causa que nesse caso eu tinha grana. Meu nome é José Monteiro de Lima e o pobrema que eu enfrento é por causa do curió do Raimundo.

– Como é que é? Curió de quem? Quem é Raimundo?

– É uma istória cumpricada, eu peço que o sinhô me iscute e despuis ajude se puder. Só num tenho dinheiro pra lhe pagá. É que me indicaro seu nome aí na portaria do prédio. Aí eu vim correndo, nem isperei o elevadô. Eu num seio-o lê, mas com a ajuda dos amigo até já iscriví uma carta pras autoridade dizendo que num tenho culpa, mas mesmo assim tô cabreiro, quagi fazendo besteira.

– Tudo bem. Conte o que foi que houve, falei.

– É que eu moro perto do aeroporto, no Conjunto Providência e trabalho de faxineiro aqui no cumércio porque não tenho istudo. Quando eu saí de casa pra pegá o ônibus, no meio do mato encontrei meu amigo Raimundo, segurando uma gaiola cuberta com um pano, onde dentro tinha um curió. Aí ele teve que dá um pulo na casa dele, que é pirtinho da minha e me deixu vigiando o curió, dizendo que vortava rápido. No que ele saiu chegaro o IBAMA e a Federar, armada de uma baita de uma metralhadura, me cercaro e prendero só porque eu disse que estava na responsabilidade de vigiar o curió. Já me aplicaro multa de quinhentos paus e estou respondendo por crime de atentado contra a natureza.

Não fiz nadinha contra a natureza, nem contra o curió. Como o sinhô vê, estou numa fria, e não sei como vou sair desse rolo, disse, estendendo a mão com uma pasta recheada de papel.

Disfarcei o ímpeto da recusa para não ser indelicado, imaginando um modo de esquivar-me da “causa”, dessas que a gente sabe logo que não trazem nenhum proveito material e o “cliente” ainda fica o tempo todo em cima, querendo saber cada detalhe da movimentação dos autos. Bolei uma justificativa que nas circunstâncias me pareceu perfeita:

– Meu amigo, Direito Ambiental não é muito a minha praia. Mas eu conheço um bom advogado, que trabalha bem aqui pertinho, entendido no assunto, homem caridoso, ardoroso defensor da natureza e da preservação do meio ambiente, tanto que faz muito tempo que ele não prova um único tufado de ovo de…

Nem consegui concluir. Olhos arregalados, o homenzinho indagou me olhando esquisito:
– Tufado? O que é que tá tufado?!

– Pare com isso e não deturpe minhas palavras, respondi. Qual é afinal o seu problema?

– Num tenho nem o do ônibus. Pulo amor de Deus me ajude. Num deixe eu ir pro xadrez.

Situação difícil a minha, pensei. Ossos do ofício. Pacientemente, comecei a examinar a papelada existente na tal pasta amarrotada por ele colocada sobre minha mesa.

O primeiro documento era o famigerado AUTO DE INFRAÇÃO, onde estava descrito o “crime ambiental”: “AUTUADO POR ESTAR PORTANDO 01 (UM) CURIÓ, SEM A DEVIDA LICENÇA DO ÓRGÃO COMPETENTE”.

O segundo era um TERMO DE ENTREGA, enfeitado com o brasão da República e outros carimbos, encaminhando o curió à sede do IBAMA.

O terceiro era mais esclarecedor ainda. Tropeçando nas maiúsculas, o texto do zeloso funcionário dizia: “Faço o encaminhamento do AI n.º XXXXX lavrado contra José Monteiro de Lima, por apanhar 01 curió, sem a devida licença do Órgão ambiental. Informo ainda que esta Autuação foi fruto de uma operação em conjunto com a Polícia Federal, ao Comando do Delegado Atanásio, responsável pela Delegacia do Meio Ambiente, às proximidades do Aeroporto Internacional de Belém e por essa razão não foi lavrada a Comunicação de Crime, uma vez que a apreensão ficou por conta do mesmo”.

Ao ler o quarto documento, fiquei perplexo! O próprio acusado resolvera fazer sua defesa. Era a “carta” antes referida, redigida com a ajuda de amigos melhor alfabetizados, que ele encaminhara diretamente ao IBAMA, na esperança de safar-se daquela exasperante situação. Ei-la, respeitados os equívocos redacionais:

“Sr. Super Intendente – IBAMA: No dia 28.11.08 estava eu indo rumo meu emprego, quando topei com o amigo Raimundo Borges, que se encontrava-se nas mata das proximidade do aeroporto portando um curió, parei por alguns minuto para uma conversa quando o mesmo não se sentindo-se bem pediu que eu ficasse observando o seu curió, que se encontrava-se numa distança de uns 100 metros, enquanto curria pra sua casa bem próssima. Nesse momento chega a equipe do IBAMA mais a Federal perguntando de quem era o curió, disse que era o responsalvel achando que não tinha pobrema, pois o que mais vejo são essas gente boa circulando pelas beira das estrada e até nas praça da cidade mostrando o curió, chamando pra isso de passarinhar. Fui multado em 500,00 que não tenho sem passar fome se pagar. Ora seu Super Intendente eu não sou o poprietario do animal, fiquei apenas tomando de conta do curió enquanto o dono curria pra casa dele o sinhô sabe que nessas ora a pessoa não pode esperá muito, assim venho por meio desta pedir o cancelamento da multa e que chame o Raimundo pra assumi a responsabilidade pelo bicho, pois não é justo que eu pague multa só porque estava olhando o curió de um amigo. Certo de sê atendido, com a transferência do processo para o verdadeiro responsalvel, se assina-se em grande respeito, José Monteiro de Lima”. Em 08.12.08.

O último documento era uma DECLARAÇÃO do próprio Raimundo Borges, o legítimo dono do pássaro, assim redigida: “Eu, Raimundo Borges, brasileiro, solteiro, desempregado, residente na Passagem Marajoara em Val de Cans, Belém. DECLARA para os devido fins, que o curió preso pelo IBAMA no dia 28.11.08 não pertence ao amigo José Monteiro de Lima, acusado no AI n.ºXXXXX e sim é da minha popriedade, pelo que essa repartição não deve continuar o processo contra ele, porque ele tava apenas olhando meu curió quando a Polícia Federal efetuou a operação pois fui por uns instantes na minha casa que fica perto se não eu teria dito isso naquela hora pro próprio Delegado. Belém, 10.12.08”.

Fiquei imaginando a despesa para os cofres públicos com todo aquele aparado policial, o custo homem/hora de um processo administrativo onde foi imposta pena pecuniária a uma pessoa economicamente carente.

O meio termo é a medida ideal de todas as coisas. O que adianta multar em quinhentos reais um faxineiro que recebe mensalmente o salário mínimo? E os grandes e verdadeiros infratores que diuturnamente devastam a floresta e a biodiversidade da Amazônia, por onde andam que não pagam um vintém de multa a quem quer que seja e ainda debocham das autoridades? E o rentável contrabando de aves para o exterior, que se faz à base da vista grossa nos portos e aeroportos?

Lembro que no Fantástico, prestigiado programa dominical e televisivo da Rede Globo, foi exibido o papagaio do Tafarel, ex-goleiro da seleção brasileira, cujo atrativo é gritar o dia todo: – Vai que é tua Tafarel! Não houve rumores de multa ou apreensão pelas autoridades ambientais…

Ainda no “Fantástico”, assisti outra patética notícia: O “Fofinho”, louro de estimação da octogenária vovó Gesualda, traficante de cocaína que o treinou para avisar a chegada da polícia, depois de inúmeras denúncias finalmente foi recolhido e devolvido à liberdade, isto depois de muita insistência dos vizinhos. E quantas espécies são transportadas clandestinamente nos rios que cortam o Pará? E aqueles comercializados no Ver-o-Peso, o suposto cartão postal de Belém, sob o complacente olhar da fiscalização? Porque foram implicar logo com o curió do Raimundo?

Não me arrependo de tê-lo ajudado. Mercê da declaração do legítimo dono do frágil passarinho, felizmente foi meu “cliente” liberado da imposição da multa e de responder na esfera criminal. A par do lado histriônico da defesa apresentada pelo José, aquele fato me ficou na cabeça, como exemplo das muitas injustiças que podem vitimar uma pessoa humilde neste País.

Domingo, 25 de Janeiro de 2009. Lendo o “REPORTER 70”, a principal coluna do jornal “O LIBERAL”, estava lá a notícia, quase uma vingança dos amigos José e Raimundo pelo grave pecado de um ficar reparando o curió do outro: “MATANÇA: O desmatamento desenfreado e o avanço da atividade imobiliária estão matando o que ainda resta da fauna existente nas matas às proximidades do aeroporto de Belém. Cobras e macacos são as maiores vítimas. Dia desses, um quati fêmea foi atropelado junto com a sua ninhada em frente ao luxuoso residencial Cristal Ville. Com a destruição da mata nativa, os animais começam a perambular em busca de alimentos fora do seu habitat, geralmente encontrando a morte”.

Ciente desse fato, lamentável sob todos os aspectos, tenho certeza que o Raimundo prestaria um relevante serviço à causa da preservação se colocasse em sua gaiola o quati que acabou morrendo atropelado e esquecesse os curiós, que esses pelo menos podem voar, ficando a salvo dos veículos que não poupam nem mesmo os seres humanos. Nessa hipótese surgiria tão somente um novo drama, desta vez semântico, pois se colocasse seu amigo José para repará-lo, eventual defesa perante o IBAMA seria um desastre, eis que a cacofonia decorrente desse tipo de roedor revelar-se-ia infinitamente mais grotesca.

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* É membro da Academia Paraense de Letras Jurídicas. Escreve regularmente neste blog.

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6 Comentários em: O curió do Raimundo

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  • André disse:

    Bom, o que vejo de tudo o que foi escrito aqui é a velha batida do “porque não pegam os grandes”, “era apenas um passarinho”, “ele é um coitado desempregado”…. ora, senhores da academia, ninguem pode alegar descomnecimento de lei. Morar na capital e dizer que não sabe que manter um curió sem devida autorização é crime é um pouco demais. Não existe crime maior ou menor… se está descrito como crime… não é um meio crime. Além do mais os fiscais são executores da lei e não legisladores ou juizes. Quem vai dizer se o reponsável pela infração é josé ou joão é o julgador. O Brasil precisa parar de pregar a eterna batida do coitado… afinal são nossos coitados que muitas vezes ajudam a eleger gente esperta, gente que paga terceiros para assumir uma culpa, “laranjas”. Muitos coitados vendem um curió como vendem um voto e tenho certeza que sabem que tão fazendo coisa errada.

  • Célio Simões disse:

    Aos meus três leitores, obrigado pela gentileza das palavras, em especial ao meu fraterno amigo Dr. Raimundo Aquino, que não vejo a um tempão.

    1. espoca bode disse:

      Caro Célio,
      Aqui demonstramos a nossa cultura ao despresar o seu artigo, é riquissimo, lindo mesmo, fosse de uma tragédia já teria passado de cem ( 100 ) comantários.

  • Confesso que demos uma risada ao ler sua narrativa. Um bom texto deva causar comoção. Deve prender a atenção do leitor, de forma que este leia a tessitura até o fim. Parabéns pela bela construção textual. Saudações fraternas!

  • DO BEM! disse:

    Sr Celio, muito bonito de sua parte em ajudar e colocar as devidas despesas que podem causar um pequeno delito praticado por pessoas que nao tem o minimo de conhecimento de atos infracinarios que praticam e vejo ai o grande problema em questao, é exatamente pela defesa que o Senhor faz aqui que essas pessoas menos desavisadas sao usadas para cometer esses “delitos” usufruindo da “Lei” que nao pune ou se pune a pena ficar menor em decorrencia dessas falhas senao vejamos:
    crime praticado por maior que coloca a culpa no menor para se livrar da pena maior e por ai adiante, nao quero aqui dizer que o Sr agiu errado, longe disso, só coloco que as vezes as pessoas “expertas” usam desses artificios para se beneficiaem, parabens pelo ótimo texto.

  • Raimundo Aquino disse:

    Meu amigo Célio, excelente e oportuno seu artigo e parabéns por ajudar o Sr.
    José Monteiro.
    Um grande abraço!