por Edwaldo Campos (*)
Sim, cuidai-vos, porque a absorção exagerada dessas coisas chega a um limite insuportável, provocando no organismo sérias lesões, cujas dores e mal-estar, manifestados, só poderão ser detectados, em suas verdadeiras causas, pela sensibilidade extra-sensorial dos pouquíssimos e hábeis curandeiros da banta e encantadora ilha do Pacoval, em Alenquer.
E foi exatamente de lá que ontem cheguei, curado do meu problema de ouvido, após recorrer a todos os avanços da medicina convencional que diagnosticou-me otites e mais otites, injeções e mais injeções, em dias e dias de consultórios médicos, sem ter obtido nenhum resultado.
Continuaria assim, não fosse o extraordinário Mestre Pojó, que auscultando com os seus os meus ouvidos, deles extraiu impropérios e burrices, condensados em frases quase que iniludíveis, por mim ouvidas em todo o decorrer de minha vida, sem que eu pudesse imaginar que isso tudo um dia viesse a materializar-se no pavilhão auditivo interno do meu ouvido esquerdo, acumulando-se aí, pouco a pouco, emanados, conforme me fora explicado, do cérebro, em invisíveis e virulentos dejetos, felizmente retirados, com pericia, pelo transcendental hermetismo do mago ximango, em fantástica operação, documentada por toda equipe da Agencia TASS, da União Soviética, e por estudiosos de fenômenos paranormais das Universidades de Moscou e Leningrado, desse país, que, aproveitando a vinda à esta Cidade, atraídos pela repercussão do Caso Meia-Gala, no Pacoval, estiveram, também, por sugestão do poeta e filósofo alenquerense Antonio Aldo Arrais, para conhecer e terem a oportunidade de registrar todo o estágio paramédico alcançado e exercido, quase que anonimamente, pelo patriarca negro da reduzidíssima família Assunção.
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Por isso, alertei, cuidai-vos, aos engolidores de silabas, de palavras e de frases, exercício comum e involuntário aos quais estão expostos, mais que os outros, os diagramadores e revisores de texto de revistas, de livros e, principalmente, de jornais, sujeitos estes últimos, pela elevada incidência, a terem reflexos biológicos graves, geralmente manifestados na zona da garganta, a exemplo de Nicolai Polai Ustinov, ex-diagramador e um dos atuais editores do noticioso oficial do Kremlin que, precocemente acometido de câncer na garganta, segundo os médicos Russos, assistiu incrédulo Mestre Pojó colocar-lhe bom, o fazendo comer logo em seguida acari apimentado com farinha, após resgatar através de sua boca, letras e letras do seu alfabeto, palavras e palavras e até parágrafos inteiros, armazenados, fantasmagoricamente, entre a epiglote e a faringe, em um processo de captação mental que, com certeza, o colocará em evidencia no mundo todo, o fazendo requisitado e pretendido, inspirando-nos o risco de perdê-lo, assim como o clã, por irrecusáveis propostas de avançados centro Europeus e dos Estados Unidos, liberado que estará, desde agora, pela nossa ignorância.
Mais uma vez, cuidai-vos! Antes que o iluminado Pojó, com seus imorredouros cento e vinte e três anos, seus três únicos filhos de criação, e toda a sua transcendental sabedoria, dali se vá para ser festejado em algum outro pais do Ocidente, onde os seus conhecimentos sejam mais apreciados, e possa exercer com total liberdade as faculdades paramédicas cerceadas, convenientemente pelos ilusórios doutores do mercantilismo consultante e operador desta imensa região amazônica.
Portanto, pela ultima vez, cuidai-vos! Ainda existe tempo. Se insisto, é porque de suas curas e de vossas conscientizações às mesmas, dependerão a absoluta integridade dos textos e a mutilada saúde de seus autores. Não os maltrateis, omissamente, enquanto vivos, cirurgiando distraidamente, o indefeso corpo de suas mensagens, expondo-as ao tétano da incompreensão e da distorcialidade. Pelo contrario, se possível retoque-as.
São elas rostos caprichados de aparência, sujeitos a imperfeições, até então suportáveis, enquanto forem delas. Atentai-vos, por favor, urgentemente para isso. Lembrai-vos de Nicolai Polai Ustinov. E um abraço.
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* É poeta e escritor nascido em Alenquer e criado em Santarém.
Leia também dele:
O Tempo e Jocélia.
Prezado Jeso Carneiro,
Lendo este e outros escritos do Sr. Edwaldo Campos, pareceu-me que o mesmo é um bom ficcionista. Tanta verossimilhança – como se este seu presente escrito fosse pura verdade – fez-me relatar as minhas mais puras lembranças e experiências com os sábios mestres da floresta. Tenho apenas que rir de mim mesmo por ter acreditado na inverossímel estória – mas portadora de uma probabilidade de verdade (daí a verossimilhança).
Sr. Edwaldo Campos, o seu “realismo mágico” é digno de fazer inveja ao Gabriel Garcia Marquez.
Um abraço,
Jeferson.
Prezado Edwaldo,
Sou santareno e há anos vivo em Curitiba.
Realmente o meste Pojó é um grande Mestre Curador. Devem existir, ainda, muitos – ou quem sabe apenas alguns – mestres “pojores” pelo interior da Amazônia. Oxalá eles não estejam em extinção. Lendo o teu texto lembrei-me de dois casos, como seguem:
1- Uma das mais longínguas lembranças da minha infância na Amazônia remete-me a uma infecção crônica na garganta. Tudo isso provavelmente ocorreu no ano de 1969/1970, e eu estava com 05 ou 06 anos de idade, respectivamente, dependendo do ano em que isso ocorreu. Então, depois de tudo tentar com os parcos recursos disponíveis, meus pais levaram-me a um senhor curador que vivia no interior da selva lá para as bandas de Óbidos. Lembro-me que foi uma longa viagem de barco e, ainda hoje, aos 48 anos de idade, tenho vívidas lembranças dessa viagem e da chegada na casa do “curador”. Após uma leve – mas poderosa – “benzeção” com as mãos, fiquei curado e nunca precisei operar a garganta. As Afecções que tenho hoje são as simples afecções que nos acometem sazonalmente – as quais curo com copaíba, é lógico.
2- O segundo caso ocorreu com o meu filho, provavelmente no ano de 1993. Ele estava então com 03 anos de idade e, em uma de nossas férias em Santarém, um belo dia o garoto amanheceu todo murcho, com os olhos baixos e se recusava a comer. Alguém sugeriu que ele fosse benzido por uma senhora negra, que morava no bairro da Rodagem, cuja idade da mesma estimo, naquela época, algo em torno de 100 anos. A velha e sábia senhora pediu que tirássemos toda a roupa da criança e solicitou a um jovem neto seu que fosse até ao quintal apanhar um galhinho de arruda. Após passar uma pequena tira de pano pelo peito da criança e, com um aperto, trazer o peitoral do mesmo ao devido lugar, benzeu o testículo do infante com o galhinho de arruda. Quase que instantaneamente, o garoto retornou ao seu estado normal e saiu correndo para a rua como se nunca estivesse estado doente.
Deus queira que esse conhecimento não se perca e que esses grandes e poderosos mestres possam repassá-lo às novas gerações.
Finalizando, o grande ensinamento existencial do teu caso foi muito bem sintezado poeticamente pela Cecília Meirelles:
“Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência a vossa!
Todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois a audácia,
calúnia, fúria, derrota…”palavras, que estanha potência a vossa…”
Um abraço e tudo de bom!
Jeferson.
O “Beiradão” está por fora!
Parabéns pelo belo texto!!!
O “Beiradão” está por fora!
Parabéns, Panga, pelo belo texto.
O Pojó comeu os pontos de suas irrespiráveis frases! Devolve os pontos Pojó!
E você, Zé do Beiradão, comeu a vírgula antes do aposto: “Devolve os pontos, Pojó!”
Ou, com outra sintaxe: “Pojó, devolve os pontos!” Mais uma: “Devolve, Pojó, os pontos!”
Errata: onde se lê “aposto”, leia-se “vocativo”. Grato.