por Válber Almeida (*)

Valber AlmeidaEntre os argumentos dos apoiadores da chapa de continuação da Ufopa, encabeçada por Aldo Queiroz, figura um mito que é voltado para ludibriar mal informados e neobobos: o de que o Aldo Queiroz é o mais preparado para administrar a universidade, que ele sabe como captar os recursos de que ela precisa para crescer e de que ele possui liderança política para administrar.

Primeiramente, este discurso é um mito porque reduz o debate sobre o desenvolvimento institucional da universidade ao campo meramente administrativo.

Segundo, porque não se sabe desde quando o Aldo Queiroz se tornou referência em administração pública e liderança política.

Terceiro, porque é preciso, volto a chamar a atenção para o fato, olhar para a história para entender quais os interesses que estão, de fato, por trás do Aldo: não são interesses educacionais, são interesses políticos hegemônicos, de um grupo que produziu como resultado de décadas de controle sobre a educação no Pará uma das piores realidades educacionais do país.

Raimunda Monteiro e Aldo Queiroz se cumprimentam ao final do debate. Foto: Silvágner Grigório

Raimunda Monteiro e Aldo Queiroz se cumprimentam logo após o debate promovido pelo TV Blog do Jeso na TV Encontro (canal 26). Foto: Silvágner Grigório

Quanto ao primeiro argumento, não vou me deter para não tornar meu comentário demasiado longo, mas sabemos que a universidade é um sistema aberto, que a sua vida está umbilicalmente ligada à vida da sociedade que a circunda. Isso tanto pelo conhecimento que ela produz, que parte das investigações que são feitas, mormente, no ambiente externo, quanto porque está inserida no contexto macro da vida econômica, política e cultural da sociedade.

Assim, são múltiplos os fatores, internos e externos, que condicionam o desenvolvimento de uma universidade, os quais extrapolam os limites meramente administrativos.
Quanto ao segundo argumento, é notória a história dos 16 anos que o Aldo Queiroz administrou o pequeno campus da UFPa de Santarém.

Durante estes 16 anos, o grande feito administrativo do candidato foi transformar o pequeno campus da UFPa de Santarém num pequeno campus universitário. Em termos de liderança, o Aldo era tudo menos uma liderança no sentido próprio que a Ciência Política e a administração modernas atribuem ao termo.

Lideranças são, primeiramente, pessoas que se destacam pelas elevadas qualidades pessoais, altíssima capacidade de resolver problemas, entender o novo, aproveitar as oportunidades, que tem flexibilidade, carisma e visão ampla da realidade.

São pessoas que formam grandes equipes com base no estímulo do que há de melhor nos membros da equipe, na mobilização de recursos diversos voltados para o melhoramento da instituição em que atua, no fortalecimento cultural, psicológico e moral da equipe.

Essas características destoam totalmente da pessoa do Aldo, que, enquanto pessoa pública, é um político profissional, mas não uma liderança. Talvez tenha grande capacidade e qualidades na área profissional em que é formado, mas isso já é outra coisa.

Oportunidades houve, pois o grupo do Aldo está à frente da UFPa e, agora, da Ufopa há décadas, mas ele nunca soube aproveitar, mostrou-se subserviente à política comandada na instituição a partir de Belém, política esta que objetiva apenas e exclusivamente manter o controle sobre a máquina pública para satisfazer interesses políticos hegemônicos.

A visão ampla da realidade, necessária para entender o novo, e a flexibilidade necessária para absorver, aproveitar e estimular o potencial de todos os membros da coletividade que formam a universidade se perderam no pensamento e nas atitudes paroquiais, coronelistas e patrimonialista, cuja filosofia é: para meus aliados os benefícios do poder, para meus inimigos, os malefícios.

Ouso afirmar que o Aldo nunca teve, de fato, preocupação com o desenvolvimento da Universidade, mas com seus projetos políticos pessoais e do grupo político ao qual pertence dentro da UFPa e do estado.

Aí é que entra a parte histórica que menciono como necessária para entender os processos políticos. O Aldo, já disse em comentário anterior, é do mesmo time do Nilson Pinto-Loureiro-Ximenes-Fiúza, todos no poder na atualidade: Nilson Pinto é deputado Federal, Loureiro e Ximenes estão na cúpula da Ufopa, Fiúza é secretário (nome muito apropriado, por sinal, para o que anda fazendo na atualidade o ex-reitor da UFPa) do Jatene.

O Grupo do Aldo hoje é quem manda, de fato, em toda a rede estadual de educação do Pará. O Nilson Pinto é quem manda na Secretaria de Educação e nela mantém como subordinados a sua esposa, conhecida nos bastidores como uma Secretária sem pasta, e o ex-reitor da UFPa Alex Fiúza de Melo.

Como já disse, o Fiúza se beneficiou de um momento ímpar da história das UFs brasileiras, que foi o do governo Lula, quando muito recurso federal foi destinado para a pesquisa e para a reconstrução física destas instituições. Por isso, posou de grande administrador. No entanto, à frente de pasta bem mais modesta e tendo de satisfazer compromissos políticos nada comprometidos com a educação, sua máscara de grande administrador caiu.

O episódio que protagonizou de mediador do governador na greve dos profissionais da educação do estado foi, no mínimo, ridículo. O discurso dele conclamando os professores a voltar à sala de aula “pelo Pará” já entrou para a história das coisas mais patéticas produzidas pelos políticos paraenses. Enfim, mostrou o que realmente é: um intelectual de grande pompa, mas um político medíocre como a maioria dos políticos que governam este estado.

Em outras palavras, não é de hoje que a educação no Pará está nas mãos do grupo político ao qual pertence o Aldo Queiroz, e não consta nas estatísticas e na vivência empírica dos profissionais da educação que os resultados sejam animadores: na educação básica estamos entre os piores do Brasil e nas universidades a política autoritária freia o desenvolvimento da democracia e emperra outros ganhos administrativos que decorreriam da maior democratização das universidades.

É um grupo que se arroga o título de grandes administradores, mas tudo o que produzem em termos empíricos é um desastre educacional. E isso se deve a um fato básico do qual todos decorrem: eles não tem compromisso com a educação, têm compromissos apenas com seus interesses políticos individuais e de grupo do qual fazem parte.

É, assim, um projeto político, e não educacional, hegemônico que estes políticos profissionais infiltrados no meio acadêmico possuem e buscam viabilizar quando na posse da coisa pública.

Portanto, eleger o Aldo Queiroz para reitor da Ufopa é alimentar o poder deste grupo que não tem sido positivo para a educação paraense. É alimentar projetos pessoais e particulares de poder; é dizer um NÃO a iniciativas que representam uma inovação e uma possibilidade concreta de tirar a educação no Estado do atoleiro no qual se encontra.

Volto a dizer, se eu fosse professor da Ufopa, pelo bem de Santarém e da EDUCAÇÃO pública no Pará eu votaria na chapa da professora Raimunda Monteiro.

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* Doutorando, é professor de Sociologia da Seduc e de Ciência Política da UFPA.

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7 Comentários em: Um mito para ludibriar os neobobos

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  • Nurandaluguaburabara disse:

    Na minha interpretação, nem político profissional o Aldo é, muito menos gestor profissional. Ele não tem carisma, é autoritário e arrogante, e até o momento se sustentou em seu posto pelo seu perfil de subordinado aos interesses do grupo a qual pertence. Só faz cumprir o seu papel de receber e executar ordens e perseguir aqueles que se opõem ou questionam seu modus operandi.

    1. Mundico N° 1 disse:

      Concordo plenamente!!

  • Jackson Rêgo disse:

    Bom saber que estamos alertas a esta situação patética de senhores feudais da educação quererem a perpetuação da péssima educação para se manterem no poder. Recomendo leitura do artigo A via de mudança na Ufopa.

  • Gilson Cordeiro disse:

    Excelente análise.
    Pena que a Universidade seja uma instituição humana como todas as outras, e por isso mesmo, contaminada de interesses individuais, muitas vezes mesquinhos e egoistas. Há pessoas que pensam que devem favores por ter feito um curso no período que a instituição tinha um determinado dirigente ou que deve ser eternamente grata por estar hoje com um emprego estável ocupando uma vaga que um determinado dirigente supostamente criou. Ou querem votar em alguém por estar recebendo uma função gratificada na base de nomeação, muitas vezes contrariando a vontade do coletivo. Essas pessoas demonstram uma subserviência e uma falta de segurança tão grande que justificam seu voto na continuidade com medo da mudança pois precisam ser protegidas por figuras como estas, que cobram muito caro pela proteção que oferecem. Pior é que quem paga a conta são todos, inclusive destes bajuladores que um dia serão desprezados. E só então vai cair a ficha. Mas muitos estragos já foram feitos. A única forma de cortar esse mal é eliminando sua fonte de nutrição. Por isso, vote pela mudança. Vote Raimundinha e Anselmo. A UFOPA merece uma gestão participativa com excelência. A sociedade do Oeste do Pará merece respeito na aplicação dos recursos públicos. Todos merecemos uma Universidade que seja exemplar, tanto nas suas atividades de ensino, pesquisa e extensão, quanto em transparência, diálogo e liberdade. Enfim, exemplo de democracia.

  • Mundico N° 1 disse:

    Respondendo a pergunta de Sonaira, aqueles que pensam na UFOPA como uma Universidade e não simplesmente um cabide de emprego ou uma escada para cargos e/ou ganhos financeiros não querem isso para UFOPA. Depoimentos como esse mostram bem quem são os oportunistas, quem está apenas fazendo discurso. Por isso, é que está na hora de darmos um basta e pensarmos na UFOPA como uma instituição do coletivo que a faz para um único fim, trabalhar pela educação de qualidade em nossa região, trabalhar por ensino, pesquisa e extensão que possibilite ajudar na construção de uma sociedade melhor. É nisso que acredito!!!!

  • SONAIRA disse:

    Luz sobre os fatos. Vc sintetizou EXATAMENTE quem é Aldo Queiroz e o que ele quer frente a UFOPA. O atraso dos 16 anos em que ele comandou a UFPA é o melhor retrato da sua gestão. Queremos isso pra Ufopa?

  • Guy Fawkes disse:

    Excelente texto! Só uma pequena correção: Lourenço, não Loureiro. Ah, sim, o Aldo como professor e engenheiro é excelente ditador, só para tirar a dúvida do articulista.