Somos a geração corcunda. Tenho ou não razão? Por Helvecio Santos

Afora o que aprendi nos meus tempos de Dom Amando sobre a invenção de Alexander Graham Bell, até por volta de 1969, era zero a minha intimidade com o cascudo, um trambolho preto sempre num lugar de destaque na sala de visitas das residências e nas empresas e escritórios, na sala do proprietário.

Meus pais, oriundos da Costa de Óbidos, não viam necessidade e também não tínhamos disponibilidade financeira. Na Santarém de então, só os mais abastados tinham telefone e sua propriedade era sinal de status, coisa para poucos.

Helvecio Santos *

Pela minguada rede existente, a numeração de chamada era composta por três números.

Diziam que era preciso saber atender e discar e não se podia falar até que o “tum tum tum” parasse. Isso me atormentava. Quando chegasse o momento será que eu saberia identificar o “tum tum tum” ou iria passar vergonha?

Por volta de 1969, quando fui trabalhar no Banco Geral do Brasil, ali na esquina da Rua do Comércio com 15 de Novembro, por força do ofício, tive que adquirir intimidade com o dito cujo.

 Por necessidade, perdi o medo de passar vergonha, aprendi (?) a ligar e atender telefone e o trambolhão passou a ser parte do meu instrumental de trabalho.

 

Quando cheguei no Rio em meados de 1971, a rede telefônica era domínio exclusivo da TELERJ, uma paquidérmica estatal ineficiente, como sempre, cabide de emprego. Para resumir, era do tipo: “falha quando mais precisa”.

A linha telefônica era negociada a preço de ouro. Inúmeros escritórios se dedicavam exclusivamente à corretagem e havia lugares como a Barra da Tijuca que você tinha de deixar seu nome e entrar na fila. A procura era sempre maior que a oferta e era estratégico ter um amigo num desses escritórios.

O preço alto e a dificuldade de se adquirir uma linha criou um mercado de locação e havia pessoas que tinham inúmeras linhas e viviam exclusivamente do aluguel das mesmas.

Hoje, embora não tenhamos uma maravilha de prestação de serviço, com a privatização e a quebra do monopólio, isso é coisa do passado e o valor das linhas da noite para o dia virou pó.

Quem vivia da corretagem ou do aluguel, chorou lágrimas de sangue.

No restaurante, lá está o celular! No carro, lá está o celular! No banheiro, lá está o celular! No relax, lá está o celular!

Saímos da idade da pedra para o modernismo e com a cosmopolitização, somos totalmente dependentes e o grilo falante nos alcança em qualquer lugar, mesmo os mais íntimos.

A margem de erro não é grande se dissermos que o celular é parte integrante do corpo humano que anatomicamente se divide em cabeça, tronco, membros e celular.

Para todo lado ele nos acompanha e quando estamos longe dele bate um vazio, falta alguma coisa.

No restaurante, lá está o celular! No carro, lá está o celular! No banheiro, lá está o celular! No relax, lá está o celular! Na roda de amigos, lá está o celular! No show do Mengão, lá está o celular! Enfim, o celular está em todo lugar, ofuscando até mesmo a amizade canina, pois é muito comum a coleira servir para o cachorro puxar o dono.

O que serviria como ferramenta nos bancos escolares , não tenho dúvidas em afirmar, se tornou um complicador, pela cultura simplista e rasa que proporciona e que satisfaz a primária exigência dos frequentadores dos bancos escolares, notadamente os alunos do curso médio.

Afora o período reservado ao sono, o celular nos rouba de qualquer companhia ou interesse e talvez seja o pior dos vícios que nos assola. Ouso dizer que já é um problema de saúde, tanto pela dependência quanto pela deformação física que nos impõe.  

A análise da dependência deixo a critério de qualquer usuário e tenho certeza, já é objeto da preocupação e estudo dos psicólogos e psiquiatras.

A deformação física, evidente a qualquer observador minimamente atento, pela postura que o uso do celular nos obriga a ficar, às vezes horas e horas com o pescoço curvado, cervical a noventa graus, cabeça caída e queixo apoiado no peito, caminhamos celeremente para uma deformação de postura tipo do personagem cinematográfico de Notre Dame.

 

Não é preciso um olhar atento para observarmos que já somos uma geração corcunda!

Tenho ou não razão na minha afirmação?

Ouso dizer que ficará rico quem tiver a visão de patentear um acessório exclusivamente para corrigir a cervical ou mesmo para apoiar a cabeça nas intermináveis horas de intimidade com o celular.  

Quem se habilita?  


— * Helvecio Santos é advogado e economista. É santareno e mora no Rio de Janeiro, de onde escreve regularmente para este blog.   

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