A lei de acumulação capitalista, detalhada por Marx, impõe-se de forma objetiva sobre os jovens. Por Marlon Kauã Cardoso

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A lei geral da acumulação capitalista, tão bem detalhada por Marx, impõe-se de forma objetiva sobre os jovens. Por Marlon Kauã Cardoso

O marxismo não é uma teoria positivista, com um quadro fechado de tópicos, mas sim uma teoria e prática, que se relaciona dialeticamente com o mundo concreto – como lembra Karel Kosik. Assim, é uma posição não científica tentar transpor conceitos de forma mecânica para a realidade latino-americana atravessada pelo colonialismo, isto é, tentar refletir sobre a realidade sem partir dela, dos homens reais e concretos, para lembrar Marx em A ideologia Alemã.

Desconsidero a confusão epistemológica que a direita tenta produzir acerca da tradição marxista. Esta é bem consolidada, de Marx, passando por Lênin até chegar no Sul Global, com a teorização de Mariátegui e a prática de Fidel.

∎∎ Leia também de Marlon Cauã Cardoso: O Brasil para se tornar a nova Roma de Darcy Ribeiro precisa derrubar o PL das terras raras.

∎∎ Sobre jovens e tráfico, leia ainda: O charme irresistível da esquerda galanteadora. Por Válber Pires.

Dessa forma, enquanto intelectual, parto da realidade concreta do povo brasileiro, antes de qualquer arrogância intelectual, e das necessidades imediatas da classe trabalhadora.

O estado de natureza, que alguns postulam como algo natural, na verdade é uma construção social e historicamente determinada; em nosso caso pelo capitalismo dependente cimentado pelo colonialismo e reeditado pelo neoliberalismo que nos coloca, através da lógica da sociabilidade da concorrência, para concorrer com nossos semelhantes por uma fatia mínima da mais-valia.

Assim, não vou entrar em polêmicas superficiais de olavistas e seus chavões como “marxismo cultural”, “esquerda romântica”, “estado de natureza”, “Razão do Estado” e coisas do tipo. São armadilhas discursivas, quiçá ideológicas, para camuflar a realidade material.

Como aludi em outro artigo, neste mesmo site, a educação no Rio de Janeiro é um projeto das classes dominantes; foi sacramentado na derrota de Darcy Ribeiro para Moreira Franco.

Por exemplo, enquanto Cláudio Castro, político de estimação das elites políticas cariocas e também de alguns “intelectuais” liberais e punitivistas, construiu apenas UMA escola, em sua gestão, Brizola e Darcy Ribeiro construíram QUINHENTAS escolas – os Brizolões.

Essa comparação é importante porque, além de qualificar a discussão do ponto de vista histórico e político, é ilustrativo das causas reais para a expansão do tráfico e das milícias no Rio de Janeiro: a direita, que controla o estado há mais de vinte anos, e o capitalismo que, ao mesmo tempo que explora, mata os jovens.

Explico. Segundo os dados do IBGE, o Rio de Janeiro é o estado, dentre os demais da federação, que menos emprega jovens de 18 a 24 anos (1). Além disso, para o ensino médio, o Rio de Janeiro está entre os piores IDEBS – segundo lugar – dos estados brasileiros (2). Cruzando esses dados com a idade dos mortos, na recente operação, identifica-se, que apenas três dos mortos tinha 40 anos, e apenas um com 55 anos. O restante, em sua maioria eram jovens, possuía a idade de 14 anos, 18 anos, 20 anos, 25 anos – com média geral de 28 anos (3).

Essas evidências nos colocam diante do seguinte ponto sociológico: o crime organizado, enquanto modo de produção capitalista, emprega força de trabalho para extrair dela mais-valia. O Estado, por sua vez quando pune e mata, age contra a força de trabalho do tráfico, em sua maioria jovens, e não contra os capitalistas.

Em suma, novamente insisto: o capitalismo, ao mesmo tempo que explora, mata os jovens; mata a força de trabalho, facilmente substituível pelo capital. A lei geral da acumulação capitalista, tão bem detalhada por Marx N’Capital, impõe-se de forma objetiva sobre os jovens, dia após dia, no Rio de Janeiro, mas também em todo o Brasil. Não existe escolha aqui. Ignorância pensar assim: que a culpa do castigo do titã Prometeu é do próprio Prometeu, e não de seu algoz. 

Para os jovens, que entram ou estão em vias de entrar para o tráfico como força de trabalho, persiste o quadro social ilustrado em uma das músicas dos Racionais MCs, em 1997. É um exército industrial facilmente substituível e altamente rentável para a mesma sociedade capitalista que o mata e explora:

“Moleque novo que não passa dos doze
Já viu, viveu, mais que muito homem de hoje
Vira a esquina e para em frente a uma vitrine
Se vê, se imagina na vida do crime
Dizem que quem quer segue o caminho certo
Ele se espelha em quem tá mais perto
Pelo reflexo do vidro ele vê
Seu sonho no chão se retorcer

[…]

Ninguém liga pro moleque tendo um ataque
Foda-se quem morrer dessa porra de crack”

Racionais MCs, Mágico de Oz.

Do ponto de vista real, os jovens estão duplamente asfixiados: sem emprego e sem educação. A alternativa é o tráfico, infelizmente. Pergunto: de quem é a culpa? Da esquerda romântica e ingênua, dos intelectuais que refletem sociologicamente e criticamente, ou da direita que governa o estado há mais de 20 anos e aprofunda a centralização e concentração de capital econômico, capital social e capital cultural? Ou melhor, seria dos jovens? Não seria, ademais, também dos “intelectuais” que ajudam a esconder a realidade do povo brasileiro do próprio povo brasileiro?

Portanto, a realidade concreta é suficiente para desmontar qualquer construção retórica de que a desigualdade social é algo natural – um estado de natureza.

Quer dizer, a desigualdade social talvez seja natural para os “intelectuais” das classes dominantes e para o Cláudio Castro, que buscam manter o status quo, civilizando pela força, e não pela construção de escolas e geração de empregos. A força, nesse caso, serve para realizar a limpeza étnica e gerar mais empregos às custas da morte de jovens, da necropolítica. Política da morte para a força de trabalho, e biopolítica para o capital.

1 SBT NEWS. Rio de Janeiro tem maior taxa de desemprego jovem entre 18 e 24 anos, aponta IBGE. Link para acesso: https://sbtnews.sbt.com.br/noticia/brasil/rio-de-janeiro-tem-maior-taxa-de-desemprego-jovem-entre-18-e-24-anos-aponta-ibge. Acesso em: 10 nov. 2025.

2 IEDE. Rio tem queda na nota do ensino médio, mas melhora no ensino fundamental. 2023. Link para acesso: https://portaliede.org.br/contribuicao/rj1-ideb-2023-rio-tem-queda-na-nota-do-ensino-medio-mas-melhora-no-ensino-fundamental/#:~:text=16/08/2024,Ideb%202023:%20Rio%20tem%20queda%20na%20nota%20do%20ensino%20m%C3%A9dio,Confira%20reportagem%20completa%20no%20RJ1. Acesso em: 10 nov. 2025.

3 GUERRA, Rayandersson. Perfil dos mortos em operação do Rio mostra retrato da mão de obra do tráfico: homens e jovens. Estadão. 2025. Link para acesso: https://www.estadao.com.br/brasil/mortos-em-operacao-no-rio-eram-homens-com-media-de-idade-de-28-anos-npr/#:~:text=de%2040%20anos.-,Dos%20115%20corpos%20identificados%20pelo%20Governo%20do%20Rio%20de%20Janeiro,mortos%20tem%20apenas%2014%20anos. Acesso em: 10 nov. 2025.


∎ Marlon Kauã Silva Cardoso é sociólogo. Com formação em Ciências Sociais (UEPA), fez mestrado em Sociologia (UFPA/PPGSA) e, atualmente, é doutorando em Sociologia (UFPA/PPGSA).

∎ Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião do JC. A publicação deles obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros, prioritariamente, e de refletir as diversas tendências do pensamentos contemporâneo.

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One Response to A lei de acumulação capitalista, detalhada por Marx, impõe-se de forma objetiva sobre os jovens. Por Marlon Kauã Cardoso

  • E com certeza até com uma pedrada na cabeça um sujeito armado de fuzil é facilmente dominado. Agora resta saber quem está disposto a jogar a pedra.

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