Anselmo Colares recebe homenagem da Câmara pelos 20 anos do título de doutor em educação

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Anselmo Colares recebe homenagem da Câmara pelos 20 anos do título de doutor em educação
Anselmo Colares, 20 anos de doutorado, feito na Unicampo, em SP. Foto: Arquivo pessoal

Nesta quarta-feira (29), a Câmara Municipal de Santarém (PA) vai homenagear os 20 anos do título de doutor em Educação na Amazônia conquistado pelo professor Anselmo Alencar Colares. A homenagem é resultado de uma Moção de Aplausos de autoria do vereador Josafá Gonçalves (PL), que também é professor, aprovada por unanimidade pela Casa.

A justificativa da Moção é o percurso completo da formação educacional de Colares em escola pública em Santarém, em condição adversa.

Anselmo Colares declarou-se lisonjeado com a homenagem e recordou que ao sair de Santarém para estudar em São Paulo, na Universidade de Campinas (Unicamp), as circunstâncias eram bem mais desafiadoras, sem saber dos resultados que poderia alcançar. Lembrou que na Unicamp teve acesso a eventos acadêmicos, com temáticas reflexivas sobre o que fazem os mestres e doutores.

As reflexões o ajudaram a decidir o que fazer ao retornar a Santarém, depois de formado, a fim de viabilizar acesso a pós-graduação a quem não poderiam sair em busca de conhecimento. Hoje, o professor consegue perceber que muitas coisas aconteceram a partir de iniciativas, fruto da sua preparação fora de Santarém.

Entre tantas realizações, Colares destaca como exemplo um doutorado em educação entre Unicamp e Ufopa, que resultou na formação de 18 doutores.

A formação dessas pessoas foi decisiva para aprovação do mestrado em educação, o que culminou com a formação de dezenas de professores mestres que já estão atuando em Santarém e região. Essas ações efetivas muito contribuíram com a melhoria da educação local e regional, em especial, na educação pública, onde está a maioria da população mais carente.

Melhoria na educação

De acordo com Colares, em relação ao período quando recebeu o título de doutor em educação na Unicamp, considera que houve avanços significativos na educação na Amazônia, embora muitas pessoas não percebam devido não ser da área da educação, por isso são desobrigados a ter essa percepção, mas pela atuação e dedicação dele na área é possível afirmar com tranquilidade que houve avanços consideráveis.

“Nos últimos vinte anos houve avanços significativos especialmente, na democratização do acesso à educação. É evidente que se aumenta o quantitativo, haverá implicações nas variações do qualitativo”, ressaltou.

Segundo o professor, no passado, a escola recebia poucos alunos e uma boa parte era expulsa devido a não continuidade dos estudos, uma vez que a escola trabalhava com a lógica de fazer crivo, pois em cada mil matrículas no ensino primário e depois no fundamental, um ou dois alunos conseguiam chegar ao ensino superior. Mas ao chegar ao ensino superior não havia garantia de concluir o curso.

No decorrer dos anos, segundo Colares, esses números foram alterados completamente e houve também melhoria na qualidade do ensino, o que chama bastante atenção do ponto de vista político-social. Portanto, Colares disse que é preferível o que se tem hoje, em termos de educação, do que a situação anterior que deixava a maioria alijada do direito de estudar.

Sobre a implantação de duas universidades no interior da Amazônia, A Unifespa, em Tucuruí e Ufopa, em Santarém, Anselmo Colares considera que foi um movimento tardio.

Para ele, isso expressa também o sentido da educação ao conjunto da economia dessas regiões, que por muito tempo, com o processo produtivo atrelado ao extrativismo, a métodos rústicos na agricultura e, no caso de Santarém, dependente do comércio, sem que a escolarização fosse compreendida como necessária, fundamental ao desenvolvimento da sociedade.

Bem diferente de outras regiões do país, onde a presença da mão-de-obra imigrante introduzida na nascente industrialização fez com que esses trabalhadores vindos da Europa, onde o sistema educacional já se mostrava necessário ao exercício de novas atividades, esses trabalhadores faziam pressão pelo acesso à educação, o que não aconteceu na Amazônia, ou veio a ocorrer tardiamente, porque as elites locais mandavam os filhos estudar fora, uma atitude impensável aos filhos dos pobres, que era a maioria da população.

Por muito tempo, de acordo com Colares, na Amazônia não houve pressão por escolas e nem havia interesse das elites locais em ofertar o ensino, uma vez que isso representava gasto e preferiam mandar os filhos estudar fora, em vez de fazer investimento interno para atender aos filhos e demais pessoas.

Para Colares, esse contexto histórico ajuda a entender o atraso e esse conjunto de situações. No entanto, recentemente não houve mais espaço para continuar dessa maneira com relação as questões educacionais, as mudanças externas e internas demandaram por mudança, “por isso, na condição de professor do Ministério da Educação entendo a educação não em si mesma, mas articulada com as questões econômicas, culturais, sociais e políticas”, destacou.

Sobre o reconhecimento da Câmara de Vereadores, Anselmo Colares recorda que em determinado dia quando ainda integrava a Reitoria da Ufopa, na condição de vice-reitor, em uma celebração do seu aniversário, um dos diretores de instituto, professor doutor Roberval Santos, emocionou-se ao dizer que ainda era menino quando acompanhou a notícia do retorno a Santarém do professor Anselmo Colares, com o título de doutor, sendo o primeiro a fazer todos os estudos básicos em Santarém, em escola pública, e Roberval disse:

“Quando eu lhe vi dando entrevista, falando sobre o percurso educacional, naquele dia eu decidi, é isso que vou fazer, é isso que eu quero pra minha vida”.

Segundo Colares, esse é um dos exemplos, mas houve outros, de muitas pessoas que se inspiraram nele, na escolha de suas carreiras e percursos profissionais. “Isso é motivo de muita satisfação, saber que a nossa realização pessoal é motivo de inspiração para outras pessoas”, diz Anselmo.

Ser e ter

A satisfação do professor Anselmo Colares, no entanto, vai além dos que conseguiram se tornar mestres ou doutores, mas também a tantos que se motivaram a fazer outros níveis de estudo, aqueles que entenderam que a busca do conhecimento visa melhorar as condições de vida tanto cultural quanto financeiro, mas principalmente, como pessoa, como ser humano.

Para Colares, isso é muito mais importante do que outros aspectos, pois quando alguém se realiza como pessoa, outras coisas acontecem naturalmente. A pessoa prospera economicamente, tornam-se resolvida em outros campos, mas o mesmo não ocorre com relação ao desenvolvimento educacional e cultural.

“Penso que se ao desenvolver o ser, o ter alcança uma dimensão bem diferente. Há pessoas que tem muito do ponto de vista material, mas ela não é resolvida enquanto pessoa, porque o ser ficou atrofiado”, pontua.

Colares disse ainda que “se há algo que eu possa deixar como contribuição é o exemplo da articulação entre o ter e o ser, pois é isso que a educação propicia as pessoas, ou seja, as condições objetivas para se viver bem e com dignidade”.

Por Ednaldo Rodrigues, jornalista e doutorando em Educação na Amazônia.


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