Advogado e historiador, Luiz Ismaelino Valente faz um oportuno comentário a propósito do post Retrovisor. Sala do Tribunal do Júri:
Caro Jeso,
Com problemas no meu PC, só hoje consegui ver a linda foto do Apolônio Fonna mostrando o Salão do Tribunal do Juri de Santarém no antigo palacete da Prefeitura, hoje Museu João Fonna.

Reparei, inclusive, na foto, ao fundo: o quadro “A Justiça”, do João Fonna, irmão do Apolônio.
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Quando cheguei a Santarém, em 1977, para assumir a 1ª Promotoria de Justiça, procurei insistentemente por esse quadro. Fui descobri-lo, junto com outras pinturas, inclusive o retrato do Barão de Santarém, no porão da Câmara (onde hoje voltou a ser o Theatro Vitória).
Pedi licença ao presidente do Legislativo, Paulo Roberto Mattos, e levei esses dois quadros para outro irmão do Apolônio, o Pedro Fonna, também conhecido como Pedro Camargo, o exímio artista das cuias pintadas, para restaurá-los.
Pedro, honestamente, disse-me que faria apenas a limpeza dos quadros e a restauração das molduras, mas não tocaria na pintura original, pois isso seria “um sacrilégio”.
Feito o trabalho, entreguei o retrato do Barão à Casa da Cultura “João Santos” e levei o quadro “A Justiça” para o gabinete da 1ª Promotoria de Justiça no Forum Ernesto Chaves.
Quando havia sessões do Tribunal do Juri, o quadro era levado para lá durante todo o período dos julgamentos e depois voltava ao gabinete do 1º Promotor. Tenho fotos de minha atuação no Júri de Santarém com o quadro do João Fonna ao fundo. E eu nem conhecia a bela foto do Apolônio, em boa hora resgatada pelo Padre Sidney.
Quando saí de Santarém em 1987, fui tentado a trazer para Belém comigo o quadro do João Fonna, pois sou casado com uma sobrinha-neta dele. A honestidade e a responsabilidade, contudo, falaram mais alto, e entreguei o quadro, mediante ofício, à Casa da Cultura João Santos, pois o quadro pertence de fato à comunidade santarena.
De lá, foi levado para o atual Museu João Fonna, onde sofreu uma bárbara “intervenção”, ocasião em pintaram o rosto da Justiça com a imagem de uma ex-prefeita santarena. A família, obviamente, chiou, tendo o apoio de muitos intelectuais, e o quadro foi repintado outra vez, para mostrar uma Justiça anônima e vendada, como era no original. Esse verdadeiro crime contra o patrimônio cultural santareno, porém, não podia ter acontecido.
Agora, vendo a foto do Apolônio Fonna, vêm-me à mente que a pesquisadora Ligia Simonian, da UFPA, tem um magnífico livro sobre Apolônio, “o pioneiro da fotografia em Santarém”, ricamente documentado. Pelo que eu sei, o livro está prontinho da silva, com a editoração eletrônica concluída há uns dois ou três anos, mas a pesquisadora luta bravamente com a falta de patrocínio oficial para editá-lo.
Sei que a atual gestão municipal não se interessou em bancar a essa obra. É lamentável pagar uma fábula para cantores de outros estados virem “abrilhantar” o Sairé, embora sem nada terem a ver com o Sairé, e a Prefeitura não tomar a si a responsabilidade pela edição de uma obra como essa que tem tudo a ver com o resgate da história e da cultura mocorongas.
Não lanço a pergunta à minha amiga Maria do Carmo, que já está deixando o cargo daqui a pouco mais de dois meses, mas lanço-a ao prefeito eleito Alexandre Wanghon: por que a Prefeitura não arca com a edição do livro da Professora Ligia sobre o Apolônio Fonna?
Dr. Ismaelino, conheci um pouco dessa pesquisa da Ligia Simonian, quando fui em busca de informações sobre meu avô Vidal, que também era fotógrafo. Realmente é lamentável a falta de apoio para projetos como esse. As prioridades na área de cultura são difíceis de engolir. Por vezes são gastos milhares ou até milhões com “grandes” espetáculos, ou com um único artista rebolativo, enquanto vários projetos de menor porte poderiam ser bancados, seja na música ou nas artes plásticas.
E essa de colocar a cara de uma ex-prefeita no lugar do rosto da justiça, eu não sabia! É hilário, se não fosse trágico!
Pois é Lila. Espero que as postagens daqui do blog sensibilizem a quem de direito. Seria um grande momento para a história e a cultura santarenas. Em tempo: o pesoal da Imprensa do MP me pasou umas fotos do Theatro Vitoria que você tirou muito bonitas. Parabéns.
Fiquei emocionada com esse relato. É a história viva nos sendo contada.
Não somente ao governo municipal, caro amigo e irmão Ismaelino…
Conheço o trabalho da Lígia e merecia ser publicado até mesmo pelo Governo do Estado do Pará que muito deve à cultura e à história de nossa Região…
Concordo, confrade Pe. Sidney. Você tem toda razão. Minha pergunta também pode ser lançada em direção ao governador Simão Jatene e ao Secretário Estadual de Cultura Paulo Chaves. Deculpe a minha falha.