A aparição do diabo nas eleições do Brasil. Por Felipe Bandeira

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A aparição do diabo nas eleições. Por Felipe Bandeira
A aparição do diabo na política brasileira não é recente, afirma Felipe Bandeira

A disputa pelo voto dos cristãos tem produzido um fenômeno aparentemente contraditório: a aparição do diabo nas eleições. Esta aparição, no entanto, não é novidade na nossa história nacional[1].

Desde que chegaram nas Américas, no século XVI, os portugueses classificaram os nativos que aqui viviam de bárbaros e associaram sua cultura às práticas demoníacas, demônios, aliás, trazidos no porão de suas embarcações e lançados sobre os povos indígenas a fim de saqueá-los e escravizá-los.

Nas Revoltas populares do Brasil colonial, como a Revolta da Cabanagem que ocorreu no Pará, entre os anos de 1835-1840, chamava-se os rebeldes de excomungados e “tinhosos”, pois dizia-se que estes ameaçavam os valores tradicionais do Império lusitano.

Mais tarde, ao longo do século XX, as práticas religiosas dos povos indígenas e ribeirinhos, como as festas de santo e mesmo a festa do Çairé, em Alter do Chão, foram proibidas sob acusação de profanar o cristianismo e a igreja católica. E para falar de um caso mais atual, infelizmente, ainda nos dias de hoje, as religiões de matriz africana são associadas por muitas pessoas cristãs às práticas demoníacas. 

Em todos os casos citados acima, para ficar só nesses exemplos, tais práticas foram consideradas diabólicas pelas elites dominantes que logo em seguida implementaram programas políticos contra as massas populares.  Observa-se, portanto, que o Diabo há muito tempo anda envolvido com a política no Brasil.

Não poderia ser diferente nas atuais eleições. Temas ligados aos costumes e religião sempre aparecem nas eleições para manipular e incendiar os debates. Existe uma verdadeira interdição sobre determinados temas, que são explorados de forma demagógica por determinados políticos.

Nas atuais eleições, marcadas por forte polarização, dizer que o diabo é o cabo eleitoral do candidato oponente tem efeitos imediatos sobre o aumento da sua rejeição. Ora, como argumentei em outro texto, como a grande maioria dos eleitores já definiu seu voto, o acirramento na disputa se direciona para aqueles eleitores que no primeiro turno optaram pela terceira via.

No caso de Bolsonaro, a aposta no antipetismo passa pela ideia de associar Lula aos valores anticristãos. Essa movimentação ficou nítida na última semana quando a comunidade evangélica compartilhou em massa notícias falsas sobre o fechamento de igreja e uma suposta perseguição aos cristãos.

E é associado a estas práticas que se se constitui a ideia de exorcizar o PT da vida política brasileira. Em termos sociológicos, é interessante observar que tal narrativa não está descolada de práticas e sociabilidades do brasileiro.

Em diversos cultos evangélicos, por exemplo, muitas pessoas, seja por vaidade ou egoísmo, têm seu corpo apossado pelo demônio. Diante de uma grande plateia de fieis, o pastor, sob o poder que lhe é investido, dá início ao exorcismo do “coisa ruim” e o manda direto para as profundezas do inferno.

Pela quantidade de exorcismos diários em algumas denominações evangélicas, alguns transmitidos pela TV, é possível assinalar inequivocamente que esses rituais nunca estiveram tão presentes na vida nacional como no tempo presente.

Esta simples observação factual evidencia que existe uma equivalência muito nítida na comunidade evangélica entre exorcizar forças malignas das igrejas e da vida pública do país.

“… dizer que o diabo é o cabo eleitoral do candidato oponente tem efeitos imediatos sobre o aumento da sua rejeição”

Embora possa parecer legítimo para muitos, esse tipo de equivalência com muita frequência produz mal estar e ódio à grupos específicos, como movimentos sociais, movimento de mulheres, movimentos de esquerda e a comunidade LGBTQIA+.

Por fim, longe de uma “Cristofobia”, como muitos apregoam, inclusive o atual presidente, vivemos no país um período de acirramento da política onde o púlpito de muitas igrejas se tornou palanque para políticos.

Obviamente que a expansão do bolsonarismo na comunidade evangélica possui muitas explicações, mas certamente as narrativas construídas para associá-lo a um líder cristão são fundamentais para compreender esse processo.


[1] Veja “MELLO e SOUZA, Laura de. O diabo na terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 2009”.

Felipe Bandeira
Felipe Bandeira

Professor do curso de Administração da Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará) e doutor em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp (Universidade de Campinas). Escreve regularmente no JC.

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4 Comentários em A aparição do diabo nas eleições do Brasil. Por Felipe Bandeira

  • Segundo o autor, se eles pastores fazem exorcismo diariamente em suas igrejas, é sinal que o capeta está sempre presente e na companhia deles em seus templos.

  • Existe vasta literatura sobre o tema. Religião e política, na verdade, são temas clássicos no pensamento político que constituiu a ideia de nação no Brasil.

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