Amazônia brasileira: o espaço de negligência nos trópicos. Por Joanderson Mesquita

O estado do Amazonas novamente entrou na pauta da mídia nacional, mas infelizmente não é por causa do espetáculo de folclore consagrado na terra dos parintintins.

A cidade de Manaus voltou à cena televisiva por conta do número de mortes causadas pela epidemia da covid-19, agora com um novo agravamento; pacientes morreram sufocados nos hospitais da capital manauara por causa da falta de oxigênio. 

Joanderson *

Curiosamente, dias antes dessa tragédia, Eduardo Pazzuelo – general de divisão do Exército brasileiro, atualmente ministro da Saúde do Brasil, “especialista” em logística – visitou Manaus, e produziu efeitos diametralmente opostos ao compromisso de auxiliar os órgãos de saúde da população local. Com ressalvas ao fatídico comportamento do governo estadual e municipal, entendamos o histórico de negligência e desprezo do governo nacional em relação à região Norte do Brasil:

Desde o processo de colonização, o Estado do Grão-Pará e Maranhão tinha características administrativas diferentes do restante do América portuguesa.

 

Por questões de logística, a Cidade Belém exerceu a autonomia de se relacionar diretamente com a metrópole portuguesa.  Entretanto, a partir de 1808, a autonomia do Grão Pará em negociar com a metrópole e a relação com o restante da América portuguesa foi mudando gradativamente.

A invasão das tropas de Napoleão ao Reino de Portugal forçou a fuga da corte portuguesa para Rio de Janeiro, capital do Estado do Brasil – outra unidade administrativa da América portuguesa.

Em 1823, o Estado do Grão-Pará recebeu a primeira “facada brasileira”. Através de um blefe militar, o Vale Amazônico foi “integrado ao Brasil” e  o Grão-Pará recebeu as primeiras intervenções do Império Nacional. Rupturas que deixaram marcas profundas; cicatrizes que rememoravam a intervenção do Império Nacional no Norte.  

Em 1835, a ferida inflamou e causou graves efeitos ao recém proclamado Império. A maior revolta popular foi iniciada na Província do Pará, espalhando-se pelos rios da Amazônia “como fogo em erva daninha”.

A revolta começou contra o “Malhado” – Governador Lobo de Souza – e as heranças da intervenção militar do Império, mas logo ganhou diversas pautas, transbordando os limites da Amazônia brasileira.

Todavia, como relacionar esse histórico com o que vem ocorrendo em Manaus?  Através do desprezo do poder nacional com as vidas da população amazônica!

 

Pesquisas apontam que 30 mil pessoas morreram nos conflitos da Cabanagem. Considerada uma das revoltas mais violentas do período regencial, as tropas imperiais não tiveram piedade com inocentes. De 1835 à 1840, mulheres, crianças e idosos foram vitimados pelas tropas imperiais. As balas disparadas na beira dos rios, tinham como alvo, qualquer ribeirinho.

Quase duzentos anos depois, passados golpes militares, passada a “redemocratização”, a Amazônia não sai da pauta do governo federal. O que era “vazio” na Era Vargas, foi golpeado na Ditadura Militar, e menosprezado por quem veio depois. Hidrelétricas, agronegócio, desmatamento, garimpos e assassinatos, os tempos mudaram, mas o rechaço do Estado criminoso tem longa duração. 

Como já dito anteriormente, centenas de amazonenses morreram pelo agravamento da covid-19 nos últimos dias, mas há outros elementos, trata-se de uma crise multifacetada.

Através de publicações, o filho do presidente da República e outros apoiadores comemoraram o fim das medidas de isolamento em Manaus, ao mesmo tempo mentiam afirmando que o STF proibiu o presidente de agir como tal. Para piorar, o Ministro da Saúde teimou em tentar vender remédios sem eficácia comprovada como cura para o vírus, somente para atender as sandices do presidente da República.

Com a falta de oxigênio e o aumento das mortes no Amazonas, o Governo Federal não decepcionou. Jair Messias Bolsonaro e o general trapalhão fizeram o que sempre fazem: se acovardaram, culpando os outros por suas responsabilidades.

 

Contudo, ao culpabilizarem os outros, acabam por reafirmar o desprezo do Estado pelo povo amazônico, outrora visto na Cabanagem, rememorados em outros episódios seja pela presença truculenta ou ausência demasiada.

A construção de hidrelétricas, desmatamento, Eldorado do Carajás, garimpos em terras indígenas, o apagão no Amapá e, por último, o pânico no Amazona são episódios que atestam que o governo nacional mata e despreza os povos amazônicos como se não fizéssemos parte da mesma nação.

A distância entre os povos amazônicos e o restante do Brasil é notória, vivemos desterrados em nossa própria terra.


— * Joanderson Mesquita é graduando em História na Ufopa e pesquisador de História da Amazônia.

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