No asfalto e na floresta o que vale é a união indígena. Por Iza Tapuia
Elton Tupinambá: perdido na floresta do rio Maró. Foto: Agência Pará

A vida nos impõem situações que desafiam nossas vãs filosofias. Na semana que passou fomos envolvidos em eventos que nos levaram a agir: o primeiro diz respeito a tentativa de ocupação da frente da sede do CITA, estamos há 5 anos no que agora é conhecido como “Ocupação Vista Alegre do Juá”, em Santarém (PA).

Iza Tapuia *

O terreno que ocupamos neste local é a sede do Conselho Indígena Tapajós Arapyuns – CITA, organização de representação política dos povos indígenas da região do Baixo Tapajós que moram nos municípios de Aveiro, Belterra e Santarém – um total de 8 mil indígenas, mais de 70 aldeias, em torno de 19 territórios e 13 povos – Arara Vermelha, Arapyun, Apiaka, Borari, Cara Preta, Munduruku, Maytapu, Jaraqui, Kumaruará, Tapuia, Tapajó, Tupaiu e Tupinambá.

Essa diversidade sócio, cultural e étnica na região é antiga, só neste século já se vão duas décadas de existência.

O outro fato importante foi o parente Elton Tupinambá ter se perdido na floresta do rio Maró. Esses dois fatos nos fizeram abandonar o isolamento e ir à luta. Os dois acontecimentos exigiram a união dos povos. Nós, em Santarém, na sede do CITA no Juá, e os parentes Borari, Arapyun, na Terra Indígena Maró. Todos irmanados por este sentimento de amor fraterno e responsabilidade coletiva que nutrimos dentro do movimento indígena do Baixo Tapajós.

 

Nestes eventos, mesmo sendo de luta, seguimos vítimas do preconceito, fruto da ignorância social sobre a nossa existência identitária.

Tanto no Juá como nas notícias sobre a busca ao Elton tivemos os grafismos nos corpos indígenas chamando de tatuagem, assim como nossos colares confundidos com elementos de rituais de outras matrizes religiosas, entre outros. Não nos ofendem e nem nos intimidam. Existimos, estamos e estaremos nesta terra que é o nosso território.

No caso do Elton, a faltou sensibilidade e amor fraterno, chegando a falarem que depois de 4 dias e 3 noites na floresta, o mesmo aparece “prosaicamente” à beira da estrada, como se ele tivesse dito ao companheiro, vou ali e volto daqui há 4 dias.

— LEIA também: MPF apura improbidade e omissão em invasão garimpeira em área indígena no Pará

A TI Maró, onde o Elton se perdeu, tem 34 mil hectares de floresta preservada, hoje é o maior abrigo de caça e território do maior felino da América do Sul, a onça pintada. Imagine-se perder ali e sobreviver. Só com a vontade de Tupã.

A floresta tem seus mistérios, claro, só os citadinos sem alma e sem convivência com o mundo da floresta, dos rios, dos encantados e dos seres protetores, com suas mães, desconhecem ou finge desconhecer este universo espiritual.

Nos dois casos, o CITA, com a união dos povos, saímos vitoriosos e somos gratos a todos que de maneira direta e indireta puderam nos ajudar, inclusive, até aqueles que pensaram em nos atrapalhar provamos que seguimos vivos, pois, somos sementes. SURARA!

— * Iza Tapuia é professora mestre em Antropologia e especialista em direitos humanos, direitos indígenas e cooperação internacional. Liderança Tapuia.


📹 Assine o canal do Blog do Jeso no Youtube, e assista a dezenas e dezenas de vídeos

Nota do editor: textos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais publicados no espaço "comentários" não refletem necessariamente o pensamento do Site Jeso Carneiro, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

2 Comentários em: No asfalto e na floresta o que vale é a união indígena. Por Iza Tapuia

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  • .riler disse:

    Concordo com vc, tive a oportunidade de trabalhar no plano de resgate dele na floresta, e a pergunta que ainda não me cala: Porque não estão sendo mais diria com a história do piloto que sumiu por 36 dias e voltou com uma aparência vistosa, como se estivesse de férias em um hotel de luxo…

    1. Jeso Carneiro disse:

      Percebe-se um viés de preconceito, de discriminação de uma parte da opinião pública, especialmente a branca e supremacista, a respeito do resgaste do piloto e do indígena muito claro. Bem lembrado, sargento!