No encontro das águas: a resistência e o legado dos pescadores do Tapajós

Publicado em por em Pará, Santarém

No encontro das águas: a resistência e o legado dos pescadores do Tapajós
Cláudio, pescador e baterista: pesca no encontro das águas. Fotos: JC

O dia começa antes mesmo da luz. Pontualmente às 05h, o silêncio na orla de Santarém (PA) é quebrado pelo som dos remos que cortam a superfície do rio Tapajós. Para os pescadores artesanais da cidade, a jornada inicia-se na captura estratégica das iscas: malhadeiras são posicionadas para garantir as sardinhas, combustível essencial para o desafio que virá a seguir.

A rotina impõe um enfrentamento diário com a imensidão geográfica da Amazônia. Diante da cidade, onde as águas azuis do Tapajós e as barrentas do Amazonas correm lado a lado sem se misturar, pequenas canoas tornam-se escritórios flutuantes. Ali, o pescador exerce a paciência, equilibrando-se ao sabor da maresia e do banzeiro provocado pelo tráfego fluvial.

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O expediente não tem horário fixo, mas é regido pela produtividade e pela resistência. Muitos permanecem ancorados até as 16h, suportando sol ou sereno da madrugada.

A logística exige preparo: marmitas garantem a alimentação, e o processamento do pescado — a evisceração — precisa ser feito ainda a bordo para evitar a deterioração do produto sob o calor intenso. É uma rotina exaustiva, que muitas vezes vara a noite e encontra o amanhecer seguinte, fundamental para garantir o sustento familiar através da venda nos mercados locais.

Entre o remo e a baqueta

A personificação dessa realidade é Claudinelson Simplício Gomes, o Cláudio. Aos 66 anos, ele acumula mais de três décadas de vivência no encontro das águas.

Aposentado pela Colônia de Pescadores Z-20, entidade representativa da classe na região, Cláudio carrega um perfil que transcende a imagem tradicional do ribeirinho: nas horas vagas, troca o remo pelas baquetas, atuando como baterista em conjuntos musicais de Santarém e adjacências.

A pesca na vida de Cláudio é herança direta de seu pai, Raimundo Coelho Gomes, falecido em 2009 aos 83 anos, que lhe transferiu o conhecimento empírico do rio. No entanto, a sucessão geracional da atividade enfrenta novos cenários: um dos filhos de Cláudio, que chegou a exercer a profissão, migrou para outras áreas em busca de novas oportunidades, um fenômeno comum na região.

Embora o ritmo de Cláudio hoje seja menos frenético do que em sua juventude, o laço com o rio Tapajós permanece inalterado.

Sempre que possível, ele prepara sua canoa e materiais, retornando às águas não apenas pela necessidade, mas para manter vivo o hábito do ofício que, entre desafios e conquistas, definiu sua trajetória.

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