As geografias do jumentismo. Por Joaquim Onésimo Barbosa

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As geografias do jumentismo. Por Joaquim Onésimo Barbosa

Nesses tempos de Jesuses trepados em goiabeiras, pirocas que se fazem mamadeiras – para alguns é, de fato, e olha que a propaganda pela abstinência vem aí – capitães amantes de cloroquina (isso lembra aquelas cenas de mutretagens amorosas das gentes do Império), muito do que aprendi nos ensinos fundamental e médio parece obsoleto.

Joaquim *

Confesso que tenho sido obrigado a voltar aos livros para rever o que estudei e ver se alguns pontos ainda se fazem os mesmos. A terra plana (vide Ernesto Araújo), o Nordeste e a Amazônia conjugam o Polo Norte (Pazuello), a Amazônia é, em sua vastidão devastada, Mata Atlântica (Fábio Faria, o genro do Sílvio Santos e marido da Patrícia que roda a roda). Essa é a última ratada.

Sem contar aquela animação da Regina Duarte pelo canto da ditatura. Imagina se houve. Era bom aquele tempo. Era, Regina, era…

Pois é… Pois é… como diz a eterna Chiquinha, a gente mal dorme, e quando acorda, vê que a Terra, que teima ser redonda, deu um giro estranho, ou foi engolida pelo buraco negro da nossa estupidez. O passa-boiada passa a perna não só na sinceridade que resiste aos coices da boiada como também nas geografias da vida.

 

Bom para boas risadas – ou espanto – dos nossos mestres e doutores geógrafos. Do mundo literário, a Casa Verde surge e parece ter voltado a funcionar. Os Bacamartes dão suas horas.

Dos quintais da Geografia, que diria o célebre Milton Santos? Que pensa sobre essas paradas a minha queridíssima doutora Rosa Ester Rossini?

Pelo visto, o astrólogo Olavo de Carvalho não só inova nas deturpações filosóficas – as teses dele podem ser derrubadas por qualquer filósofo que se queira sério – como também dá corda aos anticientistas para desacreditarem aquilo que a ciência, muitas vezes em sua intransigência epistemológica, custa creditar.

Bruno Latour bem disse que só pode falar da Ciência de verdade, com autoridade, quem a vive – ou pelo menos passa por perto das portas dos laboratórios. A ciência se constrói no laboratório, lembra Latour. Embora haja tantos mexeriqueiros dando pitaco onde não devem.

Os doutores no desejo e na vontade, que querem pular a janela sem precisar passar pelo crivo dos cientistas arguidores, estão por aí dando pernadas no Lattes.


“Se detestam Marx e Paulo Freire, ao menos poderiam folhear os escritos do Mises, ou olhar os livros do Villa e Pondé”


E daí? Se a bíblia pode dar título a mestres sem qualquer custo, a ciência tem lá suas exigências. Ela não torna mestres e doutores os que leem alguns versículos bíblicos e creem que a jumenta de Balaão é menos inteligente que a manada de outros tantos por aí. Pelo menos ela, a jumenta, tentou alertar um maluvido sobre o perigo da espada; os de então nem isso fazem. Preferem a vergonha alheia, os receituários da cloroquina, a podridão da goiaba.

A propósito, parece-me, o espírito das bandas de Moabe tem habitado esse o povo que vive lambendo tudo por vingança e, de quebra, levantando altares aos seus ídolos, sob as bênçãos e unções (ou um são, ou todos são) dos Balaques terrivelmente evangélicos do narcopentecolismo líquido-moderno. Ô glórias…

A tirada do ministro das Comunicações, de que 87% da Amazônia é Mata Atlântica, é mais uma das muitas que já vimos e das que ouviremos. Não me cabe crer que é ignorância, pois os donos das pérolas são gentes que carregam filosofias de direita, leem os livros indicados por Olavo, frequentam os seminários do astrólogo e vieram de escolas de direita – fossem ao menos discípulos de professores comunistas como fui…

 

Se detestam Marx e Paulo Freire, ao menos poderiam folhear os escritos do Mises, ou olhar os livros do Villa e do Pondé – eles são de direita, detestam a esquerda asquerosa e burra. Mas nem isso fazem.

Diferentes da jumenta de Balaão, preferem as pernadas do astrólogo e o estrangulamento da geografia, esta que agoniza em acidentes geográficos da boiada na terra onde onde juízes se apaixonam por mitos à primeira vista. Êh, ô… ô… vida de gado… ops, de jumentos!


— * Joaquim Onésimo F. Barbosa é professor. Doutor em Sociedade e Cultura na Amazônia.

LEIA também de Joaquim Barbosa: Foi assim… Cem anos de Ruy Barata.


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One Response to As geografias do jumentismo. Por Joaquim Onésimo Barbosa

  • nunca espere que o enviados de deus sigam tal qual todo mundo. Se quem foi isso tivesse dado ouvido aos médicos, lázaro , por exemplo, teria morrido antes de morrer de fato. Se não queres seguir na cloroquinismo, o problema é seu, mas respeita que quem foi eleito tem que fazer o que votou nesse quer e o que não votou, perdeu, fique calado

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