Na coluna Painel, da Folha de S. Paulo, hoje:
A FNP (Frente Nacional dos Prefeitos) entregou ontem a Dilma Rousseff e ao ministro Alexandre Padilha (Saúde) lista de sete reivindicações dos municípios para combater a falta de médicos na rede pública.
Entre as sugestões está a contratação de profissionais formados em outros países.
A entidade diz que há a necessidade de 2 a 2,5 médicos por grupos de mil habitantes no Brasil -hoje, essa relação é de 1,8.
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NOTA À IMPRENSA, EM NOME DE 60.864 MÉDICOS(AS) BRASILEIROS:
“O CAOS NA SAÚDE PÚBLICA NÃO É CULPA NOSSA”.
Desde uma profissional de enfermagem que injeta café na veia até um hospital que não tem papel higiênico, tudo no Brasil de hoje transformou-se em “erro médico”. Por falta de uma explicação mais profunda e atuante por parte das “entidades médicas oficiais”, viemos, como representantes de milhares de médicos brasileiros, por meio deste documento, abordar o que realmente vem ocorrendo na saúde pública.
a Em primeiro lugar, o médico vem sendo “expulso”, paulatinamente, dos serviços públicos de saúde ( isto quem diz não somos nós, são os dados estatísticas do IBGE).
b Com salários baixos, precarização trabalhista, condições degeneradas de trabalho ( p.ex., falta de leitos hospitalares, laboratórios, sistemas de maior complexidade hospitalar para referenciar casos graves, sistemas de menor complexidade hospitalar para contra-referenciar no pós-alta, falta de especialistas, etc ) , os médicos evadem-se progressivamente rumo à saúde suplementar ou particular.
c Muitos dos que restam optam por aquela política nefasta, que, aliás, condenamos, do : “vocês fingem que nos pagam e nós fingimos que trabalhamos”. Como médicos, repudiamos que qualquer colega assuma um trabalho nestas condições, e com este espírito.
d E estes não são os melhores representantes da categoria médica, tanto é que, justamente por estarem eticamente errados, nunca vêm a público expor as reais causas das mazelas pelas quais passa a saúde pública. Deixam as críticas pipocarem, como se, a todo momento, a “carapuça servisse” a todo médico e médica brasileiro. Passa-se a ideia de que é “isso mesmo”, “ele é culpado mesmo”, justamente pela precarização de sua defesa e covardia de sua evasiva. E é disto que fazemos mais abaixo.
e O que não podemos aceitar, enquanto médicos(as) do Brasil, é que um exemplo estereotipado deste mal profissional, visto aí acima, no item “c”, seja superficialmente erigido como “a causa do desmantelamento da saúde pública”, como convencionou-se repercutir na mídia, renitentemente, Brasil afora. As causas, como se pode ver abaixo, na verdade, são muito mais complexas, e muito mais graves do que se possa imaginar, jamais podendo ser imputadas a um único profissional, no caso, o médico. Isto é, tenta-se, simplificadamente, colocar a “culpa de tudo que ocorre na saúde sobre o ombro dos médicos”, a partir da interpretação grosseira de que “tudo decorre do desserviço destes profissionais de nível “c” , ou seja, dos profissionais especificados no item “c” aí acima”. E, justamente por acreditarmos que tais descalabros não sejam “culpa exclusiva do médico” é que, nós, como médicos que nos julgamos além do “nível c”, primando pela ética e interessados na saúde coletiva, viemos a público esclarecer.
f Os governos, por seu lado, encontram-se paralisados por graves impasses :
1 na medida em que o médico foi saindo ou descompromissando-se com o serviço público, profissionais de saúde não-médicos foram assumindo sua posição, seja em cargos de chefia, seja em atuações em que assumem, temerariamente, a função de médico para si. Nestas circunstâncias, tais gestores alçados à posição de mando, não mais aceitam uma postura técnica, salarial ou hierárquica diferenciada do profissional médico. Querendo igualá-lo a ferro , a todo profissional de saúde, obstaculiza-se a necessária chefia de equipes, até do ponto de vista técnico. É como se, no serviço público de hoje, estivéssemos a todo tempo solicitando que a copeira do avião assumisse o lugar do piloto.
2 Em decorrência do que ocorre no item “1”, isto é, falta de condições técnicas e administrativas para o exercício adequado da medicina, mais colegas debandam, agora não só por causa dos salários, mas pela precarização técnica, hierárquica e gerencial dentro do sistema ( uma construtora onde o engenheiro não pode gerir, um tribunal onde um juiz não pode julgar, um avião onde um comandante não pode pilotar, estão todos fadados à catástrofe ).É bom deixar-se claro que, o médico, tecnicamente, hierarquicamente, não é melhor do que ninguém, não é maior do que ninguém. É apenas diferente, como diferentes são todas as atribuições profissionais ( se assim não fosse não haveriam profissões e competências diferentes, umas das outras ). E, sem estas diferenças, sobretudo em uma área crítica, emergencial e científica, como a Medicina, não é possível trabalhar de modo adequado.
3 Ainda, em decorrência do item “1”, os governos estão face-a-face com um caos gerencial incontornável : além dos problemas inerentes à já combalida gestão pública de qualquer órgão (“cabides-de-empregos,” “político-cracia” ao invés de “meritocracia”, “contra-cheque igual para todo mundo, ao fim do mês, trabalhe-se ou não”, “o que é público não é de ninguém”, etc), os governos têm de lidar com uma situação onde não pode mais alçar o médico a uma condição favorável, seja ela salarial, técnica, ou hierárquica. Tudo isto, hoje, “desagrada” os setores não-médicos, muitos deles antimédicos, fortemente e irremediavelmente instalados na máquina administrativa pública. Então, sem poder dar a aeronave ao comandante, não há como alçar voo. Ou então, se o faz temerosamente, gerando-se os descalabros do “voo cego, dirigido por instrumentos”, que aí assistimos.
4 Os governos, então, estão atônitos com esta caoticidade do sistema de saúde, sobretudo num momento em que a mídia mais capilarizada e virulenta, a escolaridade crescente da população, o avanço tecnológico da Medicina, o aperfeiçoamento institucional do Ministério Público e Judiciário exigem respostas efetivas e complexas.
5 De modo geral, os governos não têm demonstrado uma saída para esta situação, a não ser deixarem as tragédias acontecerem e, se possível, imputarem a causa a terceiros, aqui, no caso, ao “comandante alegadamente ausente”, seja física, seja técnica, seja humanisticamente. Nos ejetam e depois “cobram” a nossa ausência. É insuportável. É assim que, sorrateiramente, as administrações públicas nos têm transformado, sobretudo junto à mídia, nos “carrascos do povo”. Por exemplo, a maioria esmagadora dos casos de “faltou médico” são transformados em “o médico faltou”.
6 Alguns governantes, municipais, estaduais, inclusive o governo federal, têm encontrado uma “fórmula paliativa” : contratarem médicos por “fora do sistema público”, seja via CLT, seja via Organizações Sociais, Fundações, etc. No entanto, em muitos casos, tais medidas não têm sido efetivas, na medida em que o arcabouço administrativo em que tais médicos tercerizados trabalham continua contaminado por todos os vícios da “in-administração pública” : por exemplo, chefias hostis, inaptas, antimédicas, politiqueiras, gerencialmente descompromissadas e, portanto , incompetentes, que, a todo momento, continuam a lançar o médico às chamas, como o algoz do disfuncionamento do sistema.
Por Marcelo Caixeta (assinado em baixo por 60.864 membros médicos do grupo Dignidade Médica).
Jeso, sinceramente, como profissional médico que sente na pele o exercicio da medicina no Oeste do Pará, vejo que existem SIM 07 itens FUNDAMENTAIS para combater a falta de médicos na nossa região:
1) Valorização do Médico de Família e Comunidade. Essa especialidade médica reconhecida pelo CFM/AMB é visto hoje com pouquissimo interesse pelos estudantes de medicina, já que a remuneração é PÉSSIMA e qualquer recém formado que esta esperando passar na residência pode ” exercer ” essa área.
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2) Estruturar as equipes de ESF e as unidades Basícas de Saúde. Nenhum médico quer trabalhar em um lugar que falte medicamentos, exames e uma equipe multiprofissional comprometida com a atenção primaria em saúde
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3) Remunerar justamente não somente os médicos, mas sim, os Enfemeiros, Técnicos, ACSs e demas profissões. Não existe interiorização sem um salário justo e atrativo. Se é pra ganhar “X” em Belém, porque vou ganhar os mesmo “X” em Faró?
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4) Criar um plano de Carreira semelheantes aos Juízes para os Médicos. Incentivar a interiorização com subsídios e atrativos futuros, que permita o médico seguir trajetória naquela região.
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5) Oferecer capacitação e atualização gratuita aos médicos e profissionais interiorizados, obrigando eles a irem nos congressos, estudar por livros e protoclos , fazerem reciclagens e etc. É muito comum ver colegas com somente a Graduação e trabalhando a anos sem uma minima atualização.
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6) Precisamos ter um sistema de regulação em Saúde mais eficiente, permitindo uma integralidade das referências especializadas, com agilidade nos emcaminhamentos. Nenhum médico quer trabalhar em uma rede onde o encaminhamento pro Oftalmologista demore 06 meses.
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7) Colocar na cabeça de alguns gestores que médico não é igual ao Sal de cozinha, ou seja…Branco, Barato e se encontra em qualquer esquina. Médico é uma profissão de altissima responsabilidade, que precisa ter acesso a recursos minimos para realizar um trabalho digno e de qualidade. Sem esses recursos, o profissional médico jamais vai sair dos priviegios de sua capital, deixando o o Oeste do Pará cada vez mais esquecido , isolado e doente.
Muitoooo beeeemmm!
O primordial seria qualificar Médicos recém formados, melhorando o ensino nas faculdades e cursos de pós graduação ,por exemplo, residências médicas que gerem Médicos razoàvelmente preparados para exercerem suas funções.Uma política de carreira, a exemplo da instituída a Juízes e Promotores, seria profícua e solucionaria ,parcialmente, a escassez de profissionais de saúde no interior de saúde.Importar Médicos estrangeiros é conversa de político desprovido de propósitos em resolver os desmandos com a saúde pública do Brasil.Alguns Médicos estrangeiros que conheço, deixam muito a desejar.Não concebo generalização .Outro ponto importante: deverão revalidar seus diplomas,o CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA tem normas severas,apesar de alguns conseguirem confirmar suas inscrições.Paguem-se bem e dê-lhes condições de trabalho que os Médicos preparados virão trabalhar no interior.Nas grandes cidades, os Hospitais Públicos aparecem todos os dias jogados ao chão e em macas pelos corredores, os governos têm plena responsabilidade pelos descasos com a saúde, tentam desfocar a má administração imputando-a a falta de Médicos no Brasil.
Formados em outros países? Não basta o caos em que a saúde pública do Brasil já se encontra?
Idéias políticas com fins políticos . Quem entende deste assunto sabe do absurdo desta proposta. É só lembrar o baixíssimo índice de aprovação nas provas de valodação de diploma que médicos formados fora do país realizam. Existem diferenças brutais na formação . Hoje o Brasil é referencia em varias áreas do conhecimento médico. Essa idéia é boa para políticos que nao querem pagar salários dignos para médicos e outros profissionais. CFM está de prontidão .
No caso, o problema não é a formação, é somente os médicos. O que é digno ou indigno depende dos valores de cada um. O Hospital Albert Einstein e outras da rede privada de São paulo tem uma maneira bem atípica de tratar os médicos, que é simplesmente tratá-los como funcionários ou prestadores de serviços. Tirando isso, chegando atrasado ou prestando serviços de má qualidade são simplesmente demitidos.
Como em toda profissão, os bons são premiados e os ruins penam. Médico não é Deus, a maioria nem mesmo acredita nele. A saída é darmos salários dignos (disse dignos, não milionários) e boas condições de trabalhos, bem como o acompanhamento de eventuais abusos tanto de gestores públicos como de médicos.
Se o médico ver que não existe salário digno e boas condições de trabalho não adianta aceitar o cargo e fingir que trabalha (o que acontece na maioria das vezes). Outra coisa, há a necessidade de estabelecer um regramento nos bicos para própria proteção da saúde dos profissionais, pois há casos de médicos que prestam serviços de 24 horas em plantões. Até médicos necessitam de saúde, eles não são highlanders.
Será uma ótima solução! Não só formados em outros países, mas de outros países.
Chico Corrêa