Fora Cargill, saúva gigante; vídeo. Por Paulo Cidmil

Publicado em por em Amazônia, Negócios, Opinião, Santarém

Fora Cargill, essa saúva gigante. Por Paulo Cidmil

Assisti à fúria do agro sendo vomitada em uma matéria de 4min 13s no Jornal da Band, nesta segunda-feira (23), logo após a revogação do decreto 12.600. A Band é a emissora porta-voz e defensora dos interesses do agronegócio entre as TVs abertas. A reação imediata e o nível de ódio que tentam estimular contra os povos indígenas denunciam que não vão desistir.

Matéria vil, covarde, de uma desonestidade tão grande com os fatos — fatos que o jornalismo da emissora não cobriu; só gente muito canalha para produzir. Passaram para a população que o governo cedeu a vândalos, quando havia uma ocupação com mais de mil pessoas e quase duzentas crianças em atividade política e cultural permanente.

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A desonestidade já era visível na nota da Cargill à imprensa sobre a ocupação dos povos indígenas no território da Vera Paz. Ela é de um cinismo canalha; é a tentativa de se vitimizar diante da população nacional. Digo nacional porque, no mesmo dia, o “AgroPop” foi acionado no Jornal Nacional.

Dizer que “vem reiterando seu respeito direto à manifestação, a despeito da não ingerência sobre a pauta apresentada” é cinismo de nível gângster. No Tapajós, a Cargill é a pauta. Ela oferece a logística: o transporte, o porto, o adubo, os pesticidas, a assessoria de gestão, o financiamento — provavelmente com dinheiro do Plano Safra, dinheiro nosso. E exporta. Agora queria o controle do rio Tapajós. O decreto era uma imposição dos tubarões do agro, com a Cargill à frente.

O Jornal Nacional de sábado, 21/02, trouxe uma extensa matéria sobre a safra recorde de soja. Falaram da importância para a economia nacional, alegando que o farelo da soja na ração animal barateia o custo da produção e, consequentemente, reduz o preço da carne que chega à mesa da população. Mentem. Se houver demanda, toda a carne é exportada, como ocorre com o café, que dobrou de preço.

Vimos momentos tocantes do agro, o “motor” da economia nacional. O primeiro nos mostra um jovem produtor em sua mecanizada plantação; ele teve que recorrer aos primos e outros parentes para conseguir colher a tempo a boa safra. O segundo, um senhorzinho feliz com a colheita, dizendo que, se o preço estiver bom, vai dar para comprar “umas coisinhas”.

Matéria carimbada e bem remunerada. Não foram o senhorzinho nem o jovem produtor que chamaram a atenção do Jornal Nacional; é o “AgroPop” em ação. Cargill, Bunge, JBS, Marfrig, BRF, Cofco, Louis Dreyfus, Suzano, Amaggi, Minerva e Gavilon são alguns dos tubarões.

Leia também de Paulo Cidmil: O sojinocídio do bioma amazônico tapajowara.

No mesmo dia, iniciou-se uma avalanche de matérias sobre a gloriosa safra. O agro como a salvação da economia nacional: Record, SBT, Band, canais do meio rural e milhares de rádios pelo país tocando sertanejo e enaltecendo o agro que “alimenta o Brasil”.

Enquanto isso, a soja engole o Pantanal, o Cerrado e o pequeno agricultor que produz comida, como fez no planalto santareno. A ação midiática do “AgroPop” indica que sentiram o golpe; está relacionada com o que ocorreu no Tapajós e em São Paulo. O objetivo é a manipulação da opinião pública.

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Não é um boletim informativo nem agenda cultural: é método. Desde o assassinato de Dorothy Stang — que provocou clamor internacional e expôs o agro no olho do furacão —, os tubarões do agronegócio se organizaram como grupo e decidiram contar uma história.

Pregam que existem “dois agros”: o mal, que comete crimes, e o “responsável”, que observa as leis, produz dentro das regras e é o motor da economia nacional. Uma falácia repetida há anos, envolta em papel de presente com o nome de “AgroPop”.

Esse setor agroindustrial transnacional quer que você o confunda com o médio e pequeno produtor de alimentos, enquanto eles estão concentrados em soja, milho, etanol, açúcar, algodão e carnes (bovina, suína e de frango), exportados in natura para agregar valor fora do país.

Sugam o país recebendo subsídios absurdos, financiados a juros com os quais nenhum brasileiro pode sonhar; têm incentivos para exportação, contam com enormes investimentos do Estado para beneficiar sua logística e com o perdão de dívidas quando ocorrem problemas climáticos. Em troca, brindam-nos com transgênicos, agrotóxicos, desmatamento e destruição de biomas.

Desenvolveram um método de captura do Estado que alguns estudiosos denominaram “agroestratégias”. Passaram a financiar campanhas políticas de pessoas do setor com o objetivo de impor sua pauta e mudar o regramento ambiental nos municípios, nos estados da Federação e no âmbito federal.

Constituíram bancadas e elegeram governos em todos os estados por onde se expandiram as frentes agrícolas. Ajudaram a dar o golpe em Dilma, deram sustentação a Temer e surfaram com Bolsonaro. Com uma enorme bancada no Congresso Nacional, conseguiram, em 2025, mudar a lei federal de proteção ambiental. E, por fim, parecia que haviam capturado o Lula.

Após a degradação do Cerrado, o devorador de florestas avançou sobre a Amazônia. Garimpeiros, madeireiros, grileiros e a pastagem colaboram para degradar áreas, especialmente as planas, abrindo terreno para a entrada da soja. É como uma bactéria nociva ao bioma, trazendo seus pesticidas.

Agora querem nossos rios. Confundem os rios amazônicos com rios extremamente degradados por dejetos industriais, com baixo potencial turístico e quase sem peixes, tornados hidrovias recentemente — como os rios Tietê, Paraguai e Paraná.

Mesmo assim, houve resistência, como as ocorrida no Pantanal, entre Cáceres (MT) e Corumbá (MS), em trechos do Rio Paraguai onde a hidrovia invade o que resta do bioma pantaneiro. São fortes denúncias contra a privatização e as dragagens.

Mas há algo pior. Na hidrovia em plena operação, no trecho do Rio Paraná em território argentino, em dois documentários produzidos por ambientalistas e pela TV independente da Argentina, é possível ver o nível de degradação do rio. Apesar do idioma, podemos compreender os problemas enfrentados pela população. O concessionário determina até o horário para a pesca; pescadores denunciam que, após as dragagens, não há mais peixes.

Há anos, pesquisadores, cientistas e estudiosos do clima alertam e denunciam que a monocultura extensiva da soja é incompatível com o bioma amazônico e que seu avanço promove o desmatamento da floresta. O decreto 12.600 nos alertou: essa saúva gigante, devoradora de florestas, quer avançar.

É hora de voltarem pelo caminho por onde vieram. Levem sua carga de soja para a hidrovia Paraguai-Paraná, onde vocês mandam e desmandam, onde a maioria da população os apoiou e agora prova do veneno: nem emprego, nem rio.

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Ou desçam com suas barcaças até o Porto de Belém. Assim, Helder Barbalho e sua “famiglia”, junto aos políticos do estado vizinho, saberão o que se passou aqui. Eles fingiram-se de mortos durante 33 dias.

As verdadeiras commodities agrícolas da Amazônia são a mandioca e o cacau. Há um projeto pronto para produção em escala industrial, desenvolvido pelas universidades UFPA e UFRA, que transforma casca, folhas e caule da mandioca em ração animal, com produto final testado e comercializado.

Da massa fazemos farinha para exportar, goma para tapioca e tucupi para o tacacá.


⚀ Paulo Cidmil (*) é diretor de produção artística e ativista cultural. Santareno, escreve regularmente no portal JC. Ele está no YouTube e no Instagram. Siga-o nessas plataformas! Leia também deleApós a vitória envergonhada, Zé enfrenta a hidra de 7 cabeças. E ainda: Protagonismo amazônida.

∎ Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião do JC. A publicação deles obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros, prioritariamente, e de refletir as diversas tendências do pensamentos.

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