Poetas amazônicos. Violentada

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Pequeno discurso à Santarém violentada

Dá pena ver
O azul e o branco avermelhados
A ornamentarem tristes
O teu dorso mutilado
E a doce maiêutica
Dos teus encantos
Pouco a pouco fenecida
Na gravidez dos versos
Das canções

Da pena ver
Os teus filhos e amantes
Te venderem
E de braços agulhados
Olhares cuiú-cuiuescos
Alacidarem oportunistas
E bandidos
Que saem das telas
Dos vesperais do Olímpia
Para jogarem
Ao som dos Hipies
No Salão Recreativo

Da pena ver
A fulucagem politica
Os taratatás desprotegidos
Enquanto as Tinicas libanezam
Pela Avenida Tapajós
A procura dos Nilçons

Da pena ver
A justiça com a venda
Transparente nos olhos
Caída junta a sua espada de vime
E nenhum Celio Cal
Para soerguê-la
Levantá-la

Da pena ver
O teu povo pobre
Miseravelmente comprimido
Nessas favelas urbanas
Sem casa sem água sem luz
Ainda prestigiar seus algozes
É companheiros
Terra água gente
Absolutamente indefesos
A suportar resignados
Os dejetos de mandatários
Desonestos. Da pena ver!

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De Edwaldo Pangaré Campos, poeta amazônico nascido em Alenquer e naturalizado santareno. Morreu há exatos 17 dias.

Leia também dele:
Vida passante.
Amor-paixão.
Ângela.
Morte de Joana.
Galanteio noturno em bar de praia.
Teu andar.
Lábios.
Cantigas de ninar para noite dormir.
Se por acaso.
Dormindo no cajueiro.


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One Response to Poetas amazônicos. Violentada

  • Todas as vezes que li um poema de Edwaldo, além do fato de reconhecer de imediato um extraordinário poeta de nossa terra, vinha-me o desejo de conhecé-lo pessoalmente. Em um dos raros momentos em que estive na Garapeira Ypiranga, uma tarde de sábado, quando alguns músicos e nostalgicos reunem-se para cantar canções de outrora, sentei na mesma mesa onde já estava o poeta. Fui apresentado a uma dezena de pessoas, na vez de ser apresentado a Edwaldo, meu irmão Guilherme Taré já preparava uma introdução para me informar e externar a importância do poeta Edwaldo. Iniciou: Paulo tu conheces….. eu interrompi e disse: conheço sim, é o poeta, leio seus poemas no Blog do Jeso, muito bons, gosto muito. ele murmurou algo como… é… o Jeso… trocamos um aperto de mão. Ele retomou a sua Cerveja e a conversa com a pessoa a seu lado, eu fiz o mesmo, pois conversava com o amigo Ray Brito e outras pessoas.
    O Edwaldo que conheci parecia atento e observador, escutava mais que falava e tinha um semblante entediado. Pensei, teremos outras oportunidades para falar de tudo, ou seja: poesia.
    Nem percebi se eu que fui antes ou se ele não estava mas lá, o fato é que nunca mais tive outra oportunidade para conversar com o poeta.
    Agora, lendo esse angustiante texto sobre a nossa querida cidade tão mutilada e saqueada como afirma o poema, sinto um aperto de perda, da falta que faz uma pena indignada, cheia de generosidade e sentimento solidário para com o seu povo. Menos um.
    Em uma terra onde os que poderiam falar se locupletam na gula pelo poder. São os boca mole dissimulados, comendo ávidos o que seria de todos, e que, em um acesso de cinismo, discursam em defesa dos direitos dos animais. Nunca serão vistos na sociedade protetora dos animais retirando um animalzinho para cuidar. Filhos da Puta!

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