O causídico e o vira-lata

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por Célio Simões (*)

Célio Simões - Blog do JesoO jovem estudava num dos melhores colégios de Belém, o Marista Nossa Senhora de Nazaré, homenagem à Padroeira dos paraenses.

Vida mansa e confortável, morava num casarão de muitos quartos e um vasto quintal, onde vicejavam jambeiros, mamoeiros, castanholeiras, limoeiros, fruta do conde, à sombra dos quais ciscavam as criações miúdas e um galo velho que funcionava como despertador, fazendo-o pular da cama bem cedo para enfrentar a sala de aula.

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Ganhou medalhas nas disputas esportivas, usava roupas de primeira qualidade, dentição perfeita, mas proeminente corrigida com os caros aparelhos da sua dentista particular, era bonito, simpático, benquisto pelos colegas, tinha jogos eletrônicos, bicicleta (presente do velho Noel num dia de Natal) e uma frustração que colocava em seu olhar um “quê” de indisfarçável tristeza, só amenizada quando ia à feira livre com seus pais, no sábado, fazer as compras da semana.

Cão

Enquanto “os velhos” ficavam atentos à gritaria dos feirantes, barganhando preços e escolhendo num repetitivo ritual as frutas da época, ele não desgrudava a atenção da figura patética e esquálida do “Tinga”, um cão sem dono e olhar pidão que vagava entre as barracas à cata de algum alimento, costumeiramente escorraçado com violência, para não perturbar os fregueses.

Mesmo com os titubeios da primeira infância aquela cena o incomodava. Não entendia qual o crime de um cachorro faminto transitar pelos corredores da feira em busca de alimento para saciar a fome. Esta era permanente e visível, a contar pela exagerada magreza, a fealdade dos pelos, as orelhas caídas, o olhar sem viço e as costelas à mostra sob a pele crestada de maltrato. Sua revolta de criança transmudou-se na secreta promessa, de si para consigo: um dia teria seu próprio cão e ele seria belo, bem alimentado, viçoso, inteligente e esbanjando saúde.

Nas viagens que fez de férias pelas estradas nordestinas com os pais e irmãos, observou o mesmo quadro desolador no entorno dos restaurantes e feiras de artesanato de São Luís, Sobral, Fortaleza, Juazeiro, Petrolina, Natal e Salvador. Lá como aqui, o mesmo tratamento hostil contra aqueles seres indefesos, tratados a pontapé.

Num gesto de reação automática contra aquela dura realidade, passou a oferecer furtivamente migalhas de suas próprias refeições àqueles deserdados da sorte, que pareciam ter com ele instintiva inteiração, pois nunca o atacaram.

Daí a escolher seu próprio cachorro de estimação foi um pulo. Numa só barrigada nasceram mais de cinco da cadela de um vizinho. Passou a mão no que parecia mais frágil e levou, depois de desmamado e vacinado. Ficou feliz com a aquisição e convenceu os pais a criá-lo em casa, treinando-o como cão de guarda ou de companhia.

E aquele ser frágil e cambaleante foi crescendo, acostumando-se com a família, com os empregados, era extremamente bem cuidado, com ficha de vacinação, carteira de identidade e CPF na clínica do Dr. Diniz, onde foi registrado como “PINGO” (inadvertida homenagem ao Tinga da feira) e viajava de carro para Salinas no mês de julho, onde se comportava como turista. Na praia do Atalaia, ficava escornado embaixo da barraca porque se recusava a pegar sol. E não tomava banho, pois tremia de medo da arrebentação.

Nesse meio tempo, seu jovem dono foi em frente, venceu todas as etapas nos estudos, enfrentou o vestibular, foi aprovado e cursou humanidades, tornando-se brilhante advogado, especializando-se depois em Direito Ambiental em São Paulo. Só que a vida prega peça a seus próprios atores e bem cedo o superprotegido cão deu mostras de não corresponder a todas as expectativas que dele se esperava.

Indisciplinado, urinava pela casa toda, era mais esquelético que os vira-latas da feira, pois não gostava de comer a não ser frango de supermercado (que luxo!); de índole sonolenta, cochilava durante o dia e ferrava no sono à noite, somente demonstrando esperteza quando alguma cadela entrava no cio.

Com a mudança da família para um apartamento no centro de Belém, acabou a folga. Proibida pelo síndico a permanência de animais de grande porte no prédio, o trasgo foi morar como hóspede em uma casa que acolhia cães sem dono em Ananindeua, cidade vizinha, para a qual a EMATER fornecia cem quilos de ração mensalmente, pois a dona era pobre e não tinha como alimentar a matilha.

Na citada casa, cujo quintal parecia não ter fim, Pingo viveu anos em união estável com uma cadelinha charmosa, que passeava toda faceira entre os invejosos de sua beleza, só para fazer inveja. E ninguém se atrevia a cortejá-la, pois o “Exterminador do Futuro”, mesmo com seu físico de “Louva a Deus”, partia para cima do atrevido disposto ao duelo de dentes e unhas até a morte.

Seu dono, já advogado, o visitava periodicamente. As despesas em seu orçamento eram acentuadas. A cada vez, levava uma cesta básica para a anfitriã e outra para o Pingo, só de produtos de primeira qualidade. A dona da casa agradecia comovida; ele fazia que nem conhecia mais seu benfeitor. Este e seu irmão bancaram uma cara cirurgia para livrá-lo de uma broca no ouvido, a partir do que passou a usar uma prótese em torno da cabeça, chegando nessa época ao apogeu da feiura. Parecia o cão chupando manga.

Em sua vida útil, brigou e apanhou todas as vezes que fugiu de casa, e não foram poucas. Como via de regra acontece, a senilidade impôs-lhe a cegueira, o imobilismo, a impossibilidade de comer e beber água, tal qual acontece com os humanos quando são esmagados pelo peso dos anos. Até que um dia veio a notícia desalentadora que morrera dormindo (de que jeito ia morrer quem dormiu a vida toda?…) e fora enterrado pela caridosa senhora num terreno baldio próximo à sua casa.

Se serve de alento, esse cão sem pedigree ou raça definida, indisciplinado, preguiçoso, indolente, mijão e exigente nunca mordeu um ser humano, mesmo quando provocado pelos que o instigavam. Era amado pela família. Feio e bonito são conceitos subjetivos. Vai muito da impressão espiritual de cada um. Findou-se aos 16 anos, fato considerado extraordinário para os de sua espécie. E o menino que antes abominava o maltrato aos animais tornou-se militante dessa nobre causa.

Atualmente um conceituado causídico, de grande versatilidade nos segredos do Direito Ambiental, já casado com jovem advogada também ambientalista, exibe ele na parede de seu aprazível apartamento no 21.º andar de um prédio nesta ensolarada Belém, a imagem da beleza plástica de outrora, em que o Pingo, no esplendor da vida de garanhão, foi fotografado com olhar soberbo e pose de Husky Siberiano entre os lençóis de linho da cama seu dono, como se estivesse posando para um concurso de beleza entre as raças mais puras do planeta.

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* Advogado, é membro da Academia Paraense de Jornalismo. Escreve regularmente neste blog.


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Advogado e escritor, nasceu em Óbidos. É membro da Academia Paraense de Letras Jurídicas e do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Reside em Belém e escreve regularmente neste blog.

4 Responses to O causídico e o vira-lata

  • Linda história! Quem nunca teve um cão de estimação talvez acredite que este é um simples relato, mas para os que amam e cuidam de seus animais como um membro da família a história lhes parece um pouco do retrato de suas vidas.

    Parabéns Dr Célio Simões.

  • E com toda a peraltice que lhe era peculiar, nosso Pingo deixa saudades até hoje.
    Beijos Pai e muito obrigado pela lembrança do nosso “Lobo”.

  • Caro Jeso,

    As lavras do dr. Célio Simões são jóias literárias inestimáveis.
    Sempre as aprecio, quando em visita ao seu blog, cuja linguagem consegue prender a atenção, mesmo em manhãs turbulentos, pois sempre as leio pela manhã.
    Faço votos que continue este escritor sempre a postar seus contos em seu blog, pois é sempre prazeroso a leitura das obras de sua autoria.

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