A sessentona charmosa

Publicado em por em Artigos, Memória

por Célio Simões (*)

Quem a vê hoje administrando com eficiência seu afamado buffet ou integrando o staff que fez ressurgir a Assembléia Recreativa Pauxis, o melhor clube social da “Cidade Presépio”, nem imagina que foi ela que me ensinou a matar surucucu! Mas foi.

Aliás, posso dizer que a Sinira fez parte da minha infância e adolescência como muitas coisas boas também fizeram.

Nosso invariável ponto de encontro a cada férias de julho ou janeiro, era o entorno da casa-sede da Fazenda “Capela”, situada no mais alto trecho de várzea existente na Costa Fronteira de Óbidos ou, melhor ainda, o descampado infinito que se descortinava para além da barraca do retiro “Pau Mulato”, só alcançável a cada abençoado verão após mais de duas horas de caminhada, seguindo o curso do Igarapé da Fartura.

O que tinha de mágico naquele mundo tão inóspito e ao mesmo tempo de tão grande encanto, transbordante de verde, para meus olhos de menino?

Num primeiro diagnóstico posso dizer que variavam os comportamentos em relação ao meio em que eu estava; analisando melhor, sou capaz de afirmar que aquela turma que comigo “fazia perna” não era disponível em casa, uma família só de mulheres: duas mais velhas (Elba/Edna), duas mais novas (Ena/Alda) e eu topograficamente no meio – rematado caso de “bendito é o fruto entre as mulheres…”.

E lá? Bem, tinha o Antônio (um pouco mais taludo), o Roberto, o Humberto, o Chico e a hoje sessentona Sinira, molequinha ainda, mas já esperta a ponto de me ensinar a matar surucucu pico de jaca, a temida serpente das várzeas amazônicas, como disse antes.

Lembro bem do episódio. Ela talvez não. Dos galhos do catauarizeiro que se debruçava sobre o “Lago da Baixa” (o qual era atravessado por cima de troncos até atingir a restinga do Rio Amazonas), boa parte da corriola estava entregue a sua brincadeira predileta – simplesmente pular na água, para terror dos jacarés tingas que fugiam apavorados com o barulho dos corpos a mergulhar.

Uma tarde inteira nessa galhofa, exaustos e realizados, tomamos o rumo do casarão onde dona Izaura já acenava preocupada com a nuvem de carapanãs, impondo fossem fechadas portas e janelas sob pena de ninguém dormir. Ao chegarmos próximo ao carro de boi que, por falta de uso, se deteriorava sob a frondosa mangueira (manga rosa, da boa…), alguém gritou alertando sobre a presença da serpente, pronta para o ataque silencioso e mortal.

Não existe reação ensaiada e quando dei por mim, estava segurando um galho de árvore bem curto que me pareceu eficaz para afastar o perigo. Foi quando ela passou por mim empunhando uma grande tranqueira que mal podia carregar, suficiente para guardar boa distância da perigosa cobra, cujo veneno mata em pouco mais de quatro horas por paralisação do diafragma, impedindo a respiração. Acho que o animal preferiu não arriscar e fugiu talvez percebendo que à sua frente estava uma garota miúda, franzina, porém ousada e decidida.

Talvez esse tipo de desafio exercesse sobre nós uma atração irresistível, pois a cada despedida já sabíamos de antemão quando seria o próximo encontro. Na boa época escolar de antigamente, as férias de julho, dezembro, janeiro e fevereiro eram sagradas, para alunos e professores. Aqueles, salvo os de “segunda época”, podiam desfrutá-las sem os incômodos das revisões que atualmente se verificam. Os mestres curtiam seu descanso livres de maiores transtornos, pois lecionar é tarefa árdua que exige reposição de energias físicas e mentais.

Muito tempo estive longe da minha cidade natal, cavando a vida. Ausentei-me levando na memória os melhores momentos daquele mundo encantado – e que era encantado por ser exclusivamente meu e de meus parceiros prediletos.

Com eles aprendi a remar, jogar tarrafa, zagaiar arraia, tirar ovo de tracajá e de marreca, reconhecer cobras se venenosas ou não, cavalgar, identificar peixes e pássaros e deleitar-me com o tapete verde do taripucú, relva que se estende a cada setembro até unir-se com o céu no rumo do velho Mondongo, lugarejo quilombola plantado nos limites do universo, numa mágica ilusão de ótica que eu percorria cavalgando o lombo dócil do “Desarruma”, a montaria que comprei do Zé Pangala, caboclo bom de laço e de briga e que por um estranho motivo só dobrava a cabeça para o lado direito.

Desse ontem fazem partes várias pessoas. Na cidade, eram os amigos de infância, parceiros das porfias de empinar papagaio no mês de maio, dos jogos de futebol, de peteca e de pião. Na fazenda, outros amigos, como a molecada do seu Tote, cuja paciência era ilimitada em contemporizar as travessuras, algumas delas reconhecidamente rebarbativas ou perigosas.

Durante minha efêmera passagem por Óbidos no início de 2010, para a inauguração do Cartório Eleitoral numa das antigas residências dos militares do 4.º Grupo de Artilharia, após a solenidade nos foi ofertado um almoço na casa de recepções da Sinira, ela mesmo recebendo as autoridades e convidados, sorriso acolhedor estampado no rosto. Cena inusitada aquela.

Eu, juiz da Corte Eleitoral; ela, dona do Buffet. Nem ligamos para esses rótulos, passageiros como tudo na vida. Um forte abraço selou o reencontro. O cardápio estava delicioso, porém tínhamos que primar pela moderação, eis viajaríamos logo mais para Santarém, onde haveria o pernoite. A certa altura, minha quase-irmã segredou-me que lá dentro havia uma iguaria que propositadamente não fora servida… e pronunciou a palavra mágica que fez meus olhos brilharem.

Partilhei do precioso manjar, que (felizmente) passou despercebido dos demais convivas. Tanto pelo que foi servido como pelo que foi ocultado, concluí o quanto é hábil essa charmosa empresária quando resolve demonstrar seu talento culinário.

Em Belém, já vivendo o clima do Círio de Nazaré no calorento outubro, veio o aviso de que um convite aguardava por mim na portaria do prédio onde moro. Surpreendi-me ao abrir o envelope vermelho, constatando tratar-se da festa em homenagem aos sessenta anos da menina que por seus próprios méritos construiu um vasto círculo de amizades, plasmado na forma envolvente de tratar, conquistando a estima e a admiração de quantos a conhecem.

Jamais imaginei que o destino fosse me propiciar a oportunidade de rever em tão auspicioso momento a amiga de infância no proscênio de uma das idades mais emblemáticas (tal qual os 15 anos) que se pode vivenciar, a chamada terceira idade, quando passamos a ter nosso próprio caixa nos supermercados e bancos, pagamos metade dos ingressos para tudo e, suprema felicidade, ganhamos netos.

Nos países orientais da mais vetusta tradição, quem atinge essa espécie de marca do pênalti é visto como fonte de sabedoria em relação aos mais novos. No Brasil, os sexagenários viram um estorvo para a sociedade (não raro para a própria família), são objeto de chacota ou abertamente discriminados pelo próprio Estado que em princípio deveria protegê-los.

Para mitigar a penúria em que vivem, ganharam até mesmo uma lei especial, o Estatuto do Idoso. O nome dessa lei precisava ser alterado para algo como “ESTATUTO DAS PESSOAS QUE VIVERAM INTENSAMENTE E A PARTIR DOS SESSENTA ANOS CONQUISTARAM O DIREITO À PLENA FELICIDADE”. Assim mesmo: um nome bem curto, fácil de ser decorado.

Nada obstante, falemos do lado bom dos que chegam aos sessenta anos sem depender do INSS. Olhando a foto no convite, atentei para um detalhe: os desinformados não podem aferir com exatidão a idade que a aniversariante tem, tal o charme e a jovialidade, com a devida permissão de seu cônjuge, o caro amigo Joaquim. Toda sua filosofia de vida – e por esse motivo ela é feliz – encontra-se resumida na frase “quem tem alegria de viver não tem medo de envelhecer”.

O que é isso Sinira? Significa que eu, que estou apenas dois outubros à sua frente, devo me considerar velho? Acho que esse assunto enseja outra crônica, de vez que essa trata da personagem cujo natalício é dia 10, porém será comemorado dia 14, pois Círio de Nazaré e Natal não combinam com aniversários. Reputo também adequado o que li no já falado convite: “VOCÊ É A MINHA FESTA”.

Embora não concorde cem por cento com essa afirmação, nesse evento os seus muitos amigos já sabem de antemão quem será o centro das atenções. Sem qualquer intenção de trocadilho, mesmo com a presença orgulhosa do maridão que até hoje tem sido sua indiscutível metade, no encontro de logo mais você será nossa verdadeira rainha.

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* Advogado, membro da Academia Paraense de Jornalismo. Crônica escrita em 2010 em homenagem aos sessenta anos de Sinira Carvalho.


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Advogado e escritor, nasceu em Óbidos. É membro da Academia Paraense de Letras Jurídicas e do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Reside em Belém e escreve regularmente neste blog.

4 Responses to A sessentona charmosa

  • Parabéns Dr.Célio pela narrativa, entendo por que meu querido pai(Cândido) sente tanta saudade desta querida terra(Óbidos).Realmente o título A Sessentona charmosa é contraditório,pois,a querida Tia Sinira,não demonstra ter essa idade.Parabéns Tia Sinira,felicidades a senhora merece.
    Dr. Célio parabéns pelo belo texto.

  • Célio,

    Como caboclo lá do Ituqui, detive-me no seu texto, porque me fez lembrar, também, daquelas várzeas cheias de restingas e baixas. Assim como no seu lugar, para se chegar no Retiro, onde ficava o gado, no verão, tínhamos que caminhar bastante. As surucucus picos de jaca, por lá eram vistas, mas era muito prazerosa aquela vida de férias escolares. Comia-se peixes fresquinhos do nosso “Lago do Pitomba”, quando não, capivara, marreca, pato do mato, mauari etc.., sem esquecer daquela “tipuca” – 2o.leite – com farinha, nas ordenhas matinais. Valeu cara! É sempre bom lembrar dessas coisas. Com certeza, fez-me lembrar, também de outras “Siniras”.

  • Dr Célio, parabens pelo comentário sobre a sra. Cinira, porem as lembranças do retiro do sr. Chico Lobo são verdadeiras. Apesar que hoje aquele lugar está totalmente descaracterizado. Mas todas as experiencias que adquerimos na infancia interiorana, serviram de bases para o futuro. Lembro que certa vez foi para Lago Grande passar férias na minha casa, Nivaldo e Geraldo Magela,foi muito divertido. Nivaldo se adaptou logo, Geraldo foi mais dificil, pois a luz era de lamparina, dormia-se somente de redes, alimentação peixe, no entanto montar cavalos, tomar banhos no rio, superavam as demais carencias. Um forte abraço, Joao Alberto Coelho

  • Meu amigo Célio,
    Como sempre acompanho atentamente seus escritos e essa sua história adorei,
    achei muito legal, pois devido as semelhanças dos lugares, onde os campos, a fauna, flora e o ecossistema em geral, de Óbidos e Juruti (minha terra) são muito parecidos, e assim, você conseguiu me fazer lembrar também de minhas férias no Paraná de Dona Rosa e Ilha de Santa Rita, no município de Juruti.
    Um grande abraço meu amigo!

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