Democracia e a festa dos mascarados

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Bauman na frente de sua casa, em Leeds, Inglaterra
Zygmunt Bauman: democracia

por Joaquim Onésimo Ferreira Barbosa (*)

Joaquim BarbosaZygmunt Bauman, em uma entrevista ao programa Café Filosófico, em 2011, dizia que, quando começou a expansão da Democracia pelo mundo, em oposição a outros regimes, ela parecia ser boa.

Os poderes, que a adoçavam, prometeram muito, mas pouco souberam aproveitar dela. Hoje, quando olhamos para a Democracia que está aí, percebe-se que ela não é tão boa quanto os governos nos prometeram, diz o sociólogo.

De acordo com Bauman, o conceito de Democracia, aquele teorizado por Sócrates, nada tem a ver com o que narramos no século XXI. Sócrates falava em democracia o ir e vir de pessoas nos mercados, nas disputas por compra e venda. Isso era Democracia.

Hoje a democracia, inventada pelo mundo pós-moderno, é um vai e vem de ditos e desditos, que acaba sendo tudo, menos aquilo que realmente é do povo e para o povo.

Ouvi, dia desses, numa conversa em um vídeo do Youtube, um cientista político que falava sobre o que entendemos de democracia no Brasil e o que achamos que não é. Para o entrevistado, 99% dos cubanos não veem o regime castrista como nocivo. Lá, em Cuba, a divisão dos bens é igualitária, se não perfeita, mas de tal modo que uns não têm mais que os outros. Isso aqui para nós é nocivo, mas para os cubanos não é.

Dizia o entrevistado: olhe o número de ricos no Brasil e o número de pobres. Olhe o número de ricos em Cuba e o número de pobres. Aí está a diferença.

A questão, lembra-nos Bauman, é que o que nossos antepassados entendiam por ser Democracia, nós acabamos por inverter e fizemos dela o que achávamos que era o correto. Acabamos criando um monstrinho que parece ser nocivo, quando paramos para ver de perto, sem pernas, sem braços, sem olhos, mas que permite a alguns fazerem tudo o que lhes cabe na caixa. E fazem.

Vivemos num País que ainda está aprendendo a manipular essa tal Democracia, porém, nem bem começamos a vivê-la, percebemos que ela entrega demais para uns e quase nada para outros.

No regime republicano, os nossos três poderes parecem ser uma capa de camurça, debaixo da qual se escondem males. Mas os que estão lá, que se dizem os representantes legais, não veem desse jeito. Fazem de tudo para mascarar os podres poderes, como diz a letra da música.

Os três poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário, pouco democráticos são. Escolhemos os deputados, os senadores, os vereadores, porém, quando estão no poder, valem-se da inocência dos eleitores e fazem a festa da democracia: roubam, falseiam, entopem-se como os mascarados dos carnavais da Idade Média, descritos por Bakhtin.

Esquecem-se do povo e legislam em benefício próprio. O povo que assista a tudo calado, afinal foi ele quem os colocou lá.
Elegemos um presidente, um governador e um prefeito, e quando chegam ao poder, misturam-se à festa dos mascarados do Legislativo.

Mascaram-se com eles. A festa vira um samba do crioulo doido, talvez mais doido do que se imagina. As conveniências do poder são afagadas com o toma lá dá cá. Só sabemos que há algo errado, quando interesses são contrariados, aí uma pontinha da sujeira é vista de fora. E para por aí.

Dos três poderes, o Judiciário é o menos democrático que existe. Dos dele, o povo não tem direito a escolher quem deveria estar lá. O que soa estranho a muitos. Quem escolhe o presidente da Suprema Corte é o presidente da República. Mas quem deveria escolher deveria ser o povo, em voto, assim como se procede na escolha do presidente da Nação. Por que não?

Já basta saber que o poder aos do judiciário é vitalício. Mais uma incoerência. Direitos iguais não há. Para uma míngua, o poder é hereditário, para outros não. Já que os do judiciário têm poder hereditário, que ao menos ao povo fosse dado o direito de escolher quem tivesse a capacidade de resguardar a Justiça.

São onze ministros, que se revezam na presidência da corte. Então por que, quando de sua escolha, o povo não têm direito a voto? Se fizesse o mingau, como faz na escolha dos do legislativo e dos do executivo, ao menos não teria o direito de reclamar que os que estão no STF enlameiam-se na mesma poça de lama em que se jogam os do Executivo e os do Legislativo.

Mas, como não os escolhemos, acabamos por ver, de longe, que a Justiça,cega para uns, enxerga muito bem para outros. Aí fica aquela sensação de que essa Justiça é suja também, e não deixa de ter razão quem vê desse jeito. É só analisar os caminhos pelos quais têm trilhado os últimos ministros do STF.

Talvez, e urgente, precise-se de uma mudança nos rumos da Democracia que acolhemos no nosso País. Precisamos discutir os modos de escolha dos que regem os três poderes. Precisamos aprender a ser mais rígidos na escolha e menos lesos, cegos e lenientes quando votamos.

Colocamos um bando no poder e deixamos que eles façam a festa. E gostam. Gostam porque o povo tem a memória curta. Bastam dois anos, um tapa buraco, uma camisa ao time de futebol, uma maquiagem nas escolas, uma promessa de estádio, uma bolsa vale tudo e ponto, lá se foi a crueldade de anos passados, e aí os gigolôs do poder riem da nossa cara.

Enganaram mais uma vez os bobos.

A democracia é boa demais para os espertos e cruel demais para os que não se valem da esperteza. A democracia é uma mina para os espertalhões que compram e vendem nos mercados do poder. Quem dá mais pode o que quem nada dá recebe. É a festa dos poucos que dela participam, enquanto os milhares ficam apenas na plateia vendo os mascados enlameando-se. E eles riem, e nos aqui lamentamos.

Hoje, passadas quatro décadas, percebo que o time de pelada da rua onde eu morava sabia fazer democracia. Só jogava quem era fiel ao grupo. Os de plantão apenas podiam olhar. Quando um desistia é que o chefe, ao consultar os mais velhos do time, decidia quem entrava para jogar, uns poucos minutos.

Certamente, nossa Democracia, da época de meninos da saudosa Vera Paz, do quintal abandonado da dona Nazaré, era melhor do que essa que fazemos hoje quando adultos. Brincávamos exercitando e Democracia e nem sabíamos.

Bons tempos!

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* Santareno, é professor da rede estadual de ensino e universitário. É mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia. Escreve regularmente neste blog.


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5 Responses to Democracia e a festa dos mascarados

  • Mais uma prova inconteste de que velhice não significa sabedoria ou qualquer coisa parecida. É certo que na maravilhosa ilha cubana existe igualdade entre 99,9% da população, são 99% vivendo em condições de pobreza. Os 0,01 privilegiados pertencem a dinastia castrista e sua corte. Esses cubanos realmente tem sorte de não ter esse trambolho chamado democracia.

  • Prezado Joaquim,
    Elucidativo e didático seu texto. Peço a sua permissão para levá-lo (o texto) para meus ouvintes das periferias de Santarém,onde presto trabalho voluntário, para discussão e debate. Grato.

  • No regime castrista só a miséria é que é igualitária, com seus os cartões de racionamento, censura, etc., Já a nomenklatura do partido único passa muito bem, obrigado.

  • Bom dia!
    Sabe, gostei muito do artigo e concordo em quase tudo…
    Só questiono como seria se o povão votasse também para o judiciário… Será que não se tornaria uma bandalheira pior do que já está? Não esqueçamos quem somos…
    Nosso povo, em sua grande maioria, ainda é o mesmo preguiçoso que não lê, que se vende por uma cesta básica.
    Pessoalmente, e desgostosamente, devo admitir que cada povo tem o governante que merece e, senão, vejam nas ruas! A corrupção começa em atitudes pequenas…para mim um exemplo é o daqueles comércios que não colocam preço nos artigos e cobram conforme a cara do cliente.
    Há que mudar sim! Há que mudar, sobretudo, a conduta individualista, desonesta e imediatista da maioria dos brasileiros ou estaremos condenados historicamente.

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