O Brasil que eu quero, por Helvecio Santos, Curto café

Curto café, no Rio de Janeiro: você paga quanto quiser

por Helvecio Santos (*)

Apesar de tudo, o Rio de Janeiro ainda tem lugares que surpreendem positivamente, e desta vez quem descobriu foi minha mulher.

Há dias ela falava de um lugar incrível, um oásis no meio da loucura do Centro e insistia que eu lhe fizesse companhia, o que fiz na última quarta-feira. Realmente, o lugar é uma belíssima surpresa.

Chama-se “Curto Café” e está localizado na sobreloja do Terminal Garagem Menezes Cortes. É uma mistura de chopperia, cafeteria, pizzaria, tudo com um toque de armazém de cidade do interior.

Num ambiente bem cuidado, em mesas espalhadas pelo ambiente, lá estão, para venda e degustação, brownies, trufas, manteiga, queijo canastra, goiabada, pão tradicional, pão integral, pão multigrãos, café, em grão e em pó, pão de queijo, pizza, chopp, cerveja, gelada ou natural, e outras “tentações”. À vista do freguês, o preço sugerido de cada produto.

O atendimento é feito por uma rapaziada de bermuda e camisa de malha, bem à vontade, com um estiloso avental de complemento e o melhor de tudo isso é que atendem bem, conhecem o que vendem, explicando cada item, se preciso for.

Falam da torra do café, da feitura do pão de queijo, do processo de fermentação do pão, da elaboração do queijo, das broas e do que mais estiver exposto.

Noutra inovação, a clientela compartilha mesas compridas, oito lugares, iguais às que hoje só encontramos em casas de fazenda.

O Wi-fi gratuito se soma nessa proposta de tornar o ambiente diferenciado, agradável e acolhedor.

E se não bastasse, no meu entender, aqui vem a grande surpresa. Pasmem, não há caixa! Sim, não há caixa!

A pessoa pega o que deseja levar, come o que quer comer, serve quantos chopps lhe apetecerem e ao final do momento de prazer, deposita o pagamento dentro de umas cestinhas e, se for o caso, faz o próprio troco. Há também a opção do pagamento ser feito em cartão de débito em uma das várias maquininhas expostas no ambiente.

Sim! É isso mesmo!

Perguntei a um rapaz que parecia ser o gerente se eles não levavam “beiço” e ele respondeu que não. E disse mais! Como tem produtos, como o café expresso, cujo preço é sugerido entre R$3,00 e R$5,00 reais, é normal que no fechamento do caixa haja sempre mais valor do que o previsto.

Confesso, a ficha não caiu e eu ainda estou surpreso. No Rio de Janeiro? No Brasil? É inacreditável! Será que chegamos ao fundo do poço e uma nova postura começa a brotar dessa podridão que vivemos?

Num país onde a maioria das crianças será adulto corrupto ou ladrão por obra dos pais que ensinam os filhos a serem mentirosos desde pequenos, lembra? “Se for pra mim, diz que não estou”. Que ensinam a desrespeitarem as leis, lembra? “Se eu não avançar o sinal vermelho você vai chegar atrasado na escola”. A roubarem, lembra? “Trouxe papel A4 lá do trabalho que estava dando sopa, pois a nossa impressora já está sem papel”, essa experiência é corajosa, inovadora e surreal.

Esse é “o Brasil que eu quero”.

Não quero o Brasil dos vídeos da emissora de televisão onde o povo mendiga estradas asfaltadas, mendiga hospitais decentes, mendiga escolas dignas e professores motivados, mendiga segurança pública eficiente, mendiga transporte público de qualidade, quando o político do qual reclamamos nos rouba porque foi criado para ser mentiroso, descumpridor das leis e ladrão?

Por esta mesma régua, numa safada cumplicidade, ao mesmo tempo que reclama melhorias, o cidadão elege e reelege o político que vai enriquecer roubando o dinheiro público, desde que lhe faça “agrados” com tijolos, dentaduras, sandálias ou a promessa de um “cabidinho” numa repartição qualquer.

Neste contexto vamos continuar mendigando melhorias e os políticos vão continuar nos roubando.

Este não é “o Brasil que eu quero”.

Quero um Brasil com uma nova consciência, com novos marcos éticos, com uma nova maneira de tratar o bem público, coisa que o “Curto Café” está ajudando a fazer. Verdadeiramente, é um pedacinho da Dinamarca no Brasil, uma amostra de que é possível darmos a volta por cima.

Chega! Está na hora de abandonarmos o Brasil da propaganda do tricampeão mundial de futebol. Lembram? “Gosto de levar vantagem em tudo”.

É hora das famílias começarem a fazer sua parte na construção de um Brasil decente e digno. Escola ensina a ler, escrever, somar, diminuir e outras ciências mais. Só a família ensina uma criança a ser um adulto digno e útil à sociedade.

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* É advogado e economista santareno residente no Rio de Janeiro. Escreve regularmente neste blog.

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5 Comentários em: O Brasil que eu quero, por Helvecio Santos

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  • Pedro Adalberto Feitosa Maia disse:

    O Brasil que todo brasileiro consciente deveria querer, seria um Brasil sem a rede globo, pois esse é o cancer que corroi o pais. Ai sim, teriamos eleiçoes sem a interferencia desses abutres irmaos marinho. Roubam desde a ditadura e comandam o pais quando golpeiam a constituiçao e os votos dos brasileiros e se aliam com um criminoso e marginal que é esse temer; vampiro das riquezas brasileiras que agora sao doadas aos estrangeiros, matando o sonho dos jovens e das crianças.

    1. Jeso Carneiro disse:

      Em outras palavras, Pedro, lei dos medios já. Projeto, inclusive, que Lula no alto de sua popularidade quando presidente não teve coragem e peito de colocar em pauta no Congresso até então totalmente sob o controle dele.

      1. Pedro Adalberto Feitosa Maia disse:

        Verdade Jeso, e hoje paga o preço desse erro.

  • Elaine disse:

    Já tinha ouvido falar nesse lugar que é um exemplo de que nós não precisamos só “mendigar” sobre o Brasil que queremos, mas sim nos conscientizarmos que nós é que precisamos construir o Brasil que queremos.

  • Elaine disse:

    Esse também é o Brasil que eu quero.