A obsolescência do Amor – parte II. Por Alessandra Corrêa


“O amor com um espectro de eliminação imediata; com uma ansiedade permanente, pairando acima dele.” (Bauman)


Recentemente, na nossa última crônica, falei-vos sobre o amor obsoleto, em que eu questionava essa atual condição do sentimento; mais do que isso, a normalidade da sua existência. Mas muitos me questionaram sobre o que de fato seria essa obsolescência do amor, e hoje estou aqui para vos tentar esclarecer o tema.

Antes de tentarmos perceber esses dois conceitos juntos, precisamos concebê-los individualmente, pois, na verdade, suas coexistências nem sequer se faz coerente. De um lado, e de natureza milenar, temos o mais complexo, paradoxal e resistente dos sentimentos.

O amor não é apenas o tema favorito dos filósofos, mais abordado dos poetas, ou mais reproduzido dos artistas; o Amor é a química das almas, a física dos corpos, a linguística do cérebro, a ciência do encontro … a religião do que não crê.

Para Platão, o amor é a busca do belo, do reflexo de si mesmo, o egoísmo perfumado. O amor é a purificação do indivíduo, a transcendência do banal.

— LEIA AINDA de Alessandra Corrêa: O amor é privilégio de maduros.

Camões, o poeta português, vai além, para ele o amor é a luta da carne, a incerteza da razão, a idealização do que se ama, o átomo da existência. O amor é o absurdo de si mesmo, o indivisível que se divide, a menor parte de nós todos no melhor do que nós somos. É querer que aquilo que se ama, seja aquilo que se é. Múltiplo e confuso, assim é o amor.

E obsolescência? Como já vos disse em outro momento, obsoleto é tudo aquilo que já não se usa; arcaico – fora de moda. É um conceito recente dentro do universo do mercado de compra e venda, são aqueles produtos ditos inutilizáveis, sem comercialização, desatualizados.

Com a globalização e a evolução tecnológica, esse fenômeno se tornou cada vez mais recorrente, sendo inclusive associado à palavra “programada”, ou seja, os produtos vêm com “prazo de validade” – curto; perecíveis.

De natureza capitalista, a obsolescência planejada tem como intuito nos fazer descartar mais rapidamente aquilo que já não é “atual”, ou que, repentinamente, deixou de funcionar.

Certo, mas e o amor obsoleto?! Bem, penso inclusive que seja do encontro incongruente desses dois conceitos que o sociólogo Zygmunt Bauman tenha feito surgir suas primeiras concepções da liquidez do amor. Na consagrada obra do polonês, A Modernidade Líquida, o autor traça justamente os contornos de um sentimento, pós moderno, em que a efemeridade das relações se tornou natural.

O descarte do outro, que num dia se dizia amar e no outro já não, normalizado. Aquela tal obsolescência dos produtos reside agora no sentimento. O conserto da dor é o “unfollow” do indivíduo, o divã dos diálogos são os stories do perfil.

Tal como os produtos da nossa Era, o amor se tornou um bem de consumo, de curta duração e troca programada. Um espectro virtual, desatualizado na timeline.

Mas lembre-se, caro leitor, a autenticidade do amor está, justamente, na sua instabilidade, na sua natureza incerta. Sua gênese é a incoerência daquilo que se sente.

Não há programação para o amor. “o Amor é um não sei quê, que nasce não sei onde, / Vem não sei como, e dói não sei por quê” (Camões).

<strong>Alessandra Helena Corrêa</strong>
Alessandra Helena Corrêa

Santarena, é graduada em licenciatura plena em Letras (Ufopa). Faz mestrado atualmente em Estudos Literários, Culturais e Interartes na Universidade do Porto, Portugal, onde reside. No Instagram: @alehhelena

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