A zoomorficação do amor. Por Alessandra Helena Corrêa

Nós seres humanos obtusamente atribuímos a capacidade de amar à nossa espécie. Prepotente engano!

Percebi com o passar dos anos que de todos os seres vivos nós sejamos, talvez, aqueles que menos saibam conceder esse necessário sentimento. Na nossa natureza, quase sempre egoísta, buscamos na doação de afeto retribuição constante e instantânea; a gratuidade do verbo desqualifica-se.

Alessandra Corrêa *

Ao observar outras comunidades do nosso ecossistema, não humanas, vemos múltiplos reflexos do amor natural e involuntário. Em que a relação harmónica entre o conjunto de elementos que constituem essas sociedades é alheia ao nosso contrato social, cujo direitos e deveres são, ironicamente, inúmeras vezes sabotados em nome de interesses individuais.

Foi na observância de uma amostra viva de uma dessas espécies, nomeadamente a felina, que pude constatar a ZOOMORFICAÇÃO do amor.

 

Partilhando do mesmo lar que uma cativante família de gatos British, vi que nós, homens e mulheres, criamos um protocolo para amar, que naquela família é inexistente.

Não há protocolos para o amor – concluo. Não há protocolos para conceder afeto. Não deveria haver.

Esses mesmos bichanos, na relação com suas companhias humanas, dedicam um afeto que lhes é inerente; nato.

A sinergia do contato dos animais com os seres humanos deve estar sob os cuidados de estudos científicos, entretanto a ciência não pode ainda ser capaz de explicar como esse afeto, de alta dedução na nossa natureza, sempre a espera de benefícios, surge tão espontaneamente no DNA animália.


— * Alessandra Helena Corrêa, santarena, é graduada em licenciatura plena em Letras (Ufopa). Faz mestrado atualmente em Estudos Literários, Culturais e Interartes na Universidade do Porto, Portugal, onde reside. No Instagram: @alehhelena.

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