Na pandemia, ensino remoto não te ensina a fazer poesia. Por Silvan Cardoso

O rapazinho de 10 anos acordou bastante tarde naquela segunda-feira. Ao perceber que ainda era 9h, permaneceu deitado em sua rede e, pegando seu celular, passou o restante da manhã jogando. Para ele ainda era muito cedo. Não era o momento para se levantar. Mas nada o impedia de acessar jogos diversos salvos no aparelho.

Ainda não estavam sendo permitidas aulas presenciais. A pandemia da covid-19 ainda impossibilitava isso. Eram as aulas remotas a realidade do momento. O rapazinho tinha alguns deveres para fazer, mas duas coisas o impedia: a falta de Internet e os jogos no aparelho que chamavam a sua atenção. Seu pai tinha saído cedo para fazer um bico de pedreiro. Sua mãe, desempregada, ficava em casa realizando os afazeres e preparando geladinho para vender.

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Próximo das 10h, a mãe lembrou que seu filho ainda estava deitado no quarto. Pra ela, já estava tarde. “Neucivaldo, já fez teu trabalho aula?”, gritou a mãe. Imediatamente ele levantou, desconectou o celular da tomada, que já estava totalmente carregado há horas, e foi até a cozinha.

Disse a ela que não tinha internet e que não poderia fazer os trabalhos da escola. E agora? Como resolver essa situação? Logo a mãe lembrou que o celular já tinha sido conectado no Wi-Fi da padaria. Sobre a mesa só tinha o café pronto. Daí um motivo para seu filho conseguir Internet. Tratou de mandar seu filho pra lá.

Ela foi até o seu quarto, juntou algumas moedas que tinha e pediu que ele fosse à padaria. “Compra R$ 1,00 de pão careca. E aproveita pra ver os teus trabalhos de aula no grupo de WhatsApp dos professores usando a Internet de lá.” Neucivaldo foi correndo até a padaria. Antes mesmo de entrar no estabelecimento, tentou conectar na Internet de lá, para que tivesse tempo suficiente para baixar todas as informações colocadas nos grupos da escola.

Entrou no local, pediu os pães e, enquanto o pedido não chegava, ficou mexendo no celular. Mas ao invés de abrir os grupos pra estudar, ele abriu os aplicativos de jogos. Esqueceu dos seus compromissos escolares e se distraiu nesses jogos.

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Passado o breve tempo depois de feito o pedido, recebeu os pães, pagou e, minutos depois, ainda aproveitou mais um pouco a internet, seguindo sua caminhada pela rua, sem quase tirar os olhos do celular. Quando não teve mais sinal de Internet durante seu trajeto na rua de volta pra casa, guardou o aparelho e continuou caminhando.

Chegando à sua casa, colocou os pães sobre a mesa, sentou-se sobre uma cadeira e continuou jogando. Nisso, sua mãe, que tinha feito pausa da lavagem de roupas, quis logo saber: “Já viu os trabalhos da escola, filho?” Tentando escapar de um ralho, Neucivaldo disse, tentando rapidamente abrir um dos grupos de professores: “Mãe, esse trabalho não consigo fazer. Eu não entendi”.

A mãe pegou o aparelho, leu o comando do que estava sendo solicitado e ficou pensando, cheia de dúvidas. Viu que junto do comando tinha um vídeo orientando como poderia fazer o dito trabalho, mas mesmo assim não era suficiente pra fazer a mãe entender o que estava sendo pedido. Se a mãe não estava entendendo, o que dizer de uma criança de 10 anos?

Nesse trabalho, um professor tinha solicitado: “Escreva um poema com o tema ‘No meio dos desafios da pandemia'”. Mas Neucivaldo se viu num problema imenso. Não tinha a menor ideia do que se tratava um poema. Nem esse professor e nenhum outro dedicou-se pra explicar a ele o que era um poema. Apesar de ter mandado um vídeo para explicar os modelos de poema, parecia que aquilo se tornara um enigma.

A forma como tava sendo explicada não era adequada para uma criança: “O que seria um verso? O que é estrofe? Como assim rima?”, perguntava o menino. A mãe também não sabia do que se tratava. Tudo se tornou uma confusão e o que o rapazinho mais queria naquele instante era desistir do trabalho e voltar A jogar.

Neucivaldo era humilde e nunca recebeu incentivo à leitura. Seus pais mal sabiam ler e não tinham condições de conseguir pra ele um livro. Até porque na cidade onde moravam, Alenquer, eram raros os lugares que tivessem bibliotecas com livros de qualidade disponíveis, como no museu da cidade, que não vendia e disponibilizava pra ler somente lá.

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Mas a criança não gostava de ler. Desde pequena era hipnotizada pela tela de um celular. Desde pequena era encantada por vídeos de animações e jogos virtuais diversos. Somente aquilo e a falta de incentivo para ler deixava-o daquele jeito, sem qualquer interesse pelos livros, seja qual for.

Se não havia incentivo por leitura, o que esperar da escrita? Suas letras eram encolhidas, escritas lentamente e com certa dificuldade. Se alguém ditasse à ele a palavra “parabéns”, com certeza ele ficaria numa dúvida imensa de quais letras colocar, sem falar do acento agudo que ele não colocaria.

O que esperar então se for cobrar da criança um poema com um limite de versos, organizado com determinadas quantidades de estrofes e ainda com rima? E a criança teria entendido o tema? A mãe precisou pedir a alguém para criar esse poema. Mas a criança não estaria aprendendo. Só receberia o trabalho pronto e simplesmente continuaria a jogar no celular.

Mas ele não aprenderia nada. E isso não acontece só durante a pandemia. Antes dela e antes das aulas remotas já acontecia essa falta de aprendizagem, tanto na convivência familiar como na convivência escolar. Nem seus pais e nem seus professores se preocupavam com o grande impacto que estavam causando no conhecimento de Neucivaldo. E o moleque, sem qualquer interesse pelos livros, com a maior preguiça do mundo de escrever uma única frase ou até mesmo de abrir o caderno, deliciava-se jogando em seu celular.

<strong>Silvan Cardoso</strong>
Silvan Cardoso

É poeta, cronista e pedagogo nascido em Alenquer, no Pará. Escreve regularmente no BJ.

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