IA, a máquina de moer humanos 2.0 requer de nós inconformismo vigilante. Por Jeso Carneiro

Publicado em por em Internet, Opinião

Livros sobre IA e cultura digital enfileirados na biblioteca do jornalista Jeso Carneiro. Foto: reprodução

A inteligência artificial reúne toda sopa do conhecimento humano produzido há milênios num único lugar. Em milésimos de segundos, a IA oferece, como uma espécie de oráculo contemporâneo, água e comida a um humano faminto por ciência e saber. O fascínio inicial é inegável, mas esconde uma armadilha estrutural incrustada no próprio código.

A IA foi programada para, salvo raras exceções, nunca nos negar resposta, entregando-nos sob plástica mentira empacotada exatamente aquilo que não sabe. Conhecimento e a ciência são processos; é movimento, avanço ou recuo constante. A recusa do algoritmo em admitir a própria ignorância corrompe essa lógica. Se a máquina não sabe, e eu não sei, falhamos os dois. Homem e máquina.

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O pior é constatar que há, por trás desse “erro” alucinatório, um propósito financeiro implacável que destoa brutalmente da dinâmica de aprendizado e de transmissão de conhecimento até então vigente na história da humanidade. O erro outrora humano nunca foi tão perfeitamente mascarado como verdade com fins tão diretos de enriquecimento corporativo.

Leia também de Jeso Carneiro: O acaso que divide minha cama e A bela adormecida e a pedra dura que não fura.

É preciso encarar a verdadeira origem da ferramenta. A IA foi parida no ventre do capitalismo financeiro mais excludente, um sistema que hoje demarca o maior fosso entre ricos e pobres na história do planeta. É dessa matriz que ela herda a frieza de nos vender verdades e mentiras com mesmo valor de face.

Ao contrário do que prega a narrativa salvacionista do Vale do Silício, a IA não foi azeitada e lançada no mercado para possibilitar o nosso avanço moral ou de conhecimento.

Ela não nasceu para diminuir a pobreza, socializar a ciência, propagar a paz ou ser o grande marco de mitigação das mudanças climáticas. Na sua essência e no seu modelo de negócios, a IA é apenas uma rede social 2.0. Ela chega, turbinada, mas com fins que não diferem em absolutamente nada do Facebook, do Instagram, TikTok, X e tais.

São todas, sem exceção, máquinas de moer humanos. O perigo imposto pela IA, no entanto, é ainda mais profundo: o objetivo é tornar-nos zumbis digitais, desassociados de qualquer traço de senso crítico que impeça as Big Techs de acumular cada vez mais dinheiro e poder. Muito poder. Muitíssimo dinheiro.

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A rendição, porém, não é uma opção para quem pensa e atua sobre a realidade. A resposta a essa engrenagem é o estado de alerta absoluto. Vigiai, conhecei, estudai a IA, prego.

A nossa postura diária diante dessa tecnologia deve dar-se sem ludismo — pois a recusa cega da máquina não altera a marcha do mundo. Temos que nos posicionar com maiúsculo e letal inconformismo.

É preciso manter a crença firme de que, impondo ajustes de conduta e de uso nos algoritmos da IA, é possível implementar uma virada de chave, e, assim, subverter o curso dessa assombrosa e escravizante trajetória.


∎ Jeso Carneiro, jornalista paraense, é editor-chefe do portal JC. Esse é mais um artigo centauro – a dor, a ideia e o suor são estritamente humanos; o ordenamento estrutural teve suporte de Inteligência Artificial. Leia o manifesto do centauro.

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