O Bozó contemporâneo e seu crachá do Festival de Cinema de Alter do Chão
Locca Faria, à frente do Festival de Cinema de Alter do Chão. Foto: Divulgação

por Paulo Cidmil (*)

Como um dos que assinou a carta denúncia, me manifesto aqui sobre a resposta da Krioca à coluna de Ancelmo Goes, fazendo um pequeno relato de minha aproximação com o festival sobre o qual publiquei dois textos.

Tomei conhecimento do festival quando estive como expectador na solenidade que conferiu o título de Doutor Honoris Causa ao violonista Sebastião Tapajós, a convite deste, que ocorreu na Ufopa.

Nesta ocasião o deputado estadual Airton Faleiro se manifestou dizendo existir projeto para realização de um Festival de Cinema em Alter do Chão, iniciativa de algumas pessoas da cidade.

Paulo Cidmil

O relato de Faleiro teve confirmação do professor Jackson Rego, coordenador do projeto Luzes do Tapajós, que organizou o evento cujo convidados eram, além do homenageado, o artista plástico José Roberto Aguilar, a Dra Fernanda Sarmento, a cineasta do Cine Solar Tarsila Alves e o Sr. Locca Farias, que se apresentou como cineasta.

Algum tempo depois, participando de uma audiência pública em Alter do Chão para avaliação do festival, tomei conhecimento que o deputado Airton Faleiro já havia apresentado um anteprojeto do Festival de Cinema de Alter do Chão na Assembleia Legislativa do Pará em 2016.

Aguilar, que teve o filme Olhar de Boto exibido no evento e o Sr. Locca Faria elogiaram a proposta de festival de cinema como uma excelente iniciativa e o Sr. Locca Faria, na ocasião, se colocou à disposição para ajudar na sua realização, disse ter articulações com a área de cinema e TV e poderia colaborar.

 

Posteriormente fui convidado por Sebastião Tapajós para participar de uma reunião onde o Sr. Locca Faria estaria apresentando o projeto do filme “Reencontro das Águas,” tendo o violonista Sebastião Tapajós como protagonista, reunião que contou com a participação, entre outros, do professor Jackson Rego, então presidente do Instituto Sebastião Tapajós.

 O filme proposto pelo Sr. Locca Faria, em que Sebastião Tapajós seria uma espécie de anfitrião e receberia em Santarém Gilberto Gil, Chico Buarque, Paulo César Pinheiro, Caetano Veloso, Danilo Caymi entre outros, de cara me pareceu algo de orçamento muito alto.

Questionei o Sr. Locca Faria de como ele pensava captar recursos e se ele tinha noção da dificuldade de captar recursos para projetos culturais na Amazônia. O Sr. Locca Faria afirmou que captaria os recursos através da Rouanet ou a Lei do Audiovisual.

Argumentei, com a confirmação de Sebastião, que havíamos aprovado projetos com valores que iam de oitocentos mil a dois milhões e quatrocentos mil e que Sebastião correu com ministro, governadores, bancos, mineradoras e todas as grandes empresas da Amazônia sem sucesso na captação.

Nesse mesmo dia se argumentou que o Instituto Sebastião Tapajós poderia vir a ser o proponente do Festival de Cinema de Alter do Chão. O professor Jackson ponderou que o Instituto Sebastião Tapajós poderia ficar responsável por toda parte musical , sonorização e trilhas, pois ainda não preenchia todas as formalidades legais para representar o festival como um todo.

Bem depois, eu soube que o projeto do festival estava sendo capitaneado pelo deputado Airton Faleiro e outras pessoas próximas a ele. Que empenhava esforços para angariar recursos públicos e o viabilizar nas vias institucionais. E que o Sr. Locca Faria, a convite de Faleiro, estava participando da organização.

Como todos sabemos, o I Festival de Cinema de Alter do Chão aconteceu. Como muitos sabem o mesmo ocorreu com desentendimentos e expurgos públicos e outros não revelados. Como todos sabemos, a Krioca Comunicação, como relatado na carta denúncia, por se tornar representante legal do festival, assumiu o protagonismo do evento na pessoa do Sr. Locca Faria.

 

Tudo isso foi objeto de uma audiência pública de avaliação do festival, realizada em Alter do Chão, em 13 de dezembro de 2019, que estive presente.

Como era de se prever, o festival aconteceu com a quase totalidade dos recursos advindos dos cofres públicos, graças a atuação do deputado Airton Faleiro. A Krioca e seu proprietário Locca Faria não captaram um centavo via lei de incentivo.

Um festival ancorado nos canais por assinatura como Fox Filmes, GloboNews entre outros,  canais que podem estar usando essa participação no Festival de Cinema de Alter do Chão para ficarem em paz com a nova Lei do Audiovisual, que os obriga a exibir produções nacionais e a investir no desenvolvimento do Audiovisual no País. Se isso for um fato, aqui cabe um outro questionamento.

Me manifestei por ocasião do Primeiro Festival com dois artigos publicados aqui no Blog do Jeso: Muita Quinquilharia e pouco ouro, uma avaliação crítica do festival, e O roubo da Muiraquitã, onde, através de uma alegoria ficcional, à época, eu já denunciava a apropriação.

Agora, ao ver desnuda as suas artimanhas através de uma carta denúncia coletiva e bastante representativa, o Sr. Locca Faria, hábil contador de estória, através da Krioca Comunicação, rebate a denúncia, ao afirmar “que seu objetivo é proporcionar a integração de grandes nomes da cultura nacional… criando espaços de fala com diversos grupos artísticos, lideranças indígenas, quilombolas e universitárias locais”.

Como sempre, lança mão do artifício de que goza do apoio de artistas famosos. E  diferente do que faz por aqui, quando cita famosos e personalidades que lhe prestam apoio, dessa vez não teve a coragem de mencionar os nomes dos artistas e personalidades que endossem a sua fala.

É bom que o famoso cineasta fique ciente que sua intermediação para criar espaços de fala para o nosso povo não é consentida e nem autorizada. Sabemos como e quando nos manifestar para contar nossa verdade e a faremos chegar onde acharmos necessário, como agora nas páginas de O Globo, sem a intermediação de oportunistas.

Que o famoso cineasta de uma película curta fique ciente: hoje sabemos que é através da utilização de nosso nome que o Sr. vem criando espaço de fala e legitimidade para sua ambição. 

É utilizando o nome de Alter do Chão e da Amazônia que você vem surfando como mentor  e proprietário de Festival na Amazônia, com um discurso paternalista, muito próprio dos oportunistas que vivem às custas de muitas de nossas carências. Aproveitando-se do pouco diálogo e intercâmbio que temos com os grandes centros de produção cultural do país.

Você bateu na porta errada. Amigo da família Caymi, amigo de Chico Buarque, amigo de Paulo César Pinheiro, amigo de Caetano Veloso, amigo de Cristiane Torloni,  Agora também amigo de Pedro Bial, de Cacá Diegues e da família Aldir Blanc. Use de seu prestígio, peça solidariedade a eles. Que digam uma palavra de apoio e avalizem a sua história, desfazendo a arapuca que você se enfiou.

Mas você veio buscar respaldo na Secretaria Municipal de Cultura de Santarém que chegou no processo de criação e realização do festival quando já haviam recursos definidos através de emendas parlamentares e patrocínio de banco estatal. Nenhum desses recursos viabilizados por iniciativa da Krioca Comunicação.

Você, com seu crachá de ex-cinegrafista da TV Globo, por aqui se transformou em importante cineasta. Com uma performance digna do famoso e divertido personagem Bozó de Chico Anysio.

Bozó conhecia todos os diretores e artistas e podia viabilizar oportunidades dentro da emissora. Na verdade Bozó era apenas um porteiro, mas possuía um crachá que os incautos nunca conferiam, olhavam só para o plimplim.

Bozó era um personagem inofensivo, só queria pegar umas garotas ingênuas e deslumbradas com o mundo televisivo.

 

Nosso Bozó contemporâneo é mais audacioso, usa seu crachá de cinegrafista, se apresenta como cineasta, para vender ouro de tolo e fazer negócios. Ainda poderá ser capaz de salvar a Amazônia, mente megalomaníaca ele tem pra isso.

O Bozó contemporâneo encontrou na Secretaria Municipal de Cultura um assistente de palco para advogar em defesa de seus interesses em detrimento de parte representativa do movimento cultural local, que já conta com quase uma centena de assinaturas. Movimento onde existem muitas pessoas que foram artífices e trabalhadores na construção desse festival.

Tudo isso é muito bom para tornar as coisas claras. Afinal, foi esse mesmo assistente de palco de nosso Bozó, que motivou texto de minha autoria, com o título Edital do Çairé: a banana está comendo o macaco, de solidariedade ao povo de Alter do Chão, em agosto de 2019,  após a comunidade soltar nota de repúdio à tentativa de exclusão dos comunitários do centro de decisões e coordenação da festa.

Que permaneçam abraçadinhos, quanto maior o gigante, mais espetacular é a queda.


— * Paulo Cidmil é diretor de Produção Artística e ativista cultural.

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5 Comentários em: O Bozó contemporâneo e seu crachá do Festival de Cinema de Alter do Chão

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  • jorge costa disse:

    em terra de cego….quem tem um crachá é rei !!! conheço a galera ai…é bem complicada,,,,tanto que assasinaram o unico artista da cidade….

  • Cassiane Nevelon disse:

    Concordo com sr jodinaldo. Investidores querem distancia de santarem. Ja tem fama de cidade problema. Tudo é proibido, não pode portos, nem agronegócio naduica de nada. Cidade pólo de ensino superior e sem empregos pra atender milhares de profissionais formados. Tudo leva a crer que seremos uma aldeia de ongueiros e boraris

    1. Paulo Cidmil disse:

      No caso em questão trata-se de um não investidor. Agora o que chama atenção na sua opinião Sra. Cassianne é a sua desinformação sobre questões ambientais e históricas, no caso do Porto, que foi instalado em cima de uma Praia de Nome Vera Paz, área de lazer da população e em cima de um sítio arqueológico de grande importância para nos revelar a vida e os costumes de povo que habitava aqui antes do extermínio e expulsão do terrítório promovida pelos portugueses no período colonial.
      Outra coisa que chama atenção, ainda com maior veemencia, é o nível de seu preconceito para com as populações indígenas e organizações não governamentais, que você dificilmente sabe o que é.
      Como pode uma pessoa em texto tão curto revelar tanta desinformação, ignorância e preconceito.
      Vá rezar pra Bolsonaro, quem sabe assim os filhos dele escapem da prisão e ele se torne uma pessoa menos ignorante, estupido e mal intencionada e pare de nos fazer vergonha mundo a fora.

  • Jodinaldo Taveira disse:

    Mais uma vez santarem perde oportunidades de articulação e desenvolvimento cultural. A eterna fogueira das vaidades e politagens tupinuquim. Fuja sr Locca enquanto é tempo. Esse festival ja era. Santarem a terra do nunca nada pode. Isolada, sectária, quase sitio arqueologico

  • Carlos Silva Junqueira disse:

    Texto cirúrgico Cidmil.
    Você tem propriedade para falar.
    Algumas pessoas de Santarém precisam acabar com essa mania de se ajoelhar pra qualquer um sem procurar saber quem é de fato.
    Não basta ser branco. Não basta ter dinheiro. Não basta dizer que já trabalhou na globo(mesmo sem ser referência alguma em.seu trabalho).
    Qualquer um pode dizer que é o que bem entender. Mas as pessoas precisam checar e não apenas botar pra dentro de casa e entregar a chave.
    Dar a mãos a picaretas, não pode mais meu povo.
    O personagem Bozó foi a melhor comparação para este senhor e para os que tem apoiado as atitudes dele.