
Ao longo da história, as relações sociais foram construídas culturalmente dentro das relações desiguais de gênero, ocorrendo uma desvalorização da mulher e da sua feminilidade.
As sociedades escravocratas e feudais mantinham um sistema de exploração, no qual, os escravos, principalmente as mulheres, não eram consideradas pessoas.

Foi somente a partir de 1930 que as mulheres conquistaram o direito ao voto, e com ele advieram outras conquistas, como a possibilidade de serem eleitas a cargos públicos e de estarem à frente da administração pública em vários níveis e esferas administrativas.
Há exatamente um ano, a rotina de milhares de mulheres foi alterada com a pandemia da Covid-19. Pesquisa realizada pela ONG “Gênero e Número”, em parceria com a Sempre Viva Organização Feminista, entrevistou 2.641 mulheres em todo o Brasil com o objetivo de conhecer as dimensões do trabalho e da vida das mulheres durante a pandemia.
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Os resultados apontam o quanto a pandemia sobrecarregou as mulheres e evidenciou desigualdades históricas de gênero nas relações de trabalho e no âmbito privado.
As atividades desenvolvidas pelas mulheres no início do sistema capitalista referiam-se a lidar com as máquinas de tear e outras tarefas consideradas pertinentes ao sexo feminino. Nesse sistema a mulher passou a ser a trabalhadora assalariada, acumulando dupla jornada de trabalho, sendo explorada não só pelo companheiro, no aspecto familiar, como pelo próprio sistema, através do pagamento de baixos salários e condições inferiores de trabalho.
Os achados da pesquisa alertam justamente para essa realidade que se aprofundou na pandemia com o cumprimento de uma carga horária de trabalho exaustiva e muitas vezes sendo, as mulheres, as únicas responsáveis pelo trabalho doméstico, 41% das entrevistadas afirmaram que passaram a trabalhar mais no período da pandemia.
Para além do trabalho remoto, as que puderam exercer essa condição, 50% das entrevistadas declararam que passaram a cuidar de alguém durante a pandemia.
Ou seja, para além do trabalho remoto e do trabalho doméstico, as mulheres também passaram a exercer o cuidado com idosos que precisam ficar isolados, além da responsabilidade do acompanhamento escolar do filhos com o fechamento presencial de escolas e creches. Os resultados apontam que para 65,4% a responsabilidade com o trabalho doméstico e de cuidado dificulta a realização do trabalho remunerado.
Afora o universo do trabalho, a pandemia jogou luz sobre um drama que atinge milhares de mulheres em todo país há anos: o da violência doméstica.
Embora tenhamos avançado bastante no que concerne a legislação para combater e punir os casos de violência cometidos contra as mulheres, o Brasil ainda é um dos países campeões em número de feminicídios no mundo. O isolamento social revelou que o ambiente doméstico não é um ambiente seguro para as mulheres.
— * Karol Cavalcante, paraense, é doutoranda em Ciência Política (Unicamp). karol.cavalcante@hotmail.com
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