
O grupo Espanta Cão é essencial para que a animação no Sairé seja garantida. Bem antes do evento iniciar de fato, os músicos começam a tocar seus instrumentos, para alegrar os participantes e viver nos rituais que antecedem a importante festa da vila balneária de Alter do Chão, em Santarém (PA).
Embora a edição de 2025 da festa do Sairé, de relevância nacional, esteja marcada para acontecer de 18 a 22 de setembro, outros rituais são realizados, por alguns curiosos identificados como “pré-Sairé”, servindo de preparação pelos organizadores e fiéis desse evento profano-religioso.
Leia também sobre o Sairé:
- Sairé: mulheres vencem a busca dos mastros realizada neste sábado em Alter do Chão.
- Cecuiara da Tradição, o tema do Sairé 2025.
- Coroa do Divino Espírito Santo nas procissões do Sairé.
O grupo Espanta Cão sempre está presente nesses acontecimentos que antecedem Sairé. Os músicos são o combustível de alegria e agitação para todos os momentos em que há a necessidade de música instrumental e de cantoria para que aconteçam os rituais.
— ARTIGOS RELACIONADOS
O grupo já existia antes da retomada do Sairé em 1973
O Espanta Cão é originário de Alter do Chão, tendo surgido muito antes do Sairé voltar a acontecer em 1973. Conhecido por tocar musicas regionais em ritmo de carimbó, o grupo se fazia presente em outras festas da comunidade, como a festa da Santíssima Trindade, festa do Espírito Santo e festa a São Tomé.
Décadas atrás, o grupo era composto por músicos memoráveis, como Antônio Corrêa Dias, o Teotônio, Servito Malaquias, Café, Manuel Garcia, Genésio e Xereba, entre outros, que agitavam a vila balneária com o jeito único que tinha para se apresentar.

Até que em 1973, algumas famílias se reuniram para fazer a retomada do Sairé, que estava proibido pela igreja católica desde 1943. Pessoas como Argentino Sardinha, Ernestino Sardinha, Nazaré Sardinha, Secundino Sardinha, junto de Luzia Lobato, Terezinha Lobato, entre outras, retomaram a festa religiosa, mas com uma “outra roupagem” do evento que aconteceu até o início do século XX.
Logo o Espanta Cão passou a ter mais identidade com a festa religiosa, tornando-se, tempos depois, oficialmente os foliões do Sairé. Não os ter nas procissões faz com que a festa religiosa perca parte de sua essência e não aconteça como se está acostumado a participar atualmente.
Origem do nome Espanta Cão
No seu início, o grupo não tinha um nome oficial. Apresentava-se normalmente nas comunidades próximas sem qualquer algum tipo de identificação que se tornasse fixo aos músicos. A ideia do surgimento do nome foi por acaso e de uma forma bastante curiosa.
Nos primeiros anos de sua existência, esse grupo não usava instrumentos de sopro, como saxofone, mas de corda, como a rabeca. Foi justamente desse instrumento musical que veio a ideia para um nome muito significativo, apesar de exótico.

Como para tocar a rabeca se usa um arco para dar som nas cordas, como se estivesse tocando violino, a posição do arco em relação às cordas musicais faz lembrar uma cruz. Como a cruz é um importante símbolo cristão, é bastante usual para combater o diabo, ou espantar o cão, como os comunitários dizem. Daí o nome “Espanta Cão”.
Essa curiosidade do nome foi revelada pelo músico Cipriano Costa décadas atrás, quando foi perguntado pela primeira vez. Já o músico Célio Carlos Camargo, atual instrumentista do grupo afirma em tom bastante humorado: “Onde tem cruz, o diabo não entra!”.
Um grupo de tradição e resistência
Alguns dos atuais membros do Espanta Cão disseram também que na retomada do Sairé outros grupos animavam o evento religioso, como o Grupo de Pássaros, Valsa da Ponta do Lenço, Pipira Brasileira, entre outros. E o Espanta Cão estava no meio dessa animação.
Resistente às muitas mudanças ocorridas no Sairé com o passar do tempo, o grupo musical mostra a sua força e o seu valor como integrantes indispensáveis da festa religiosa e da cultura de Alter do Chão, apesar de já ter passado por momentos de instabilidade, quase resultando no fim desse grupo.
Reconhecimento internacional e patrimônio cultural de Santarém
O Espanta Cão não se limita ao Sairé. Ele abraça outros eventos e, por conta da sua qualidade de apresentação com as músicas regionalistas, já tocaram em outros estados brasileiros.
Há também relatos de que vídeos do grupo sejam exibidos em países como Argentina, Inglaterra e França, quando turistas e jornalistas desses lugares vão a Alter do Chão fazer os registros.
Em agosto de 2023, o grupo musical foi declarado pela Câmara de Vereadores como Patrimônio Cultural Imaterial do Município de Santarém, através da lei nº 1575/2023, consolidando sua vasta trajetória na história santarena.
O grupo Espanta Cão é fundamental e deve ser sempre valorizado e apreciado quando se apresenta nas ruas e no palco. É somente uma das muitas atrações originárias de Alter do Chão e que contribuem de forma significativa para fortalecer a cultura amazônida.

Fonte:
- Entrevista cedida pelo Cacique Madura (membro do grupo Espanta Cão no vocal e instrumentos de corda)
— O JC também está no Telegram. E temos ainda canal do WhatsAPP. Siga-nos e leia notícias, veja vídeos e muito mais.
Deixe um comentário