Festival dos Botos, o lado profano do Sairé

Publicado em por em Educação e Cultura, Pará, Santarém

Festival dos Botos, o lado profano do Sairé
Os botos Tucuxi e Cor de Rosa, atrações profanas do Sairé. Fotos: reprodução

O Festival dos Botos é um espetáculo a céu aberto que acontece na arena chamada Lago dos Botos, em frente à praça do Sairé, e que complementa há bastante tempo a festa religiosa. Trata-se de um evento profano de grande importância, contribuindo como um entretenimento a mais, que vai muito além de simples apresentações de duas agremiações.

A Festa do Sairé será realizada na próxima semana – de 18 a 22 – no distrito de Alter do Chão, em Santarém (PA). Será a 52ª celebração do evento profano-religioso de relevância nacional.

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A ideia do festival surgiu em 1997, mas passou a acontecer de fato a partir de 1998, quando as agremiações, recém-criadas, organizaram-se pela primeira vez. Era o inicio da grande rivalidade entre a Associação Folclórica Boto Cor de Rosa e do Grupo Sociocultural Boto Tucuxi.

Entretanto, os espetáculos de 1998 seriam as primeiras – e únicas – apresentações amistosas, sem nenhum tipo de disputa, já que ainda estavam se estruturando. Aquela novidade eram as boas vindas de um evento que transformaria para sempre a forma como as pessoas veem o Sairé, principalmente os visitantes.

Explorando o folclore local

A primeira disputa aconteceu no ano seguinte, em 1999, quando o boto Tucuxi apresentou-se com o tema “Boto Tucuxi, cultura viva atravessando milênios”. O boto Cor de Rosa levou à arena o tema “O Rei da Amazônia aperfeiçoava sua produção”. Nesse duelo histórico, Tucuxi levou a melhor, tornando-se o primeiro campeão do evento.

Hoje em dia há pessoas que criticam, dizendo que o Festival dos Botos “não é o Sairé”. Mas há quase 30 anos que já faz parte da festa, mostrando que a cultura da região abrange muito além do que se vê nos ritos tradicionais. Imagina quantas pessoas no final dos anos de 1990 e início dos anos 2000 devem ter se posicionado contra esse festival.

O Largo dos Botos, palco do evento profano do Sairé em Alter do Chão

Enquanto a festa religiosa tem o objetivo de levar a palavra de Deus aos fiéis, o Festival dos Botos exploraria o lado folclórico e ajuda a fazer com que a dimensão do Sairé seja maior, levando ao público questões culturais e sociais por meio de temas, apresentações musicais e teatrais, que servem tanto para diversão como para reflexão.

Essas apresentações seriam mediadas através de dois personagens regionais, fazendo valer a ideia do pensamento folclórico local, assim como já tinha os bois bumbás Caprichoso e Garantido, em Parintins (AM), os matutos Matutando em Férias e Zé Matuto, em Alenquer, e as tribos Muirapinima e Munduruku, em Juruti.

Fortalecimento do Sairé

Os botos Cor de Rosa e Tucuxi na época tornaram-se fundamentais – e hoje ainda são – para o fortalecimento do Sairé, já que foi através desse novo espetáculo que passou a chamar mais atenção das pessoas e a contribuir financeiramente para manter firme a festa religiosa.

O Sairé de Alter do Chão, que nem é apontado pelos estudiosos entre os mais antigos que existiram, é considerado hoje um exemplo de resistência de um povo que sempre teve orgulho de sua identidade e dos seus costumes.

O Festival dos Botos tornou-se uma força a mais no evento, junto a uma nova diretoria que procurou reorganizar a festa religiosa e fazer com que essa resistência persistisse e voltasse a ser um dos eventos mais importantes e atrativos da Amazônia, permanecendo em seu merecido posto de importante festa cultural.

Ressalta-se que a Associação Folclórica Boto Cor de Rosa não usa hífen no seu nome, enquanto o nome do animal possui, conforme o novo acordo ortográfico, passando, por tanto, a identificar o animal pelo nome “cor-de-rosa”.

Representação dos botos para visitação turística em Alter do Chão feita pelos artistas boraris Júnior e Macaxeira, em maio de 2012

Entendendo os botos Cor de Rosa e Tucuxi na natureza

Os dois botos que representam dois animais diferentes, com suas características e que movimentam diferentes torcidas. A associação boto Cor de Rosa, que busca em seus projetos e ações “rosear” na vila de Alter do Chão, assim como o grupo boto Tucuxi, que leva seus trabalhados inovadores para as apresentações.

Na natureza, os botos cor-de-rosa e tucuxi são dois animais que, embora diferentes pelo tom de cor e pelos nomes, pertencem jutos à ordem dos cetáceos. Os dois animais pertencem também à classe dos mamíferos, além de juntos estarem no grupo dos odontocetos (odontoceti), que significa “com dentes”.

O boto cor-de-rosa (Inia geoffrensis) faz parte da família Iniidae, tendo, entre suas características a cor rosa, como o próprio nome diz, ser de tamanho de corpo robusto, chegando a três metros, focinho mais alongado, costuma ser solitário ou de pequenos grupos e com características de animal mais primitivo e é brincalhão com as pessoas.

O boto tucuxi (Sotalia fluviatilis) pertence à família Delphinidae, tendo a coloração cinza, o tamanho de corpo menor, chegando a 1,5 metro, é um bicho mais social com seus companheiros, suas características mostram ser de uma evolução mais recente e costuma fugir do contato humano.

Baseado na lenda do boto

As apresentações de Cor de Rosa e Tucuxi são baseadas na famosa lenda do boto que, contado de forma resumida, numa comunidade ribeirinha, o animal se transforma num belo rapaz. Em seguida, vai às festas para seduzir as mulheres que lá estão.

Conforme segue a lenda, tem relações com a ribeirinha seduzida, voltando depois ao rio. Nove meses depois, a vitima aparece grávida, justificando à família que o filho que está a caminho é do boto, já que não aparece o pai.

Como antes dito, tendo por base a referida lenda, as duas agremiações apresentam seus espetáculos levando diferentes temas regionais, em que os desenvolverão por meio de enredos diferentes, alegorias, itens, corpos de apoio, entre outros.

O Festival dos Botos não é o evento mais importante da festa, mas é um complemento fundamental, que contribui para que o Sairé tenha maior alcance de público. É uma ferramenta a mais para que se conheça ou tenha melhor entendimento da rica cultura da Amazônia, em especial da região do Tapajós.

O espetáculo no Lago dos Botos, ou Sairódromo, é baseado na lenda do boto, típica da cultura amazônica

Fonte:

  • Alter do Chão e Sairé: Contribuição para a história (livro do padre Sidney Augusto Canto, de 2014| 1ª edição – Editora e gráfica Tiagão);
  • Festa do Çairé de Alter do Chão (Luciana Gonçalves de Carvalho – Universidade Federal do Oeste do Pará: Ufopa | 2016);
  • https://super.abril.com.br/mundo-estranho/qual-a-diferença-entre-boto-e-golfinho/, acessado em 10 de setembro de 2025;
  • O Berço do Çairé (livro de Edilberto Ferreira, publicado em 2008).

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