Os inimigos da escola. Por Joaquim Onésimo Barbosa

Da filosofia de Sun Tzu, ouve-se que não se combate o inimigo sem o conhecer. Da lição que a pandemia da covid-19 nos dá, a certeza de que a nossa guerra contra ela ainda está longe de terminar.

Joaquim *

Nas guerras que a humanidade já travou contra inimigos – muitos deles visíveis, outros invisíveis – a que estamos vivendo pode não ser a mais cruel, mas é uma das mais perturbadoras, porque contra o inimigo que ela nos impõe ainda não há uma arma capaz de detê-lo. Contamos unicamente com a destreza e esforços da ciência – que não tem medido esforços para chegar a uma vacina capaz de nos dar escudo e alento.

Neste dia 3 de agosto, se estivéssemos vivendo em tempos normais, milhares de alunos estariam retornando às aulas. Muitos deles com histórias para contar. Voltassem neste dia, muitos outros também teriam histórias para contar, mas nada alegres, nada que lhes permitisse arrancar um sorriso do rosto.

Muitos deles perderam um dos seus familiares: pai, mãe, irmão, irmã, avó, avô, tio, tia, amigos. As narrativas de cada um – pessoal ou coletiva – se somariam às outras tantas, de tantos brasileiros que se viram e se veem indefesos diante de um inimigo cuja letalidade varia de indivíduo para indivíduo.

 

Quando vemos governadores e prefeitos fazendo movimentos precipitados – alguns até mesmo eleitoreiros – para o reinício das aulas nas escolas públicas, e sob os mais diversos argumentos, entre eles o de que se bares, shoppings, comércios e praias podem reabrir, por que escolas não podem, parece caber na ideia de muitos obtusos que a escola é aquele espaço por onde se pode passear como e quando se quer sem a preocupação com o outro.

É como se, na escola, alunos, professores, corpo gestor e de apoio estivessem ali com a mesma finalidade com que estão os transeuntes das ruas, shoppings, praias e comércios. É como se aqueles que fazem a comunidade escolar se permitissem o luxo de ficar quatro ou cinco horas, em salas inadequadas e sem as condições mínimas de cuidado, ao teste do contágio. É como se a vida de alunos e professores tivesse o mesmo valor de um sapato da vitrine do shopping ou do bronzeado que se quer num dia de sol na praia.

Se há algo que a pandemia nos mostrou – e serve como lição, espero que sirva – é que a escola é o espaço mais indefeso e despreparado da sociedade. É tão indefeso e despreparado, que deveria – ou deverá, dependendo do senso de prefeitos e governadores – ser o último a reabrir.

Digo a escola pública principalmente. Diferente das quatro paredes que chamam igreja ou cinema, ou restaurante, que têm lá suas dinâmicas para atender as suas clientelas, as quatro paredes do que chamam escola não foram preparadas para atender a um número reduzido de alunos sem ser presencial. As justificativas para isso são muitas.


“Os discursos de governadores – como sempre – desenham o mundo da Alice do modo mais perfeito possível”


Em tempos normais, apinham-se quarenta, cinquenta, sessenta alunos numa sala, quando não se ajeitam em puxadinhos para entupir mais outros trinta ou quarenta alunos, como acontece costumeiramente por esse Brasil dos absurdos. As tecnologias ainda fazem parte apenas do sonho que acende nos filmes de ficção, infelizmente.

Em tempos excepcionais, como o em que vivemos, fica difícil manter grande número de alunos em salas de aula, ainda que em alternância. As justificativas para esse impedimento também são várias, somente quem vive a realidade cotidiana “normal” da escola entende por que os professores temem retornar às aulas quando a pandemia ainda não está controlada e o risco de contágio é grande, segundo especialistas – os especialistas da ciência, não os especialistas das receitas de cloroquinas.

As aulas à distância, realidade para poucos, deveria ser a solução, mas nem com isso se pode contar, dadas as condições de maioria dos alunos que não dispõem de internet ou de aparelhos dos quais se sirvam para ter acesso às aulas. Dados os descasos com a educação que escorrem há quinhentos anos.

Os discursos de governadores – como sempre – desenham o mundo da Alice do modo mais perfeito possível. Entretanto sabemos que a realidade é outra. E nem precisa ser professor para certificar-se de que as condições sanitárias, hoje, das escolas e da maioria dos brasileiros são precárias.

Sem testes para avaliar as condições de saúde dos professores e alunos, sem condições mínimas de higiene – nas escolas públicas banheiros e bebedouros são coletivos e muitos deles dependem dos ajeitos dos gestores e professores para manter a limpeza e funcionamento em mínimas condições – não dá para confiar na sorte ou na miopia do vírus.

Embora governadores e prefeitos façam alarme de que não faltarão materiais de limpeza, de higiene e de proteção para alunos e professores, quando se sabe tudo não passa de propaganda barata e canalha, de resto ficam os problemas para a escola e para os professores, estes os maiores expostos aos riscos.

É preciso planejar o retorno das aulas, isso é consenso. Mas é preciso ter a certeza de que esse retorno será seguro e sem colocar em risco milhares de vidas, que não se limitam às de alunos e professores, mas de todos aqueles que estão direta ou indiretamente ligados à escola. Não dá para comparar escolas com shoppings e parques de diversão.

Não dá para comparar a escola pública com as escolas particulares, que mesmo em tempos ditos normais dispõem de condições estruturais melhores que as escolas públicas. Se se toma a régua com que se medem as escolas particulares para medir as escolas públicas, toma-se a medida errada, absurdamente errada. Sabemos disso, não precisam de metáforas, muito menos se deve esconder na hipocrisia.

 

As escolas pararam há cinco meses. Já sopra uma brisa de que até dezembro as primeiras doses de vacina poderão ser colocadas à disposição da população.

Então, entre arriscar a tragédia e aguardar, com calma, o momento certo de voltar é preferível que se espere mais um pouco. E que os governantes, se querem ratificar que seus discursos em defesa da educação são verdadeiros, então que priorizem alunos e professores como aqueles que serão atendidos tão logo a vacina esteja à disposição.

Sem a certeza de segurança, sem condições mínimas para retorno às aulas, contando apenas com a sorte, não dá para insistir, quando o inimigo não demonstra qualquer sinal de cansaço e recuo. Governo nenhum, saber nenhum, conhecimento nenhum substituirão a vida e a perda.

Nessa guerra, em cinco meses, já perdemos quase 100 mil vidas. Cuidado e consciência são necessários. Que os tenhamos. A escola não pode servir de espaço de extermínio daqueles que dão sentido à sua existência.


— * Joaquim Onésimo F. Barbosa é professor. Doutor em Sociedade e Cultura na Amazônia. Escreve regularmente neste blog.

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5 Comentários em: Os inimigos da escola. Por Joaquim Onésimo Barbosa

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  • J. Pau nos políticos canalhas disse:

    De pleno acordo, visto que a possibilidade contágio aumenta sem falar nos diversos grupos de risco entre discentes, docentes e pessoal administrativo das Escolas.
    Cabe lembrar, que devido a pandemia milhões perderam seus empregos e a migração de alunos da rede privada para a pública deverá ser considerável. Quanto a rede privada acho que terá que funcionar à distância por enquanto e até mesmo a pública já segue esse caminho com entrega de materiais impressos com atividades elaboradas por Professores (as) de acordo com o currículo.
    Deixo claro que em minha concepção de vida em sociedade Educação, Saúde, Sistema de Transportes, Energia, etc., devem ser atribuições do Estado , ou seja, sem fins lucrativos reservando-se em certos casos uma possível parceiria com o setor privado, que sempre vive na sombra do Estado. Aliás, os grandes capitalistas querem o Estado só pra si, basta ver…

  • Soraia disse:

    Concordo totalmente. Só quem não conhece famílias que perderam jovens e crianças para a COVID pode querer a volta as aulas.

  • Romy Eduardo Ferreira Castro disse:

    Joaquim é sempre muito sensato e preciso.

    1. Jeso Carneiro disse:

      Concordo.

  • Janaina disse:

    Perfeito!