Que país é esse?, por Helvecio Santos, RJ

Rio de Janeiro, suja e violenta

por Helvecio Santos (*)

Na madrugada de 23 de junho de 2007, num ponto de ônibus da Avenida Lúcio Costa, mais conhecida pelo antigo nome, Sernambetiba, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, uma empregada doméstica aguarda condução para, antes do trabalho, ir a uma consulta médica.

Cinco jovens de classe média alta, moradores de condomínios de luxo do bairro, descem de um carro e barbaramente a agridem, zombam e roubam-lhe a quantia de R$ 47,00 e o celular, precioso único bem que carregava.

Pelo cuidado de um taxista que vê o dantesco espetáculo, a polícia chega aos cinco bandidos e os prende. Numa das visitas à carceragem um dos pais, pesaroso, diz: “são crianças, coitados!”.

Este crime cometido há mais de 10 anos é só uma foto 3 x 4 para onde políticos corruptos, justiça paquidérmica, blocos carnavalescos de Preta Gil, das Poderosas e outros mais com seus bêbados mijões, vandalizando o pouco que resta, levaram a outrora Cidade Maravilhosa.

Hoje o Rio de Janeiro é uma cidade suja, mal cuidada, com obras das Olimpíadas e da Copa do Mundo inacabadas, abandonadas ou inservíveis por falta de conservação.

Soma-se a isso, trânsito caótico, ruas esburacadas e tomadas por camelôs, policiamento desmotivado e desrespeitado e, no meio de tudo isso, a população acuada por bandidos, tanto os de colarinho engomado e caneta nas mãos quanto os de armas letais a tiracolo.

Guardadas as peculiaridades de cada localidade, esse é o retrato de todo o Brasil.

A televisão repete à exaustão e são comuns cenas dos antigos engravatados conduzidos em camburões, como também são comuns as cenas da tarde do dia 18 de janeiro de 2018, uma quarta feira, quando uma carreta é roubada e levada para a favela Gogó da Ema, em Belfort Roxo, Baixada Fluminense, e logo após, saqueada. Após intenso tiroteio, a polícia consegue recuperar a carreta.

Isto é o Rio de Janeiro e nesse Brasil varonil de “malas recheadas”, tanto as de rodinhas quanto as amontoadas em apartamento, roubo de carga soa quase como normal e aceitável. Já faz parte da rotina.

Mas, fica a pergunta: E quando o roubo de carga acontece num estado como o Paraná, numa cidade distante dos grandes centros? Será indicação de que o corpo está septicêmico? Que a podridão é geral?

Dia 18 de fevereiro de 2018, domingo, uma carreta com 27 toneladas de carne tombou na PR-092, em Wenceslau Braz, norte do Paraná. A carreta foi arrombada e toda a carga saqueada por cerca de 2 mil pessoas.

Se a localidade chama a atenção, há algo mais preocupante. Pasmem! A fotografia estampada nos jornais mostra que os ladrões – sim, porque são ladrões mesmo – são pessoas bem vestidas, alguns com vistosos tênis e outros com aconchegantes casacos de grife internacional.

Choca ainda mais a naturalidade e o fato de não haver qualquer gesto de crítica ao vergonhoso saque. O nível de indignidade baixou tanto que havia solidariedade na safadeza. Parecia uma grande festa paroquial e enquanto uns riam, outros ajudavam-se mutuamente, o que leva a crer que no consenso geral aquele tipo ilícito é tido como aceitável pela população.

O caminhoneiro, ferido, foi encaminhado a um hospital.

No discurso “socialista politicamente correto” de considerável parcela da população, os roubos e saques de carga são praticados por pessoas pobres, “vítimas da sociedade capitalista” que assim agem porque a sociedade não lhes deu oportunidade.

Na minha opinião, esse é um discurso extremamente conveniente para manter em “curral eleitoral” as “vítimas da sociedade capitalista”, o que é do interesse da dita “esquerda”.

Penso que o problema seria atacado com a oferta de melhores escolas, mas isso é solução a longo prazo. A curto prazo, e que deveria se perpetuar, é necessário uma Justiça mais rígida, com mudanças nas leis penais, sem tantas benesses e facilidades, duas pautas que não estão presentes no discurso do Planalto.

Assim, sem escola de qualidade e sem Justiça rígida, como os de cima roubam, os de baixo não se sentem comprometidos com o Brasil, não se sentem donos do país e copiam os de cima, roubando o que podem, o que é pouco e menos violento se comparado ao que é roubado pelos “de caneta em punho”.

E não me venham dizer que a pobreza gera violência. Isso é balela!

Na época em que foi vítima da agressão, a empregada doméstica morava em Imbariê, Duque de Caxias, município da Baixada Fluminense. Até hoje é um bairro pobre, onde em quase sua totalidade esgoto corre a céu aberto e crianças brincam em meio a lixo.

É sabido que flores também nascem no pântano e da exposição do episódio e da vida das vítimas, conclui-se, é o caso.

Apesar da dor física e moral a que os riquinhos marginais covardemente submeteram Sirlei, numa das muitas lições que nos deu, corajosamente disse: “Quero que meu filho tenha uma boa instrução, não só na escola, mas em casa. Quero que aprenda a ser um bom ser humano, e ser uma pessoa do bem”.

Pedreiro, o pai de Sirlei criou mais quatro filhos e nos revelou o segredo de uma família carente de “ouro”, mas rica em dignidade, quando disse: “Não adianta ter educação na escola se falta carinho em casa”, e completou: “Eles (os agressores) poderiam ser filhos de um Brasil melhor”.

A culpa da violência que campeia no Brasil vem do exemplo de cima, da falta de escolas de qualidade e de uma Justiça “meia boca”. Pobreza e violência não são faces de uma mesma moeda.

Três pilares sustentam um grande país: Família, educação e Justiça. Os dois primeiros formam e o último garante a integridade do país.

Não iremos a lugar algum com a família padronizada pelas novelas e reality shows da televisão, rainha do lar; com a educação sob a orientação social bolivariana e uma Justiça paquidérmica e do faz de conta.

Renato Russo continua atual: Que País é Esse?

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* Santareno, é advogado e economista. Reside no Rio de Janeiro. Escreve regularmente neste portal.

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3 Comentários em: Que país é esse?, por Helvecio Santos

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  • Osvaldino Alves Pereira disse:

    A direita política governou esse país por 500 anos. Nunca se preocupou em criar condições para melhorar a vida dos mais necessitados. A educação era para poucos.. Aliás, em certos tempos era para pouquíssimos!!
    E, por que só a esquerda é responsável por todos os males do país??!!
    Texto tendencioso e hipócrita!!

  • Herci Pessamilio disse:

    Como sempre Helvecio Santos toca fundo no cerne de nossos problemas, em artigo enxuto e esclarecedor. Parabéns!!

    1. Osvaldino Alves Pereira disse:

      A direita política governou esse país por 500 anos, e não construiu absolutamente nada em prol da população mais carente. A educação sempre foi para poucos. Aliás, em certas épocas, para pouquíssimos!!
      E por que só a esquerda política tem culpa?
      Textozinho tendencioso e hipócrita!!