Por que precisamos do feminismo. Por Regiane Pimentel

Eu costumo muito ouvir de mulheres a frase “ah, mas eu não preciso do feminismo”. Amada, você precisa sim, sem ele nem viva você estaria.

Nenhuma política pública que nos beneficie, que nos ampare, que nos proteja, veio pela boa vontade de algum governante, jamais. Não pense que em um belo dia, um dos nossos representantes políticos acordou e simplesmente decidiu que ia aprovar ou criar um projeto que nos apoiasse ou beneficiasse.

Regiane *

Isso é ilusão, gente, não romantizem meninas, homem nenhum quer nos tirar do lugar de submissão que ocupamos há séculos, seja seu marido, seja seu amigo ou qualquer outro homem ou político.

Então, eu lhes convido a pesquisar sobre qualquer lei que tenham feito a nosso favor e você vai descobrir que por trás disso houve muita luta, muita gritaria e exposição de várias mulheres e movimentos feministas.

Homens ocupam lugar de privilégio desde que o mundo é mundo. Essa posição que eles usufruem é a regra de nossa sociedade machista e sexista, os mantém seguros, faz com que eles ditem as regras.

Por que achas que eles iam querer deixar o mundo diferente? O mundo parece com os homens, e eles fazem isso acontecer. Eles votam de acordo com o seus interesses, diferente de nós que temos uma enorme dificuldade de votar em mulheres por exemplo.

 

O feminismo aborda e questiona esse privilégio que é dado aos homens dentro de nossa sociedade. Isso abrange nossas leis, nosso ambiente de trabalho, nosso convívio familiar, e tantos outros espaços. Essa questão do privilégio masculino está enraizada em todas as camadas possíveis, socioeconômicas e serve para nos manter em posição inferior e manter esse status que eles fazem questão de não abrir mão.

Eu poderia citar aqui milhares de exemplos sobre privilégios de gênero e o quanto isso nos afeta. Há divisão sexual no âmbito profissional em muitas áreas. A maternidade ainda nos coloca como as únicas capazes de limpar a fralda, somos nós que abrimos mão da carreira para realizar o sonho do parceiro.

Somos nós que somos demitidas quando retornamos para o nosso posto de trabalho, por que o mercado entende que mulher com filho produz menos. Somos nós que deixamos a faculdade de lado para cuidar do bebê, e as vezes nunca mais retornamos.

Somos nós que deixamos nossos sonhos de lado para realizar o sonho do marido. Por isso bato muito nessa tecla de que a decisão de ter um filho tem que ser mais, muito mais da mulher do que do homem, nunca esqueçam disso.


“O Brasil é o país na América Latina que mais mata mulheres. O Brasil é um dos piores países para se viver sendo mulher”

Não tenho nada contra a maternidade, mas é preciso alertar para a romantização que fazem sobre algo tão doloroso e solitário, falei bem sobre isso no artigo passado. A vida do homem não muda em nada quando ele se torna pai, a da mulher sim.

Nossa palavra ainda é questionada quando decidimos denunciar um assédio no ambiente de trabalho. Em crimes de estupro, ainda é comum que o magistrado em audiência também duvide do que falamos, e ainda nos julga pelo crime do qual fomos vítimas. O mesmo álcool que é justificativa para o homem quando pratica esse crime é o mesmo que condena a vítima por ser estuprada.

Nos matam apenas por nosso gênero. Nosso país é o quinto em taxa de feminicídio no mundo, crime de ódio cometido por nossos parceiros ou ex-parceiros que não suportam ouvir um simples “não”. O Brasil é o país na América Latina que mais mata mulheres. O Brasil é um dos piores países para se viver sendo mulher.

Esse lugar de privilégio que é dado ao homem, essa presunção de superioridade que a nossa sociedade patriarcal lhes concede, os autoriza a achar que somos suas propriedades e lhes devemos obediência, e está diretamente ligada aos casos de agressões e violência doméstica.

Não há um perfil para esse agressor como se imagina, independe de classe ou raça, a violência contra a mulher é um problema social.

A violência doméstica também está ligada à romantização do casamento. Essa ideia de que a mulher precisa de um homem, de que só será feliz e completa com um parceiro, isso tudo é gatilho para que mulheres aguentem relações abusivas e fracassadas achando que esse é o seu dever ou que nasceu para isso.

 

Volto a repetir: não precisamos de ninguém, pelo amor de Deus, somos seres completos e individuais. O casamento é uma das instituições mais opressoras que existem, mas vamos deixar esse tema para quem sabe, um próximo artigo.

Mas é necessário e urgente que ensinemos as nossas meninas que elas não nasceram em função do sexo masculino, que elas não precisam de marido ou filhos para se realizarem, que não vieram a esse mundo para agradar macho seja ele quem for, que são seres completos e autossuficientes e que podem se realizar em muitas outras áreas de sua vida sem a figura de um homem ao lado.

Segundo o Fórum Econômico Mundial, o Brasil é um dos quatro piores países da América Latina para ser mulher. Ainda somos maioria com nível superior e maioria também nas universidades, porém ainda ganhamos menos realizando os mesmos serviços e a mesma carga horária que os homens.

Quero ressaltar que as leis foram construídas por homens e para os homens, nosso sistema jurídico é extremamente patriarcal. Ainda tem a questão do serviço doméstico não remunerado que anula as mulheres.

O trabalho doméstico é construído pela doutrinação patriarcal e faz com que as mulheres entendam essa tarefa como um ato de amor, quando não é. Essa doutrinação que confundimos com cuidado familiar vai muito além de cuidar de filhos e limpar casa, é a manutenção do patriarcalismo, é anulação. Milhares de mulheres deixam seus sonhos e sua identidade de lado para realizar esse trabalho invisível e manter o capitalismo.

Bom, o movimento feminista vem questionando há muitas décadas todas essas pautas que citei acima. Muitas mulheres lutam para sermos vistas como seres humanos, para que nossos direitos sejam respeitados. Há milhares de mulheres fortes abrindo espaços para nós.

Sempre digo que feminismo não é clube da luluzinha, não é moda, feminismo é estudo, é militância, é política. Feminismo tem teoria, tem base histórica, e enquanto escrevo esse artigo têm dezenas de mulheres em algum lugar desse país brigando pelo meu e pelo seu lugar de fala.

É necessário que compreendamos como o patriarcado está bem organizado e estruturado dentro de nossa sociedade e como isso nos afeta, a nós, mulheres.

O feminismo questiona as estruturas patriarcais, o machismo e o sexismo como formas de opressão. Tem levantado várias questões nesse sentido, tem lutado para nos tirar dessa submissão social e política que nos foi imposta, e é por isso que o feminismo incomoda tanto os homens.

Você pode até não concordar com o feminismo, mas não podemos negar jamais o quanto esse movimento é importante e luta pela emancipação das mulheres em todas as camadas sociais. No mínimo, devemos respeitá-lo.


— * Regiane Pimentel é bacharel em direito, feminista e ativista social. Reside em Santarém (PA). Escreve no blog sobre feminismo.

LEIA também de Regiane Pimentel:

Epidemia de feminicídio escancara o machismo estrutural.

Machismo estrutural institucionalizado pelo STJ.

A história do feminismo e seus estereótipos.

Nota do editor: textos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais publicados no espaço "comentários" não refletem necessariamente o pensamento do Site Jeso Carneiro, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

Um comentário em: Por que precisamos do feminismo. Por Regiane Pimentel

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  • NADI CHAVES disse:

    REGIANE PIMENTEL.
    LI SEU ARTIGO GOSTEI VC FALOU CERTO. NÓS MULHERES TEMOS FERIDAS QUE CUSTAM SARAR.
    VÁ EM FRENTE DEFENDENDO AS FEMINISTAS SOFRIDAS.