A masculinidade tóxica e a cultura do machismo. Por Regiane Pimentel

Apesar de existirem traços de nossa personalidade que nascem com a gente e fazem parte de nossa essência, a sociedade possui um poder avassalador de moldar pessoas e formar indivíduos.

Nas sociedades patriarcais, ao homem foi e está sendo reservado o espaço público e o espaço do poder. Desde que o mundo é mundo os homens chefiam, caçam, decidem, constroem, produzem e provém as necessidades da família.

Regiane Pimentel *

Homens historicamente têm seu papel definido antes mesmo do seu nascimento, sendo assim isso prova que a masculinidade não é uma característica típica, inata e natural do homem, mas faz parte do processo de socialização e determina a aceitação e inclusão desse sujeito na sociedade enquanto pertencente a um gênero.

Quantos de nós já ouvimos as expressões “homem não chora” ou “homem que é homem não demonstra sentimentos”, entre outras? Quando é que um personagem masculino chora em um filme? Só quando perde o controle ou quando é sensível e romântico. Estamos acostumados a interpretar o choro de um homem como sinal de fraqueza e vergonha.

Nesse modelo de masculinidade a ser seguido, ressaltam-se as ideias de que o homem de verdade é solitário e reservado no que se refere às suas experiências pessoais. Mas os homens da sociedade contemporânea estão vivendo um momento de transitoriedade em suas identidades, o que podemos também denominar de crise. O homem estaria sendo colocado em xeque porque estaria perdendo a noção de sua própria identidade.

 

Recentemente saiu um estudo que durou nove anos, feito pelo americano Anthony Astrachan e que virou livro e que prova como essa socialização é prejudicial.

Nessa tese, ele explica que apenas 5 a 10% dos homens chegam perto de aceitar as mulheres como iguais, enquanto os demais expressam sentimentos de raiva, medo e até inveja. Vejam só: esse é um estudo sério que durou nove anos e até virou livro.

De alguma forma os estereótipos tradicionais de masculinidade inibiram a capacidade do homem de demonstrar afeto. Desde menino ele foi treinado pra isso, acreditou que faz parte da natureza masculina ser machão. Mas eles também estão começando a cansar pois essa busca os está levando à perda de autonomia, fazendo-os perder também a noção de sua própria identidade.

Apesar de a maioria dos homens ainda perseguir o ideal masculino da nossa cultura – força, ousadia, sucesso, poder, nunca falhar – , eles estão começando a se sentir exaustos e megulhando em uma crise existencial.

Em várias partes do mundo os homens já demonstram insatisfação em ter que corresponder ao que deles se espera, e discutem cada vez mais a desconstrução do masculino. Estamos presenciando a busca dos homens por um bem-estar psicológico ao se questionar o “homem de verdade” e o sentimento de inadequação que acompanham a máscara da masculinidade, por isso a busca por espaços de diálogos têm crescido, sejam eles reais ou virtuais.

Eles estão começando a entender que machismos são práticas realizadas por homens a partir de uma masculinidade tóxica, práticas realizadas contra outros homens, contra si, mas principalmente contra mulheres.

Homens, mesmo em pequenos números, estão questionando essa socialização machista por todo o mundo, a eles foi ensinado a responder tudo com violência, a não demonstrar sentimentos, a não chorar.

Esse processo de socialização que transforma meninos em homens “machos” impede que os homens tenham intimidade emocional com as mulheres, e é atrás disso que eles estão, mesmo timidamente. Eles estão confusos, e querem descobrir como ser amorosos e se isso é possível sem que interfira em sua masculinidade.

Segundo a Google Consumer Surveys 2018, 75% dos homens entre 25 e 44 anos nunca ouviram falar em masculinidade tóxica, e o termo “machismo no Brasil” pulou da 9ª posição para a 3ª em volume de busca no Google, crescendo 263% nos últimos dois anos.

Essa cultura do machismo adoece homens, e interfere diretamente e negativamente na vida das mulheres. Essa fragilização masculina provocada pelo machismo mata e precisa ser discutida urgentemente, pois traz prejuízos individuais e sociais para a mulher.

Essas práticas e valores tradicionalistas, sexistas e misóginos que se criou e se estabeleceu como uma de nossas bases culturais em decorrência de nossa base histórica precisam ser questionadas nos lares, nas escolas, nas famílias e nas igrejas, pois estão nos matando.

A partir de preconceitos e clichês criamos, entre outras coisas, a masculinidade tóxica, que vem matando mulheres pelo mundo inteiro.

Essa crise que esse homens estão atravessando em torno dessa masculinidade também nos interessa, sim, claro. Os casos de feminicídio estão ligados a essa cultura do machismo.

Homens que não sabem lidar com términos, com fins, com recomeços, com sentimentos, matam mulheres que os colocam nessa situação. Somos o país na América Latina que mais mata mulheres, estamos em quinto em taxa de feminicídio no mundo, a cada hora no Brasil mais de 500 mulheres são agredidas, a cada 11 minutos uma é estuprada, e 13 são assassinadas todos os dias, tudo isso por serem mulheres, apenas por seu gênero.

 

É necessário e urgente que a sociedade discuta isso, pode inclusive começar por nós.

É preciso que os homens compreendam que não faz mal demonstrar amor, que não há nada de errado em chorar, que tá tudo bem em terminar uma relação, que não precisa provar agressividade pra provar que é homem, que fazer afazeres domésticos não limita sua heterossexualidade, que é normal levar um não de uma mulher, da vida, ou de qualquer outra pessoa, e que é preciso ter consentimento para tocar uma mulher.

Essas questões precisam urgentemente ser tratadas como normais, como comuns, por que enquanto são vistas como tabus mulheres pagam com a própria vida.

Essa barreira histórica patriarcal e colonialista que embasou e ainda embasa nossa organização de gênero tem que ser extinta.


— * Regiane Pimentel é assessora do DEM, bacharel em direito, feminista e ativista social. Reside em Santarém (PA).

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