
Recentemente, um colega publicou um artigo com o título Educação civiliza, não a força, em clara contestação ao artigo que publiquei intitulado Rio de Janeiro: em determinados momentos, só a força civiliza.
A negação peremptória da importância da força na promoção da civilidade em contextos sociais similares ao estado de natureza hobbesiano e a eleição da educação como única força civilizatória da humanidade faz parte de um discurso galanteador com o qual parte da esquerda se acha investida de um charme irresistível, como típicos iluministas capazes de mudar a natureza humana e o mundo através da força das ideias, da razão, da luz do espírito. Mas, será se, na prática, isso se aplica?
A crença na força das ideias como único instrumento civilizatório e revolucionário é kantiana e não marxista. Apesar de delegar às ideias um papel central na construção de uma consciência de classe, Marx defende que essa consciência deve estar alinhada com um propósito revolucionário que use não apenas “a crítica como arma”, mas, acima de tudo, “as armas como crítica”.
Por isso, em 1850, na “Mensagem da Direção Central à Liga dos Comunistas”, Marx e Engels afirmaram: “Sob nenhum pretexto as armas e munições devem ser entregues; qualquer tentativa de desarmar o povo deve ser interrompida, pela força, se necessário”.
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Sabemos que Kant é o expoente máximo do iluminismo europeu e que o iluminismo foi a revolução ideológica da burguesia. Logo, é plausível concluir que nosso colega esteja pensando em uma revolução burguesa entre membros da classe trabalhadora e o lumpemproletariado das periferias das grandes cidades brasileiras.
Sejamos honestos, entretanto, ele não mobiliza Kant, mas Darcy Ribeiro e Brizola para sustentar seu argumento. O receituário, entretanto, é o mesmo: a deposição das armas para fazer revolução através da educação, das ideias, do charme do discurso bem alinhado, racional, científico, esclarecido.
O problema é achar que a Ciência se encerra aí. Outro, é não encontrar nesse suposto discurso científico fortes indícios de mera retórica cheia de boas intenções, mas, também, cheia de lacunas que a complexidade do real e da natureza humana insiste em denunciar.
Uns chamariam a isso de meias-verdades, mas, para manter a pomposidade e o charme intelectual, chamarei pelo temo correto: aforismo. Foi por conta da complexidade do real que fiz questão de sublinhar em meu artigo: em determinados momentos só a força civiliza, não disse em todos os momentos.
Momentos em que a sociedade se encontra imersa em “estado de natureza”, para usar o termo hobbesiano, ou de anomia generalizada e desintegração social, para usar termos durkheimianos, isto é, em uma situação de fraqueza ou ausência do Estado, de instituições sociais fortes, sitiada pela violência, pelo medo, pela insegurança, pela barbárie, somente políticas de força bruta podem restituir um ambiente mínimo de segurança através do qual a civilidade volta a prosperar.
A partir daí, sim, a educação se torna fator crucial de desenvolvimento humano e civilizatório. Quiçá, pode se tornar, até mesmo, uma força revolucionária.
A complexidade da natureza humana, por sua vez, nos ensina que os homens não são naturalmente propensos apenas à bondade, como nos ensina Rousseau, mas, também, à violência, à ambição, à ganância, ao ódio, à corrupção, ao egoísmo, à traição etc., como nos ensinam pensadores realistas como Tucídides, Maquiavel, Hobbes, Marx, Hans Morgenthau etc.
Achar que o que move as pessoas ao crime seja apenas falta de oportunidade social e de acesso à educação é não somente um aforismo, mas, também, uma ingenuidade. Achar que a educação muda essas pessoas, outra grande ingenuidade. Ambas as posturas desprezam a expansão das oportunidades sociais, assim como a força do ódio, da ambição, da corrupção, do desejo de poder, da ganância, da propensão à violência como indutores do comportamento criminoso. Outras condições mentais, como a psicopatia, também são desprezadas por esse modelo.
Com tantas variáveis ausentes deste modelo, seu poder de explicação científica, racional, é, no mínimo, incompleto e ineficiente.

A realidade está cheia de exemplos de pessoas que são presas, soltas, encontram oportunidades sociais, empregos, estudo, mas voltam a cometer crimes. Recentemente, um youtuber ingressou num curso das Ciências Humanas da UnB e, mesmo tendo acesso a aulas com doutores eruditos, seu comportamento era de mero deboche ao conteúdo destas, que julgava pelo seu viés ideológico como sendo de esquerda.
Mas, nessa direção, eu faria outras perguntas ao nobre colega de profissão: então, foi a educação que civilizou os nazistas e fascistas na Segunda Guerra Mundial? Foi a falta de oportunidade educacional que criou a Ku Klux Klan? Seria possível enfrentar os neonazistas com a propagação de conteúdos educacionais que eles desprezam e odeiam? Foi a educação que civilizou o Estado Islâmico? Foi a educação que civilizou Idi Amin Dada? Foi ela quem civilizou as gangues de El Salvador? E os escravocratas do sul dos EUA no século XIX, foi a educação que os civilizou? Poderíamos elencar inúmeros outros exemplos, todos nessa direção.
Em verdade, no Brasil, a maior parte da esquerda é idealista, romântica, vítima de um marxismo cultural mal deglutido e de um narcisismo freudiano. Tal esquerda está totalmente despreparada para enfrentar, através da força, qualquer oposição armada, como possíveis núcleos da extrema direita, assim como o banditismo extremo que vítima, principalmente, trabalhadores pobres que essa esquerda diz defender.
Acha que a crescente multidão de bandidos que ameaça esfacelar o tecido social estará de mãos dadas com ela numa luta de classes, não compreendendo que estas pessoas não se movem por projetos, desejos, valores e ideias de emancipação social e humana, mas, fundamentalmente, pelos instintos humanos mais degradados já enumerados acima e pelo desejo de se dar bem a qualquer custo.
Em resumo, a esquerda narcísica se sente seduzida pelos seus próprios discursos charmosos, sedutores, galanteadores e acha que pode conquistar até os espíritos mais degenerados e corrompidos com tais discursos. É preciso, entretanto, olhar para além do espelho para ver se não está pregando no escuro, pois, desse modo, tal esquerda vai acabar produzindo um Bukele no Brasil com esse discurso e posicionamento romântico, ingênuo e dissociativo sobre a criminalidade.

∎ Válber de Almeida Pires, paraense, é doutor em sociologia. Escreve regularmente no JC. Leia também dele: Perigo: médicos brasileiros se declaram negacionistas e terraplanistas. E ainda: O poder evangélico nas investidas sobre os conselhos tutelares. E mais: A decisão de Moraes contra o estado de natureza.
∎ Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião do JC. A publicação deles obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros, prioritariamente, e de refletir as diversas tendências do pensamentos contemporâneo.
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