Procissão dos Mastros da Festa do Sairé 2010
por Florêncio Vaz (*)
O Sairé proporciona mesmo cenas poéticas e transcendentais, como a foto das canoas em filas cortando o rio, e como os rostos dos idosos(as) devotos(as) diante da imagem do Divino Espírito Santo durante a ladainha na noite de 5ª feira.
Pena que nessas ocasiões pouca gente está ali para ver. A grande maioria chega mais tarde para as apresentações dos artistas de fora da região e dos botos. E afirma que foi ao “Sairé”. Na verdade, essas pessoas foram a um outro Sairé que acontece simultaneamente ao antigo e verdadeiro Sairé. Não que os botos sejam uma festa falsa ou ilegítima. Os botos estão aí, têm o seu lugar, e isso é indiscutível. Estou dizendo simplesmente que o Festival dos Botos não é o Sairé. Até a prefeita Maria do Carmo falou isso em um jornal local nesta sexta-feira. O assunto é meio chato, mas eu vou falar.
O Sairé de Alter do Chão, a continuidade histórico-cultural das antigas práticas locais, ainda existe, mas está seriamente ameaçado. Na 5ª feira à noite, na ladainha, só vi qase senhores(as) bem velhinhos. Seu Servito (que canta folias) e mais uns dois precisavam sentar de vez em quando para descansar. Dona Maria Justa (a famosa Saraipora que carrega o Sairé) falou que ficou doente faz poucos dias, e estava ali com muito esforço e porque Deus ouviu suas preces. O antigo juiz da festa, Sr. Sardinha, faleceu ano passado.
E os jovens? Havia alguns adolescentes ali. As moças que seguravam a fita da Saraipora estavam deslocados e com o olhar distante, como se a sua praia fosse outra. Perguntei pela outra “moça das fitas” que sempre aparecia ao lado de Dona Maria Justa nos anos anteriores, e disseram-me que ela se tornou evangélica, e por isso deixou o posto.
Alguns dos rapazes que estavam como mordomos ou foliões riam e coxixavam entre si, como se a ladainha que acontecia lhes tocasse muito pouco. Estavam talvez pensando no outro Sairé, o dos botos. E as outras pessoas de Alter do Chão? Estavam trabalhando (como cozinheiras, garçons, artesãos etc.) em função do Sairé-espetáculo, aquele que é voltado principalmente para os visitantes, e onde cabe aos nativos primeiramente trabalhar ou se “apresentar”. Relaxar mesmo, só na Varriação, na 2ª feira, quando os visitantes já deixaram Alter.
Assim que esse velhinhos morrerem, o Sairé de Alter do Chão… se não morrer também, continuará apenas como uma caricatura, uma encenação mal feita apenas para turistas verem (o que de fato, já acontece em parte). E os botos continuarão, como parte de uma festa que só no nome será “Sairé”.
Assim será, a menos que se tome uma atitude agora. Uma das saídas para garantir a sobrevivência do Sairé de Alter do Chão seria a separação entre botos e Sairé (isso já foi falado aqui no blog), já a partir de 2011. Boto em setembro, e Sairé poderia voltar para a data antiga. Que decidam os defensores do Sairé, não os burocatas, políticos ou os empresários.
Na prática, as duas festas nunca de juntaram e continuam separadas, e apenas por força da circunstância acontecem na mesma época e lugar. Cada uma faz parte de uma lógica distinta, e as pessoas que valorizam uma ou outra sabem disso. Os mais idosos que cantam a ladainha em latim e beijam as fitas amarradas na imagem do Divino Espírito Santo, enquanto escutam o baque das caixas (tambores), o fazem porque isso tem um profundo sentido na sua cosmovisão e no seu modo de vida, herdados na sua infância ainda nas décadas de 1940-50: devoção aos santos, reciprocidade e gratuidade (comer e beber juntos, por exemplo), festa como o encontro de pessoas que se re-conhecem próximas, festa como síntese do lúdico e do devocional (essa dicotomia “religioso X profano” vem da cabeça dos padres, que os tapuios e o povo nunca engoliram) etc. E esse padrão festas de santo não é uma coisa do passado e nem de pequenas vilas. Basta ver Sant’Ana, em Óbidos e Arapixuna, São Bendito, em Gurupá e Nazaré, em Belém.
A outra lógica, onde os botos estão, é a festa-espetáculo grandiosa, que reúne a massa, do gringo ao índio, para assistir apresentações folclóricas ou de bandas e artistas-celebridades e para consumir, e consumir bastante. Aí, é só a bagaceira mesmo. Este é um padrão que chegou e já ficou em todo o Norte (Bois, Cirandas, Tribos, Botos etc.), cada festival divulgando que é “o maior” da Amazônia. Isso é um fato. Nesse padrão, o papel que cabe aos nativos é produzir (artesanato, comida, danças…), servir e apresentar aos outros: trabalhar é preciso, divertir-se… só depois da festa.
O Sairé que os moradores de Alter mantiveram até hoje foi uma festa onde o objetivo maior era a diversão, beberagem e comilança, uma brincadeira. Mas tudo isso era para eles mesmos. Não era para “apresentar” a ninguém. E ainda hoje, os velhinhos-heróis-da-resistência e seus simpatizantes seguem fiéis a esse tipo de festa.
Os botos e seus donos já se serviram do Sairé para ganhar espaço. Agora, poderiam deixá-lo em paz. Os botos não precisam mais do Sairé, nem do nome sequer. Que continuem como Festival dos Botos, e ponto. O verdadeiro Sairé não precisa dos botos. Quem disse que o Sairé vai morrer se for separado dos botos? Essa cultura já enfrentou conjunturas bem mais hostis, e se manteve de pé. Morte certa será continuar sufocada pelos botos.
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É sociólogo e professor-doutor da UFOPA (Universidade Federal do Oeste do Pará).

Muito sábia a analise do Florencio, a verdadeira festa do Sairé deve ser deixada em paz pelos botos, voltar a sua data original que é em Julho, o Sairé é uma festa dos nativos, deles e pra eles, independe de nós turistas, seja de fora ou daqui, de dentro de Santarém. Já o encontro dos botos não precisa mais da marca Sairé, pode viver em paz no mes de setembro, só que ainda tenho a opinião que o boto deverá se transformar em uma Ópera Cabocla, a musica e a coreografia juntas contando a história do namoro do boto homem com a cabocla, do nascimento e da morte do dito cujo, em uma grande festa tendo como convidados as lendas da Amazônia, a Cobra Grande, Matinta Pereira, a Curupira, Cunhã e Marupiara, Iara, Curupira, e outras… Enquanto que o ritual do Sairé deverá voltar a ser na praça, pois o Sairé sempre foi uma festa de confraternização, e nada como uma praça para isso, uma festa para se participar, se confraternizar e não para assistir.
ESTRATÉGIA MARIADOCARMIANA
Gostaria de abrir em parênteses nessa geniosa reflexão trazida por Florêncio Vaz. Essa pausa se dá justamente, em função desse maravilhoso evento que ocorre em Alter-do-Chão neste período do ano.
A questão é a seguinte: tenho ouvido muitos comentários elogiosos com relação à festa no que tange a questão de organização, os atrativos do evento, segurança e por aí vai… Algo que não vejo nenhum demérito em dar a césar o que é de césar. A prefeitura com certeza é a principal beneficiada com esses comentários.
Porém, convém lembrar que a prefeitura, e a gestora faz questão de lembrar isso, está assumindo esse ano, a coordenação do Sairé.
Cabe perguntar: e nos outros anos não assumiu, não? Ou seja, parece que a história só começou agora, parece que a prefeitura só começou agora. Quer dizer que nos anos anteriores o poder público municipal estava só na arquibancada vendo o trio passar, vendo a Duetto fazer as suas marmeladas sem nenhuma influência nisso? Paresque que o Everaldinho não influenciou em nada na escolha desta empresa, né? Paresque que a prefeitura NÃO TEVE NENHUMA RESPONSABILIDADE NOS ANOS ANTERIORES, É?
Quando o negócio tava ruim a prefeitura tirou o corpinho fora, agora quando tá ficando bom o negócio aí ela aparece como a grande mãe…
Muito linda a visão q o fotografo teve em capturar essa imagem.
Dentre os muitos artigos e notícias que leio diariamente neste blog, poucos retrataram de forma tão original e legítima o retrocesso pelo qual passa a mentalidade cultural local do cidadão santareno. Para não ser repetitivo, não vou estabelecer comparações entre o que é Cultura e o que é atrativo comercial. Subjetivamente o autor já o fez de forma sutil e inteligentíssima. A fim de contribuir com a linha de raciocínio desse autor tão genial, apenas acrescento ao texto um breve diálogo que tive com um amigo que acabara de chegar em Santarém, vindo de Alter neste final de semana. A reflexão fica por conta dos leitores.
“- E ai, fulano, foste ao Sairé?”
“- Pois é, rapaz, fui sim. Voltei de lá hoje. O Show do ***** foi ótimo!
“- Mas e o ‘ritual’ lá das fitas, da Saraipora e tudo mais? Como foi? – expliquei brevemente o que havia durante o dia além da apresentação dos Botos e dos shows.
Eis que recebo a resposta:
“Tem isso lá, é?”
Pois é, caros amigos. Muitos de NÓS, cidadãos santarenos, mal sabemos que existe uma manifestação religiosa que precede o festival dos botos e os shows de outros artistas. E até eu, um bacharel curioso, jamais conseguiria explicar, sequer, o que é o Sairé, de fato.
Fica então a dica para que possamos ir atrás e aprender um pouco mais sobre nossa própria história. Quem sabe, assim, possamos ter mais orgulho do que é nosso e consigamos, ao menos, explicar aos outros o verdadeiro significado de tão rica e viva manifestação cultural amazônica – mesmo que correndo o risco de ser extinta – e a importância de mantê-la viva.
Parabéns Florencio pela lúcida análise do Sairé. De fato, os criadores do festival dos botos, ao trazer essa modalidade, influenciados pelos bois de Paratins, pegaram carona de uma legítima festa cultu-religiosa. Os botos já estão criados, já podem andar com as próprias pernas, digo, com os próprios rabos. Passa da hora do Sairé original ter sua devida atenção e incentivo, antes que junto com os velhinhos a festa logo se acabe. Ganham todos, os botos, Alter do Chão e Santarém.