por Ib Sales Tapajós (*)

Recentemente os veículos de comunicação de Santarém noticiaram que os empresários do transporte coletivo da cidade negociam com a Prefeitura Municipal de Santarém um reajuste da tarifa de ônibus. Mais uma vez a proposta do reajuste tarifário foi feita na esteira da campanha salarial do Sindicato dos Rodoviários, que este ano pedem 12% de aumento em seus salários, além de outros benefícios.

O Sindicato das Empresas do Transporte Coletivo de Santarém (SETRANS) alega que só poderá reajustar os salários dos trabalhadores caso o poder público municipal majore o preço da passagem do transporte público coletivo. Além do mais, os empresários alegam que o preço da tarifa de Santarém está defasado, devido à elevação das despesas necessárias à operacionalização do serviço.

Até aí nenhuma novidade. Os empresários sempre usaram esses argumentos em todos os anos que exigiram da prefeitura aumento do valor da passagem de ônibus. Porém, este ano o SETRANS escolheu um novo alvo central: a tarifa paga pelos estudantes de Santarém, atualmente no valor de R$ 0,65.

Vale lembrar que a meia-passagem estudantil foi congelada pela Prefeitura de Santarém em 2008, ano em que a tarifa integral passou de R$ 1,30 para R$ 1,50, sendo mantida a tarifa dos estudantes em R$ 0,65. Em 2009, novamente o preço da passagem aumentou, dessa vez para R$ 1,70, e o preço da tarifa estudantil permaneceu o mesmo.

Longe de representar um “presente” da prefeita Maria do Carmo, o congelamento da meia-passagem dos estudantes significou uma grande conquista do movimento estudantil santareno, que durante vários anos foi às ruas para repudiar os sucessivos reajustes tarifários, decretados pela prefeita sem nenhuma contrapartida na prestação do serviço, isto é, sem nenhuma melhoria efetiva no transporte público do município.

Desta forma, o que este ano os empresários de ônibus tentam derrubar não é pouca coisa: trata-se de uma das principais conquistas alcançadas pelos estudantes na história recente de Santarém.

O congelamento tarifário foi fruto do esforço coletivo de centenas de estudantes, universitários e secundaristas, que se levantaram contra as mazelas de um serviço de transporte extremamente precário, que conta com veículos sucateados, linhas mal-planejadas, frota insuficiente frente à demanda da população, etc. E, o que é pior, um serviço caro, inacessível a uma expressiva parcela do povo santareno, cuja renda por vezes não dá conta de arcar com R$ 1,70 por uma passagem de ônibus.

Sendo assim, é imprescindível que o acesso dos estudantes ao transporte coletivo seja barateado ao máximo, a fim de que possam eles se deslocar com facilidade não apenas para suas escolas/universidades, mas também para estabelecimentos culturais, esportivos, recreativos, tendo em vista a concepção moderna de educação como um processo de formação integral, que não se resume à sala de aula.

Em 2008, os estudantes santarenos conseguiram uma importante, mas limitada vitória. Limitada porque ainda há muito por conquistar. Vários municípios brasileiros já instituíram o passe livre estudantil, a exemplo de Brasília (DF), Suzano (SP) e Vitória (ES).

No ano de 2005, os estudantes de Florianópolis (SC), protagonistas da famosa Revolta da Catraca, conquistaram o direito ao passe livre, que posteriormente foi negado em virtude de uma manobra dos vereadores. Mesmo assim, o Movimento Passe Livre (MPL) seguiu firme em Florianópolis e em vários outros municípios, como Porto Alegre, São Paulo e Salvador.

Em Santarém, o movimento estudantil deve levantar decididamente a bandeira do passe livre, para que todos os estudantes deste município tenham acesso garantido ao transporte coletivo, sem que isso comprometa a sua renda familiar.

Sendo assim, a proposta dos empresários de ônibus de Santarém de cancelar o congelamento da meia-estudantil reveste-se de um caráter claramente reacionário, porquanto visa retroceder em conquistas sociais alcançadas por intermédio da luta histórica dos estudantes santarenos.

Nossa entidade, a UES, foi parte fundamental do processo de luta que culminou no congelamento da meia-passagem. Não aceitaremos qualquer ataque ao nosso direito historicamente conquistado. Voltaremos com força às ruas para barrar esse indicativo de aumento da tarifa de ônibus. Contaremos para isso com estudantes (universitários e secundaristas), sindicatos, associações de moradores, movimentos sociais e todos aqueles que não querem ver a história andar para trás.

Nenhum direito a menos! Às ruas, estudantes de Santarém!

– – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – –

* É coordenador geral da União dos Estudantes de Ensino Superior de Santarém (UES).

Nota do editor: textos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais publicados no espaço "comentários" não refletem necessariamente o pensamento do Site Jeso Carneiro, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

8 Comentários em: Nenhum direito a menos no transporte

  • Ib, sou a favor do barateamento das passagens para os estudantes por vários motivos que conhecemos e você cita alguns, mas se você fosse um empresário dono de empresa de ônibus você permitiria a gratuidade? Tem idéia de quanto os estudante lotam e são importantes para o faturamento (que paga funcionários e outras despesas) da empresa? Por favor me explique em que voce se baseia, qual a fonte técnica de que é possível oferecer gratuidade a estudantes por empresas de transporte coletivo.

    • Se não houver a gratuidade, pelo menos que se mantenha o atual valor da tarifa. Quanto a fonte técnica, apenas um fator pode se destacar. As péssimas condições do transporte coletivo e uma frota sem qualquer condições é determinante para tal solicitação. Estou de OLHO!!!

    • Anônimo, em nenhum momento falei que os custos do passe livre devem ser arcados integralmente pelos empresários. Aliás, nas cidades que citei é o poder público (Estado e/ou Município) que financia majoritariamente a isenção dos estudantes.
      Não temos (ainda) uma planilha técnica para demonstrar a viabilidade financeira do passe livre em Santarém. Porém, minha intenção com este artigo não era fechar a questão, e sim iniciar o debate de um tema de fundamental importância para os estudantes santarenos.

  • Não interessa uma explicação! Tudo que colabore para facilitar a formação dos estudantes pobres, que dependem de ônibus, de Santarém, é muito válido. Essa é uma conquista que já foi alcançada por várias cidades e não vejo pq Santarém não aderir. Tá com pena dos empresários? Eles nem andam de ônibus!

  • A gratuidade da passagem é realmente algo complicado, ainda mais em uma cidade em que o volume de passageiros não é tão grande.

    Temos que lembrar que recursos não nascem em arvores, e que para todo e qualquer serviço existe um custo para ser prestado, seja este serviço público ou privado.

  • Muito bem colocado.

    O “Direito à Educação” tem que a abranger o seu conjunto e não apenas algumas partes.

    Cresces, Alimentação, Equipamentos, Instrumentos Pedagógicos etc… e porque não o transporte?

    Não sei se a gratuitidade é a solução, mas os estudantes (sua família) não deveriam paga nadar mais do que uma passagem “SIMBÓLICA”.

    Temos que quebrar paradigmas.

    Como o “Bolsa Família” quebrou a “cultura mercantilista” da pobreza. Está na hora de “acelerar” na educação e empresário tem sim que contribuir, como qualquer outro cidadão..

    Tiberio Alloggio

  • A gratuidade da passagem de ônibus em Santarém e em qualquer outra cidade no Brasil é uma proposta bem colocada e necessária. O transporte é uma necessidade e também é um direito do cidadão. O serviço é prestado por terceiros, empresários, pelo instituto da concessão pública. Sabemos que os empresários de ônibus exploram uma atividade comercial, com objetivo de lucro. Com certeza absoluta não estariam desenvolvendo esta atividade se o negócio não fosse rentável. Na planilha de custo constam: salários, encargos sociais, impostos, manutenção, combustível, gratuidade social, etc. E o custo do usuário, quem vai arcar? Onibus caindo aos pedaços, motoristas e cobradores mal humorados e mal preparados, nem sempre cumprem o horário estabelecido, órgãos fiscalizadores inoperantes. Esta claro que todo este custo colocado não é realizado. É o povo mais necessitado é o mais prejudicado e onerado em seu orçamento, tendo que buscar outras alternativas de transportes. O que se vê e que os empresários não estão perdendo, haja vista que nos últimos anos a passagem de ônibus em Santarém tem aumento anualmente. Em um negócio há sempre duas ou mais partes envolvidas e neste caso os empresários querem justificar um aumento da meia passagem na data base de seus empregados querendo transferir essa conta para o POVO pagar. Bem se é o povo é quem vai pagar a conta, pois não existe passagem fiada, também queremos saber quanto é que recolhem de encargos e impostos ao município, ao estado e a união. Sabemos que os ônibus não fariam e nem fazem a linha de ônibus se as ruas não estiverem em condições favoráveis e ainda mais como são veículos pesados o governo tem que investir mais recursos nessas ruas pois são deterioradas com mais freqüência. Assim é salutar a manutenção dos atuais valores da meia passagem aos estudantes santarenos que na sua maioria são oriundos de famílias com renda inferior a dois salários mínimos e que nessas famílias quase sempre o núnero de filhos ultrapassa a dois filhos estudantes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *